Por Carlos Sávio Teixeira – No próximo sábado acontecerá a final da Taça Libertadores da América entre Atlético Mineiro e Botafogo. Se o confronto é totalmente surpreendente, o seu desfecho é bastante previsível. Aconteça o que acontecer na bela capital argentina, o assunto principal após a peleja será a arbitragem!!! Galo e Bota têm vários traços comuns, mas o principal é o mimimi em relação a supostas mutretas urdidas para prejudicá-los, cujo raciocínio implícito é o de que, se não houvessem essas “armações”, ambos seriam verdadeiras máquinas de conquistas.
O Atlético ficou marcado na história pela derrota para o Flamengo na final do Brasileiro de 1980, no lendário Maracanã. Segundo a narrativa dos mineiros, não foi Zico e seu timaço, um dos maiores da história universal do futebol, que se impuseram ao Galo. O responsável pela derrota dolorida dos alvinegros das alterosas seria o árbitro, que expulsou o craque atleticano Reinaldo, uma figura neurastênica e agressiva, que claramente extrapolou disciplinarmente. Essa maluquice calou tão fundo na alma atleticana que, passados quase 50 anos, eles achavam que se “vingariam” da “injustiça” de 1980 na final da Copa do Brasil deste ano. O desfecho completamente adverso, novamente, levou à violência generalizada que se assistiu na Arena MRV.
O Botafogo é um time cuja história é marcada por inúmeras fantasias, mas a principal também diz respeito a um suposto complô das arbitragens contra o clube. Talvez seja a forma com que os alvinegros encontraram para conviver com a parte de seu hino que diz, candidamente, que o Bota “não pode perder para ninguém” – logo o Botafogo! Mas o mais absurdo nessa tresloucada ideia de conspiração é que as duas mais importantes conquistas da história botafoguense foram alcançadas com evidentes erros de arbitragem: o gol de Maurício na final do Campeonato Carioca de 1989, que pôs fim a um jejum de títulos de vinte e um anos (isso mesmo, 21, duas décadas e um ano sem gritar “é campeão”), teve claro empurrão no marcador. Seis anos depois, a situação foi ainda mais impressionante. Na final do Campeonato Brasileiro de 1995, a vitória botafoguense foi alcançada com dois clamorosos erros do juiz (reconhecido, inclusive, muitos anos depois, pelo próprio). A arbitragem validou um gol irregular do hoje time do milionário norte-americano John Textor – que já incorporou o habitus botafoguense do mimimi –, e, pasmem, anulou um gol legal do adversário.
Atualmente, os dois times experimentam dificuldades diferentes: o Atlético está há mais de dez jogos sem vencer, vivenciando crise técnica que leva o time a jogar futebol irregular e medíocre. Depois da dupla derrota na final Copa do Brasil, a sua torcida esmoreceu, especialmente porque a desculpa da arbitragem não pôde ser mobilizada para o fracasso diante do grande rival. Já o Botafogo vive um paradoxo: ano passado o time protagonizou a maior fraquejada da história do futebol brasileiro, ao conseguir a proeza de perder o título nacional depois de abrir treze pontos para o segundo colocado. Haja tramoia de arbitragem para justificar um fiasco desses. Neste ano, chegou à final da Libertadores com atuações consistentes e até exuberantes (como a goleada histórica no Peñarol, do Uruguai, na semifinal) nas fases eliminatórias.
No entanto, não devemos nos enganar. No estádio Monumental de Nuñes, o principal ator da grande final não será um craque, uma bela jogada, uma substituição bem engendrada, um esquema tático surpreendente, nada disso receberá a atenção principal. O foco primordial da final será o excelente árbitro portenho, o Sr. Facundo Tello. Guardem este nome. Para atleticanos e botafoguenses vale o inverso de um ditado do mundo futebol, segundo o qual o bom árbitro é aquele que passa despercebido.
Por Carlos Sávio Teixeira (UFF).






