Por que o Pix brasileiro entrou na mira do governo Trump?
A primeira e mais visível razão para isso é que o Pix interfere nos interesses comerciais das chamadas big techs americanas em, pelo menos, dois aspectos.
Em primeiro lugar, trata-se de um sistema de pagamentos muito eficiente, pois realiza transferências instantaneamente, em tempo real; muito preciso e seguro, pois praticamente não falha (pelo menos, em circunstâncias normais); e, principalmente, gratuito, pois sem custos para a ampla maioria das transações realizadas por pessoas físicas e microempresários. Isso significa que o Pix, como sistema de pagamentos, se popularizou rapidamente e vem ocupando cada vez mais espaços antes explorados pelos cartões de crédito, cujas principais bandeiras – VISA, Mastercard e American Express – são americanas; mas também por mecanismos de pagamento como o do Whatsapp, pertencente à Meta. Além disso, o Pix é um instrumento criado e controlado pela própria autoridade monetária brasileira. Então, a principal instituição controladora e reguladora do sistema financeiro nacional se colocou, também, como uma concorrente de peso nesses serviços.
Em segundo lugar, há a questão fundamental do acesso e controle de informações. O sistema que realiza suas transferências financeiras tem acesso a informações valiosas a respeito dos seus hábitos, preferências e inclinações pessoais. Quais pagamentos e recebimentos você costuma realizar? Costuma frequentar bares, restaurantes? Durante a semana ou nos finais de semana? Viaja muito? Gosta de comprar roupas, calçados, acessórios? Quais marcas? Livros, filmes, séries de TV, peças de teatro? Outros produtos culturais? Carros, motos, bicicletas?
Enfim, há uma infinidade de possibilidades de gastos no capitalismo contemporâneo e, dentro dele, qual é o seu perfil ou padrão? Que tipo de consumidor você é? Tudo isso é facilmente mapeável através das suas transações e, além das curtidas e comentários em redes sociais, também se torna informação valiosa nas mãos das big techs. Compilar imensos bancos de dados sobre cada um de nós, sobre grupos específicos e sobre a sociedade como um todo é, justamente, o núcleo do seu negócio. Controlar e dispor dessas informações é exatamente o que lhes permite ganhar dinheiro de outras empresas, anunciantes interessados em realizar propagandas direcionadas. Isso significa que se o Pix está realizando essas transações no lugar dessas empresas, elas estão perdendo acesso a essas informações. Portanto, estão perdendo dinheiro.
Porém, há ainda a questão crucial da influência política. Ela diz respeito à capacidade já fartamente demonstrada das redes sociais mantidas por essas big techs de realizar propaganda durante as eleições, direcionando determinadas mensagens para grupos mais suscetíveis a elas. Da mesma forma, quanto mais informações elas conseguem obter de todos nós, mais eficazes (e valiosos) se tornam os seus serviços disponibilizados para finalidades político-ideológicas.
Logo, com o advento do Pix, além de dinheiro essas empresas também estão perdendo poder.
Essas já poderiam representar razões suficientes para o ataque de Trump, cujo governo está estreitamente ligado àquelas empresas, ao Pix. Afinal, este vem se mostrando um concorrente extremamente capacitado e difícil de ser enfrentado por elas. No entanto, essa é apenas uma parte de um problema cujas raízes, ou razões de fundo, estão no campo da geopolítica.
Com efeito, a inédita imposição de pesadas tarifas comerciais associadas às críticas à atuação do Judiciário (e, portanto, do Estado) brasileiro, em diferentes questões, constitui forte indício de que estejamos assistindo ao início de uma operação explícita dos americanos de “reenquadrar” o Brasil dentro de um alinhamento integral com os seus interesses geoestratégicos. É preciso ressaltar o “integral”, pois concretamente, o Brasil é um país bastante integrado (e submisso) aos dispositivos da ordem global (ainda) liderada pelos Estados Unidos – segurança, moeda e finanças, patentes e propriedade intelectual etc. -, para não falarmos da sua imensa influência cultural por aqui, principalmente sob as classes sociais mais abastadas.
No entanto, e apesar disso, ocorreram alguns “desvios de rota” nada desprezíveis nos últimos anos. O Brasil tornou-se membro fundador e atuante nos BRICS, grupo que almeja reformar a ordem internacional num sentido mais multilateral e, embora seja muito mais uma marca e um conjunto de intenções do que realizações, vem obtendo alguns avanços importantes nesse sentido, como o Novo Banco de Desenvolvimento. Nesse âmbito, o Brasil estreitou fortemente seus laços comerciais e de investimento com a China e, mais recentemente, vem esboçando fazer o mesmo com a Rússia e a Índia.
Além disso, temos ainda como fatos cruciais que a Rússia se encontra em guerra com o “núcleo” norte atlântico do “Ocidente”, através da Ucrânia; e que, pelo menos desde o governo Obama, os americanos parecem ter se dado conta de que precisam encontrar meios de frear a ascensão da China, antes que seja tarde demais (se já não for).
Todos esses elementos fazem com que seja estritamente necessário para a atual administração americana recolocar o Brasil “na linha”, como maior e mais importante país do seu “quintal” hemisférico (nesse sentido, não parece fortuita a escolha de Trump por Marco Rubio para secretário de Estado, um americano de origem cubana e perfil ideológico muito conservador, indicando um interesse especial na América Latina). Um Brasil que também se tornou um fornecedor de peso de matérias-primas e alimentos para a China, grande comprador dos seus produtos manufaturados e receptor de muitos dos seus investimentos, principalmente em infraestruturas.
De fato, não interessa ao atual governo dos Estados Unidos que tudo isso continue se desenvolvendo dessa forma. Nesse sentido, a estratégia deles já parece estar claramente delineada: pretendem ampliar a sua capacidade de influenciar sobre os rumos aqui no Brasil e, para isso, utilizam dois pretextos. O primeiro, os processos judiciais contra Jair Bolsonaro. Querem a anulação desses processos, possivelmente visando recolocá-lo no centro da disputa eleitoral no ano que vem.
O segundo pretexto passa exatamente pelas big techs americanas. Pretendem derrubar as ações de regulamentação das suas operações em território brasileiro que vem sendo tomadas, por exemplo, por decisões do STF. O objetivo é fazer com que, sob as alegações da defesa da “liberdade de expressão” e do combate à “censura”, essas empresas possam operar num ambiente plenamente desregulado, propício às suas práticas já corriqueiras de difusão de informação/desinformação/contrainformação em massa, assim influenciando a “opinião pública” e direcionando a disputa eleitoral no ano que vem.
Diante disso, curiosamente, ao reduzir o raio de ação dessas empresas no Brasil e a sua capacidade de reunir, controlar e manipular informações a nosso respeito, o Pix acabou se transformando num instrumento de defesa da soberania nacional – provavelmente um efeito inesperado frente aos seus intuitos iniciais. E justamente por isso, se a leitura dos fatos aqui apresentada estiver correta, não deverão cessar os questionamentos de Trump ao sistema de pagamentos do banco central brasileiro. Muito pelo contrário: ele deverá se tornar alvo de ataques cada vez mais frequentes e contundentes como parte de uma operação que visa abrir espaços crescentes para a operação desimpedida daquelas empresas, peças-chave na ampliação dos seus instrumentos visando orientar os acontecimentos no Brasil (ainda mais) de acordo com os seus interesses.






