Popo Vaz: O CIStema que mata por dentro e por fora

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O dia 14/03/2022 terminou da forma que começou: nublado. Apesar do início ter sido apenas por conta das nuvens cinzas que cobriam o céu paulistano, o entardecer escureceu com a triste notícia de uma vida que chegara ao fim. Paulo Vaz, ou Popo Vaz, como era conhecido, surgiu como um farol para que outros homens trans como ele pudessem navegar pelas águas tortuosas do sistema burocrático que se esforça para esmagá-los nas pedras por buscarem ser quem são.

Não é de hoje que conhecemos os dados da ANTRA (Associação Nacional de Transsexuais e Travestis) sobre a expectativa de vida da pessoa trans, sobre a violência nas ruas, a liderança do Brasil no índice de mortes causadas por crime de ódio e preconceito, arrisco que esses dados já estão até memorizados por quem acompanha os casos, sempre presentes no dia 29 de janeiro, dia da visibilidade trans e travesti ou no mês de junho, quando se aproxima o mês do Orgulho LGBTQIA+.

Infelizmente as mortes causadas por fora não são as únicas que levam os nossos.

O CIStema mata por fora, mas também mata por dentro. Em tempos em que a internet continua sendo águas internacionais, sem lei que proteja seus navegantes, ainda vemos pessoas trans nadando a esmo contra a corrente, perdidas numa imensidão prestes a serem afogadas pelas ondas de ódio gratuito que incessantemente enxaguam o ambiente online. As piadas ultrapassadas, os julgamentos rasos e comentários odiosos que escorrem pelas telas dos computadores e celulares inundam a cabeça de pessoas que viveram a vida toda nadando contra a corrente de um sistema que parece não querer que elas existam.

Na superfície de sua existência, pessoas como Paulo precisam provar que são quem são com intermináveis retificações de documentos e processos burocratizados, e nas profundezas da mente, precisam se lembrar constantemente de que não são piores ou menores que as pessoas cisgêneros. Um exercício difícil de praticar quando a maré de julgamentos sobe e alguém se vê cercado de comentários negativos como tubarões prestes a morder.

A correnteza de ódio levou mais um que pedia desesperadamente por um colete salva-vidas que ninguém foi capaz de lançar. Paulo, que ofereceu tanto a comunidade, não recebeu nada em troca.
Se nos chocamos com as mortes causadas fora do CIStema, deveríamos nos horrorizar pelas mortes vindas de dentro dele.