O Resgate da Identidade e o Enfrentamento das Narrativas Coloniais na Obra de Marcelo Gullo

O Resgate da Identidade e o Enfrentamento das Narrativas Coloniais na Obra de Marcelo Gullo
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Por Marcos Andrade – Argentino, cientista político e doutor em Ciência Política, Marcelo Gullo consolidou-se como uma das vozes mais contundentes da geopolítica contemporânea ao formular a teoria da “Insubordinação Fundante”.

Acadêmico rigoroso e herdeiro da tradição do pensamento nacional, Gullo dedica sua trajetória a analisar como as potências hegemônicas utilizam a cultura e a história como ferramentas de dominação política. Sua obra transcende a frieza das análises geopolíticas ao investigar o pensamento que mantêm as nações periféricas em um estado de paralisia intelectual, propondo que o desenvolvimento material é impossível sem que haja, antes, uma libertação das amarras ideológicas impostas pelos centros de poder.

A obra de Marcelo Gullo, especialmente em seus trabalhos mais recentes, propõe uma revisão profunda e provocativa da história da América Latina, centrando-se no que ele define como o combate à Lenda Negra e a reafirmação da ideia de Madre Patria. Para o autor, a compreensão do presente e a construção de um futuro soberano para as nações hispano-americanas dependem de um exercício de análise histórica, onde se possa desmantelar traumas implantados por potências externas. Gullo argumenta que a Lenda Negra não é apenas um registro histórico enviesado, mas sim uma peça de propaganda geopolítica sofisticada, criada originalmente por impérios rivais da Espanha, como os Impérios Britânico e Holandês, para deslegitimar a presença espanhola no Novo Mundo.

Segundo essa visão, ao longo dos séculos, essa narrativa transformou a conquista da América em um evento unicamente genocida e destrutivo, ocultando o fato de que, na perspectiva de Gullo, o que ocorreu foi um processo de miscigenação e integração cultural que deu origem a uma civilização inteiramente nova.

Ele defende que a Espanha não tratou a América como uma colônia de exploração nos moldes britânicos, mas sim como províncias de ultramar, onde foram fundadas universidades, hospitais e cidades que seguiam o mesmo padrão jurídico da metrópole.

A Lenda Negra, em termos detalhados, é um fenômeno de comunicação política que apresenta a Espanha como uma nação excepcionalmente cruel, intolerante, ignorante e fanática em comparação com outras nações europeias. Na visão de Gullo, essa construção intelectual começou durante a Reforma Protestante e foi alimentada pela imprensa nascente do norte da Europa para justificar a guerra contra o Império Espanhol. Ela se baseia na amplificação seletiva de erros e abusos, que certamente ocorreram, mas que são apresentados como a única face da presença espanhola, omitindo as leis de proteção aos indígenas e o nascimento de uma cultura mestiça que não ocorreu em colônias das outras potências citadas. Para o autor, a perpetuação desse estigma serve para que os latino-americanos sintam vergonha de sua origem, impedindo que se reconheçam como parte de uma unidade cultural poderosa e distinta.

Nesse contexto, o conceito de Madre Patria surge como um elemento de cura para a fragmentação identitária dos povos latino-americano. Gullo sustenta que, ao aceitarem passivamente a Lenda Negra, os latino-americanos desenvolvem uma espécie de autotransformação em vítimas eternas, o que paralisa a sua capacidade de ação política e social. Ele utiliza uma abordagem que dialoga com a psicologia das massas ao sugerir que um povo que odeia seu próprio passado está condenado à subordinação ideológica, pois perde os laços que unem aos seus vizinhos. Para o autor, a verdadeira libertação não veio com a independência política no século XIX, que ele muitas vezes vê como uma fragmentação orquestrada por interesses estrangeiros para criar pequenas repúblicas fracas, mas virá com a reconciliação com a herança hispânica. Essa herança é vista como o amálgama que permite a esses países formarem um bloco sólido capaz de resistir às pressões da padronização cultural e econômica internacional contemporânea.

Ele acredita que a unidade cultural é o primeiro passo para a insubordinação fundante, ou seja, para o momento em que uma nação decide pensar com a própria cabeça.

Ao analisar o fenômeno do indigenismo moderno, Gullo o descreve como uma ramificação atualizada dessa mesma Lenda Negra, muitas vezes financiada por fundações internacionais que desejam manter a América Latina dividida em pequenos grupos identitários em conflito. Ele argumenta que o foco excessivo nas feridas do passado impede que se perceba que a maioria da população é fruto dessa mistura complexa entre o europeu e o nativo. Para Gullo, resgatar a Madre Patria não significa ignorar os abusos ocorridos, mas sim colocar a história em uma perspectiva justa, onde se reconheça que a fé, a língua e as instituições herdadas são as ferramentas que podem levar ao desenvolvimento.

O autor convida o leitor a olhar para a história não como um tribunal de julgamento moral simplista, mas como um campo de batalha geopolítico onde as ideias são armas. Em sua visão, ao abraçar a totalidade de sua história, incluindo as raízes vindas da península ibérica, a América Latina deixa de ser um objeto de estudo das potências e passa a ser, finalmente, o sujeito de seu próprio destino, superando o complexo de inferioridade que a Lenda Negra buscou perpetuar por gerações.

Por Marcos Andrade

Engenheiro e mestre em educação.