O Brasil é miscigenado e mestiço porque quer e gosta

O Brasil e miscigenado e mestico porque quer e gosta
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Foi publicada nessa semana uma pesquisa de mapeamento genético realizada na USP. Os dados revelam que o Brasil é o país mais miscigenado do mundo. O genoma brasileiro tem quase 60% de herança europeia, 27% de africana e cerca de 13% indígena.

A miscigenação se espraia pelas populações de todo o território nacional, mas a europeia é mais marcante em Goiás e no Rio Grande do Sul; a africana em Minas Gerais e na costa que vai do Rio a Pernambuco; e a indígena cresce substancialmente na Região Norte.

A miscigenação só não ocorre em alguns grupos brasileiros oriundos do extremo-oriente, dando razão parcial ao estereótipo que se tinha na República Velha de que japoneses e similares se integrariam menos à miscigenação brazuca por causa de seus traços culturais marcadamente etnocêntricos e endogâmicos.

Evidente que, no que diz respeito à mestiçagem, ou seja, à síntese de elementos culturais [e não apenas físicos], estes descendentes de japoneses, coreanos etc. se abrasileiraram também: o Brasil é uma ”máquina” irresistível de desetnicização e de integração.

Como era de se esperar, a herança genética europeia é herdada principalmente [mais de 70%] dos cromossomos masculinos, e indígena e africana vem majoritariamente [mais de 70%] dos femininos. Foi o suficiente para que os identitários negristas presentes na USP e também nas redações dos jornais e sites interpretassem o dado segundo seus dogmas segregacionistas importados dos EUA: o brasileiro é miscigenado, segundo dizem, por causa da violência sexual.

Essa tese foi, no entanto, derrubada por pesquisa do Datafolha divulgada em fins do ano passado e cujos resultados comentei em alguns textos. As entrevistas apontam que o brasileiro [91%] não tem problema para se relacionar, seja em amizades ou amorosamente, com indivíduos de cor ou raça diferentes, uma tendência que não muda quando se avalia o recorte de pretos [81% dizem que a cor da pele nunca interferiu no seus relacionamentos, sejam eles amorosos ou de amizade].

A maioria esmagadora dos entrevistados [77%] declara ter se relacionado amorosamente com pessoas de cor/raça diferente, uma proporção que não se altera substancialmente nos recortes de pardos/brancos/pretos. Mais ainda, dentre os brasileiros que já viveram em relações estáveis, a maioria casou ou morou junto com pessoas de cor/raça diferente da sua [48% do total dos pardos, 44% dos brancos, 51% dos pretos].

Estes dados explicam também as respostas de caráter mais subjetivo, principalmente aqueles sobre preferência erótica. 40% dos entrevistados dizem não ter predileção racial na hora da atração sexual. 28% preferem os pardos, 20% os pretos e apenas 14% os brancos [essa questão podia ter respostas múltiplas e daí que o resultado ultrapassa os 100%].

Dizendo de outra maneira, a libido brasileiro prefere a melanina. E isso inclui o recorte dos brancos, que tem proporção maior de pessoas com predileção por pardos [21%] do que por brancos [17%].

A verdade é que a miscigenação brasileira teve início antes mesmo da colonização propriamente dita. Antes da Monarquia lusitana se decidir pela ocupação sistemática do território do atual Brasil, já existiam dinastias de mamelucos [caboclos] na costa, frutos de casamentos entre portugueses e tupis.

Não é acaso, tampouco, que o mapeamento genético indique que a miscigenação se acentuou especialmente durante o ”ciclo do ouro”. O número de alforrias na América portuguesa sempre foi marcadamente maior que em outras experiências coloniais, e incidia principalmente sobre as mulheres. As libertas formavam famílias com pobres de todas as ‘cores’. A sociedade mineira setecentista era miscigenada não por causa do estupro sistemático de escravizadas, mas por gosto [incentivado também pela escassez de brancas].

Ou seja, reduzir a miscigenação brasileira a um fenômeno sistemático de violência sexual não passa de baboseira. Não nego a existência de violência durante a Era Colonial, especialmente contra indígenas e escravizados. Mas ela está longe, muito longe, de ser o fator determinante para elucidar o caráter integrador do Brasil. Afinal, a violência esteve presente também na colonização anglo-saxã com resultados muito diferentes quanto à mestiçagem, sincretismo, miscigenação e inclusão étnico-racial.

Afirmar que se tratam apenas de ”modelos” diversos de violência é concluir, de modo absurdo, que tanto faz uma sociedade integracionista ou segregacionista, que ambas tratam com a mesma virulência e tolerância a questão étnico-racial, que ambas tem a mesma capacidade e potencial de convivência e integração dos diferentes.

Os dogmas do identitarismo negrista foram elaborados em uma sociedade bem diferente da nossa. Os EUA nasceram e se desenvolveram de modo segregacionista. A aplicação das teses esquerdistas norte-americanas a um país que se originou em parâmetros sócio-culturais fundamentalmente diversos não passa de outro capítulo da cegueira das elites para nossas singularidades.

Enquanto militantes negristas dominam a mídia e as universidades, e os transformam em palanque para divulgação de ideologias alienígenas que moldam leis e instituições a partir de critérios bi-raciais e segregacionistas, o brasileiro comum continua, um século e meio depois do fim do escravismo, fazendo amizades, namorando, e casando sem qualquer exclusivismo racial.

O Brasil é miscigenado e mestiço porque quer e porque gosta.