Por Newton Cannito
Entre a cruz e a espada: o contexto
Os séculos XVI e XVII foram o período de formação do Brasil interiorano. O litoral já era conhecido, mas o interior — o ‘sertão’ — permanecia um território de mistério, de alianças e confrontos. Foi nesse contexto que surgiram as bandeiras paulistas, expedições organizadas a partir de São Paulo de Piratininga para explorar o território, capturar indígenas, buscar ouro e ampliar as fronteiras do domínio português. Esses homens, que mais tarde passariam à história como bandeirantes, eram, em sua maioria, mamelucos — filhos de portugueses com mulheres indígenas. Falavam tupi, conheciam as trilhas e os rios, dominavam técnicas de caça e sobrevivência que vinham da tradição indígena. Eram, portanto, símbolos da mestiçagem brasileira em ação. Essa mistura, que unia cultura europeia e saber nativo, foi a base do avanço territorial que definiria o contorno do Brasil.
Bandeirantes e jesuítas: dois tipos de heroísmo
Enquanto os jesuítas representavam o ideal espiritual da colonização — fundando colégios, aldeamentos e traduzindo a fé em língua tupi —, os bandeirantes encarnavam o ideal da ação. Os jesuítas queriam salvar almas; os bandeirantes, conquistar terras. Entre eles houve colaboração e conflito, aproximação e ruptura. Os missionários procuravam proteger as populações indígenas da escravidão; os paulistas viam nelas aliados ou inimigos, conforme as circunstâncias. Ambos, no entanto, foram forças fundadoras do Brasil. Os jesuítas civilizaram pelo ensino e pela palavra; os bandeirantes consolidaram o território pela coragem e pelo movimento. Como escreveu Alfredo Taunay, ‘não se constrói uma pátria sem fé e sem espada’ — e o Brasil nasceu da tensão entre essas duas forças.
Borba Gato: o homem e o mito
Manuel de Borba Gato (1649–1718) nasceu em São Paulo, filho do bandeirante João de Borba e de Sebastiana Rodrigues. Casou-se com Maria Leite, filha do famoso Fernão Dias Paes Leme, o ‘Caçador de Esmeraldas’. Durante uma das expedições comandadas por seu sogro, Borba Gato participou da busca por metais preciosos nos sertões de Minas Gerais. Em 1682, após um conflito que resultou na morte do ouvidor Raposo Tavares de Oliveira (autoridades divergem sobre as circunstâncias), Borba Gato se refugiou por quase vinte anos no sertão mineiro, vivendo entre arraiais e lavras de ouro. Quando o governo português iniciou a exploração sistemática das minas, ele foi perdoado e nomeado guarda-mor das minas do Sabará — função de autoridade e confiança, que demonstra o reconhecimento do seu papel na consolidação da região. Borba Gato, portanto, foi um dos primeiros organizadores do ciclo do ouro, e sua trajetória simboliza a transição entre o bandeirismo de conquista e o início da economia colonial mineira. Era um homem de fronteira: guerreiro, sertanista e administrador — figura de ação e adaptação, típica da formação do Brasil.
O gesto simbólico: um bolo de fubá com mel e café
Em 2021, a estátua de Borba Gato, em Santo Amaro, foi incendiada por manifestantes — um episódio que expôs a polarização sobre a memória nacional. O Festival Utopia Brasil de Artes (FUBA) responde a essa ferida não com destruição, mas com doçura e diálogo. No dia 22 de novembro, o grupo se reúne diante do monumento para um ato simples e profundo: servir bolo de fubá com mel e um café compartilhado. O gesto é uma conversa afetiva em torno da estátua — um café da manhã aberto, onde o alimento simboliza escuta, convivência e reconciliação. O bolo de fubá, feito de milho indígena moído nas mós coloniais, representa a mistura que moldou o Brasil. O mel traz a doçura da vida, a ideia de adocicar o amargo da história, e também carrega o sentido do MEL – Movimento Escravos Livres, iniciativa da Utopia Brasil, que luta com arte e leveza contra as escravidões do presente. O café, por sua vez, é a bebida do encontro e da vigília — símbolo da conversa franca e do despertar coletivo. Assim, o FUBA transforma o espaço do monumento em mesa: um lugar de partilha e reflexão, onde o passado é revisto sem ódio e o futuro é preparado com afeto. É um gesto de cura simbólica, que propõe trocar o fogo da destruição pelo calor humano da convivência.
Memória, arte e identidade
O objetivo não é idolatrar nem condenar o passado, mas entendê-lo em seu contexto. Julgar antepassados com os valores do presente é perder de vista o processo histórico que nos formou. Como lembrou Sérgio Buarque de Holanda, o paulista das bandeiras ‘foi o homem do caminho, o que não se detém na fronteira, o que abre o Brasil à sua própria grandeza’. Borba Gato, nesse sentido, é menos um personagem individual e mais um símbolo da expansão, da mistura e da coragem que marcam a formação do povo brasileiro. Com o FUBA, a arte ocupa o espaço da polêmica para propor escuta, convivência e imaginação. Porque não se constrói uma nação sem memória — e não se cura uma memória sem diálogo.
“A arte é o espaço onde a história pode ser escutada sem violência.” — Utopia Brasil
Realização: Festival Utopia Brasil de Artes (FUBA) e Artistas Livres.






