A trajetória de Prevost e o nome que escolheu não têm nada de sutis. Pelo contrário, gritam o perfil do novo Papa.
Os católico-romanos terão um Pontífice que dará continuidade ao foco de Francisco em questões sociais, na crítica ao capitalismo, na defesa dos pobres e dos imigrantes. Ao mesmo tempo, será também mais conservador em temas morais, principalmente no ímpeto de inclusão de gays, que os liberais tentaram impor recentemente na Igreja Romana.
Apesar de toda a proximidade com Francisco, o Bispo Prevost recebeu a Fiducia Suplicans de maneira fria. Não a criticou publicamente, demonstrando lealdade a Bergoglio, mas tampouco a saudou. Disse que ela tinha de ser implementada, levando-se em conta o contexto cultural de cada região. Ou seja, praticamente concordou com os Bispos africanos que, em sua rebelião pública, simplesmente alegaram ser impossível abençoar ”pares” homossexuais no continente.
Por trás disso, há a aposta na sinodalidade. Em seu primeiro discurso, o novo Papa disse que o caminho da Igreja sinodal será mantido. Este parece, sem dúvida alguma, o novo projeto do Vaticano, embora ainda não se saiba exatamente como o Papado vai se articular nessa nova Igreja sinodal que quer fazer nascer, e que não sabe muito bem como trazer à luz.
Enfim, Leão XIII foi um dos grandes artífices da Doutrina Social da Igreja. O nome transcende, portanto, a própria teologia da libertação latino-americana, indo direto à fonte da abordagem doutrinária sobre as questões sociais e econômicas.
Como se sabe, a DSI tem forte apelo à distribuição de propriedade para as famílias, a subordinação da propriedade privada ao princípio da destinação universal de todos os bens [“ninguém tem direito ao supérfluo enquanto alguém carecer do necessário”], à proteção do trabalho. Ela faz uma crítica muito explícita tanto ao liberalismo quanto ao comunismo, reivindicando outra via de organização da sociedade.
A Rerum Novarum, de Leão XIII, defende que o trabalho é a fonte de riqueza última de toda sociedade, e que é justo que os trabalhadores fiquem o com fruto de seu trabalho. O poder público deve intervir na organização social e econômica para garantir a proteção aos trabalhadores, o justo salário e demais direitos. O Estado deve também proteger os trabalhadores dos especuladores e usurários, além de garantir a Previdência Social.
De uma ótica política, é uma jogada importante escolher um Pontífice norte-americano a essa altura do campeonato. Primeiro, houve uma debaclé do protestantismo ianque. Além disso, o atual vice-presidente dos EUA é o católico-romano J. D. Vance — óbvio candidato a novo Chefe de Estado do Tio Sam.
A Igreja Romana nos EUA depende sobremaneira dos imigrantes. 36% de todos os católico-romanos nos EUA são “hispânicos”, ou seja, tem origem latino-americana, o que aponta para a óbvia reprodução exógena dos fiéis do país.
Dizendo de outra maneira, os católico-romanos mantém sua proporção de 20% a 22% da população dos EUA porque alimentados continuamente pelo fluxo de imigrantes pobres de países majoritariamente romanos [primeiro italianos, irlandeses, alemães, poloneses, e nas últimas décadas os latino-americanos]. Esses imigrantes são os operários e o precariado que alimenta a máquina de moer almas do capitalismo ianque. É também um público que recentemente tem migrado do Partido Democrata para o trumpismo.
Todas essas linhas de força podem se encontrar em Leão XIV, permitindo que ele faça um contraponto a Trump vindo DA “DIREITA”, e não dos identitários. Um contraponto não é necessariamente ”oposição política”, deixo claro. Mais ainda, ele pode ser um interlocutor importante do trumpismo e de seu mais provável herdeiro, J. D. Vance.
Prevost tem nacionalidade peruana também. Estamos falando do segundo papa latino-americano. Um nome com um pé no Norte e outro no Sul da América, continente que reúne mais de 40% de todos os fiéis da Igreja Romana.
Os cardeais escolheram um Papa que é a ‘cara’ de fato da Igreja Romana que de fato existe, para além das fantasias deste ou daquele grupo específico. Saberemos em breve se é também aquilo de que a Igreja Romana precisava.






