Vinicius de Moraes e o amor paradoxal

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Vinicius de Moraes é daqueles personagens cuja obra não pode, jamais, ser interpretada em apartado ao autor. Podemos citar diversos ofícios do poetinha: escritor, músico, compositor, diplomata… mas não há nada mais preciso do que: boêmio.

Não acumulou riquezas – dizem que quando recebia prêmios relevantes cuidava de marcar com agilidade uma festa. Convidava todos os amigos para sua casa e providenciava garrafas e garrafas de whisky (o melhor amigo do homem – dizia – “o cachorro engarrafado”).
E é assim a vida do boêmio; o hoje se vive hoje, o amanhã é problema do futuro.

Namorados apaixonados podem ver, na sua poesia, uma grande declaração de amor à sua esposa. O X da questão, para quem conhece um pouco a vida do poeta, é entender qual das esposas.

Vininha casou-se por nove vezes. Beatriz, Regina, Lila, Maria Lúcia, Nelita, Cristina, Gesse, Marta e Gilda. Nove.

A paixão de Vinicius se confunde com aquele amor quase infantil que sentimos pela primeira namorada ou pelo primeiro namorado. O amor é chama. E a infinitude dele existe enquanto durar.

Arrisco dizer que, mais do que paixão pelas esposas, Vininha era um apaixonado por se apaixonar. O seu grande amor era, na verdade, o próprio amor. As esposas eram apenas os alvos de um arqueiro primoroso que, assim que atingia o centro com suas flechas, partia para os próximos desafios.

De acordo com o dicionário Michaelis, a definição filosófica para paradoxo é “pensamento ou argumento que contraria os princípios que costumam nortear o pensamento humano ou desafia o conhecimento e a crença da maioria dos seres humanos”.

E é na obra que reside o paradoxal amor do poeta.

Em um dos seus textos mais saborosos, “Para viver um grande amor”, Vinicius escreve:

“Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher… – não tem nenhum valor.”

Como pode um homem que viveu nove grandes amores dizer que, para vivê-lo, deveria ser de uma só mulher?

A questão é que Vinicius sempre foi de uma só mulher: a que ele amava.

A que ele amava naquele momento.