Por Leandro Altheman Lopes – O recente do estudo sobre o DNA da população brasileira, publicado na revista Science, revelou que o Brasil possui a maior diversidade genética do mundo. O estudo evidenciou a profunda miscigenação da população brasileira, com uma ancestralidade média de 59,1% europeia, 27,1% africana e 13,2% indígena e destacou que a maioria das linhagens paternas (cromossomo Y) é de origem europeia, enquanto as maternas (DNA mitocondrial) são predominantemente africanas e indígenas.
O estudo de certa forma, corrobora o que já é visível nos próprios traços fenotípicos predominantes de nossa população, com aumento da presença africana na faixa litorânea e aumento gradual da participação indígena no genoma a medida em que se desloca para o oeste do país.
A publicação do estado trouxe diferentes reações, a mais grave delas, a associação da menor participação do DNA africano e indígena masculino, como prova inequívoca de que a formação do povo brasileiro tenha sodo um estupro em massa.
A noção chegou a ser chancelada por uma das maiores pesquisadoras do tema da racialidade no Brasil, Dra. Lilia Schwarcz que em sua conta pessoal no Instagram cravou um ‘somos mesmo descentes do estupro’.
A fala foi imediatamente aplaudida por grupos ligados mais diretamente aos movimentos negro e indígenas e repudiada pelos grupos que, em crescimento, vem cada vez mais reivindicando o lugar do mestiço na sociedade.
A própria Revista Science preferiu a expressão ‘relações assimétricas’ para explicar a quase ausência do DNA masculino indígena ou africano.
Bem, é certo que os colonizadores ibéricos ocuparam lugar privilegiado na hierarquia colonial. Mas ao acusar a massa de 47% da população brasileira como resultado de estupros, a pesquisadora comete não apenas um ato de imprecisão histórica, uma leviandade – já que exame nenhum de DNA é capaz de comprovar se o quanto de cada genoma veio de um estupro – ou uma simples grosseria, mas em verdade um ato de racismo contra a maior parte da população brasileira.
Ninguém poderia negar que nesses 500 anos de colonização, com tantos episódios violentos, não teriam ocorrido violências sexuais contra mulheres indígenas. Ou ainda, que o senhorio da Casa Grande, não tenham cometido a violência sexual contra mulheres negras escravizadas, como mais uma entre tantas outras formas de violência escravocrata.
Contudo, o que se argumenta é que atos de violência dessa natureza não seriam sido capazes de gerar um grupo populacional que se aproxima da maioria absoluta do país. Teríamos aí uma quantidade ínfima de mestiços, como o que ocorre nos países de colonização britânica.
Somente uma política institucionalizada de casamentos interraciais poderia explicar como teríamos uma população desse tamanho e com esse perfil, e de fato é isso o que se encontra no exame aos documentos coloniais, com incentivo ao casamento dos colonos lusos com as mulheres indígenas, aldeadas e catequizadas nas missões. Podemos concordar que isso possa configurar uma forma de violência contra os povos indígenas, contudo não se trata de um estupro.
Antes disso ainda, tivemos as relações entre homens ibéricos e mulheres indígenas como parte de um sistema de formação de alianças pelo matrimônio que já estava instituída entre os indígenas antes mesmo da chegada do homem branco. Pode-se afirmar que isso também seria uma forma de violência contra as mulheres, já que estariam, em tese sendo utilizadas contra sua vontade, dependendo ainda, de afirmar que elas não tinham qualquer interesse nesses homens, o que diverge das observações, apontamentos e conclusões históricas antropológicas que, ao contrário, demonstram em verdade um ávido interesse em conhecer tudo aquilo que vinha do além-mar.
Nos séculos seguintes da colonização temos outro dado: em Salvador, capital do Brasil Colônia, a quantidade de homens brancos possuidores de escravos era ínfima, ao passo que já existia uma massa de mestiços, negros e negras alforriadas e trabalhadores brancos compartilhando as mesmas condições de pobreza, os mesmos bairros e ruas de Salvador.
Examinando ainda um dado atual, de que mesmo hoje os casamentos interraciais aumentam na proporção em que se desloca para a faixa menos favorecida da população, é possível inferir, que ao contrário de um estupro coletivo e secular, o casamento interracial e a mestiçagem entre as camadas populares sejam traços definidores de nossa sociedade brasileira, um aspecto que poderíamos definir como de ‘longa duração’.
Há elementos suficientes para contestar a tese de que a ‘mestiçagem é estupro’, tese que, diga-se de passagem, não tem nada de inovadora: essa foi sempre a maneira como os colonizadores britânicos, com seu proverbial puritanismo e ar de superioridade, se referiram ao latino-americanos e aos mestiços em geral: frutos de pecado, de estupros, de relações desaprovadas aos olhos de Deus.
Travestida de identitarismo pseudo-revolucionário, pintada com as cores da moda ‘decolonial’, a acusação de estupro sobre a população mestiça traz em seu âmago esse olhar branco, anglo-saxão e protestante, revivida para assombrar todos aqueles que tem em seu fenótipo a marca da presença de duas ou mais ‘raças’.
A doutora vale-se, contudo, de uma noção ampliada de estupro, cara a algumas vertentes do feminismo contemporâneo: se houve uma relação assimétrica, ali há um estupro.
Podemos partir desse ponto de vista e a conclusão não seria menos absurda. Relações assimétricas entre homens e mulheres foram a regra e não a exceção na história. Não foram exclusividade colonial. Sobretudo não foi exclusividade interracial. Indígenas a praticaram entre si, bem como entre os povos negros da África subsaariana, entre os brancos, foi não apenas documentada como é parte da história da Europa, como por exemplo no episódio do Rapto das Sabinas.
Nesse caso, se admitirmos que toda relação assimétrica é incondicionalmente, um estupro, devemos dizer então: a humanidade descende do estupro.
Qual a razão para particularizar apenas os mestiços? Não seria praticar uma forma cruel de racismo de marca, em que o fenótipo mestiço passa a ser lido como resultado de um crime cometido?
Por mais que a tese que relaciona a mestiçagem ao estupro possa, por razões diversas, agradar a uma parte da militância racial é preciso também apontar que ela implica em lançar uma mácula, com implicações sociológicas e psicológicas, sobre 47% da população brasileira.
Por Leandro Altheman Lopes
Fonte: https://leandroalthemanlopes.substack.com/p/os-bastardos-da-patria






