O Quinto Movimento começa com um Partido Nacional

O Quinto Movimento comeca com um Partido Nacional
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Acabo de ler o livro desse grande brasileiro, Aldo Rebelo, que advoga pela necessidade de inauguração de um novo ciclo histórico no Brasil. Na interpretação bem adequada de Aldo de nossa história, o Brasil viveu quatro grandes movimentos formativos. O primeiro movimento teria sido a construção de sua base física, movimento básico ocorrido entre 1500 e 1750, que tinha como objetivo a exploração e ampliação de seu território. O segundo movimento teria sido a busca por independência, ocorrida fundamentalmente entre 1750 e 1822. Lograda a independência teria se inaugurado o movimento por sua consolidação e o da integridade de nosso território, face as várias tentativas de secessão e mesmo guerras externas entre 1822 e 1889. Enfim, com a proclamação da República, se inauguraria o quarto período, onde a prioridade da Nação foi a formação do Estado e industrialização do Brasil, com a consolidação de sua soberania.

Compartilho da visão histórica e nacional de Aldo Rebelo, e acho que seu livro é uma peça de amor ao Brasil e a sua verdadeira alma que deve ser conhecido pelas novas gerações. Ali estão registros de um Brasil que muitos jamais conheceram ou ouviram falar.

Além disso, a obra apresenta uma corajosa crítica ao identitarismo e multiculturalismo, particularmente em suas faces racialista e indigenista, corretamente identificadas como máquinas de guerra financiadas pelo exterior e direcionadas a fragmentar e enfraquecer o Brasil.

A crítica construtiva que tenho a fazer, no entanto, é que a obra não apresenta nem um diagnóstico claro de nossos principais problemas nem um projeto de como nos tirar dele. Ao fim e ao cabo, terminamos o livro sem clareza de qual seria o “quinto movimento” de que o Brasil precisa.

Não que faltem propostas objetivas no livro. Elas existem, particularmente nas áreas nas quais Aldo, com sua vasta e produtiva vida pública, já deixou sua contribuição ao país. A criação de uma nova regulação para retomar a soberania sobre o subsolo da Amazônia, a necessidade de resolver o obstáculo que a associação entre MP e onguismo internacional se tornou para o desenvolvimento, uma emenda constitucional garantindo via rápida para obras de infraestrutura de interesse nacional, a construção da base naval da Segunda Esquadra com base de submarinos, a retomada da Missão Espacial Completa Brasileira entre outros. Mas julgo que falta ao livro não só a discriminação dos meios para viabilizar isso como o desenho estratégico ao qual essas ações serviriam.

Nesse ponto, não posso deixar de apontar que o livro de Ciro Gomes oferece ao desenho histórico e preocupações do livro de Aldo uma profícua complementaridade, com um projeto mais detalhado dos meios pelos quais alcançaríamos o Brasil moderno e soberano que o quarto movimento falhou em alcançar.

Se há uma crítica que devo fazer ainda tanto ao livro de Ciro quanto mais ao livro de Aldo, é que eles apresentam uma percepção suavizada do tamanho da crise pela qual estamos passando. Na minha avaliação, estamos vivendo hoje no Brasil mais do que uma crise, mas o começo de um colapso civilizatório e de uma dissolução enquanto nação soberana.

Num momento de colapso nesse nível, que a Rússia viveu por exemplo em 1991, não vejo casos de sucesso no mundo de nações que não tenham recorrido aos elementos mais profundos e elementares da formação de sua identidade, cultura e estrutura nacional.

A Rússia, por exemplo, conseguiu se reerguer recorrendo à junção de moralidade ortodoxa, nacionalismo russo e burocracia comunista, três elementos fundadores constitutivos de sua nacionalidade e identidade.

No caso do Brasil, vejo três desses elementos que precisamos mobilizar e unir para sair desse momento. A Igreja Católica, que nos colonizou, educou e talhou nossa moralidade, construindo até nossa primeira forma de organização política com as “paróquias”; o Exército, verdadeiro artífice de nossa unidade territorial e dos primeiros noventa anos de nossa República; e o Trabalhismo, surgido do gênio político de Vargas e que ofereceu a identidade e organização do Estado brasileiro tal como a conhecemos, assim como o pouco arremedo de bem-estar-social e direitos que temos até hoje.

O Brasil deve, em qualquer projeto de salvação nacional que se faça presente hoje, recorrer a esse chão da nacionalidade: a espiritualidade cristã; o único braço de formação permanente de quadros de Estado oriundos das classes populares, as Forças Armadas; e por fim à única construção institucional e projeto econômico que deu certo no Brasil, a Era Vargas que FHC prometeu enterrar.

E é por isso que, ao olharmos para o cenário eleitoral de hoje, a gravidade terminal de nossa situação se evidencia. Temos na presidência um depravado e incapaz que, valendo-se de símbolos das duas primeiras identidades fundadoras, investiu violentamente contra a terceira e só não conseguiu destruí-la por causa da oposição interna das Forças Armadas. Como alternativa de direita a ele, temos um juiz criminoso que talvez seja o caso mais evidente de agente norte-americano de nossa história, um homem que tem como cartão de visitas a oferecer ao país a destruição de grande parte de nossas melhores indústrias com informações que recebeu diretamente de órgãos norte-americanos.

Por fim, como favorito do momento a vencer as eleições, temos a perspectiva de retorno ao projeto de poder mais longo desde o fim do período militar, o projeto que, justamente, nos trouxe a essa crise de dissolução nacional. O PT de hoje é, no entanto, ainda pior que o PT do início do século. Este PT que está aí se afundou no mais alienígena identitarismo, de onde extrai sua falsa identidade de esquerda. Seus laços com a Igreja Católica e a moralidade cristã desapareceram. Sua natureza internacionalista permanece, e o antagonismo com as Forças Armadas alcançou novos patamares depois da deposição de Dilma. Por fim, inimigo histórico do trabalhismo, o petismo conseguiu destruir a estrutura sindical da era Vargas e luta há quarenta anos para destruir seu representante partidário, o PDT.

As ameaças, de um lado, de um governo preposto dos EUA, e de outro, de um partido que em tudo move uma guerra de morte contra a alma brasileira, ainda escondem a mais terrível de nossas desgraças. As três candidaturas que avaliamos defendem o mesmo modelo econômico antinacional que começou a ser aplicado no Brasil no governo Collor, encontrou sua formulação mais perene no governo FHC e sua melhor administração no governo Lula.

Esse modelo, direcionado a destruir o quarto movimento de construção de nossa soberania e industrialização, teve vários momentos como abertura comercial sem planejamento (Collor), fim da distinção de indústria nacional e estrangeira (FHC), privatização de empresas estratégicas e lucrativas (FHC), juros reais mais altos do mundo para atrair dólares perdidos na balança de pagamentos (FHC, Lula), populismo cambial desindustrializador (Lula), promoção de operação judicial para destruir nossas maiores indústrias com beneplácito e colaboração do governo (Dilma), destruição dos direitos trabalhistas (Temer), desmonte da Petrobrás e direitos previdenciários (Bolsonaro).

A perspectiva da continuação desse modelo liberal, que não promove políticas industriais para desenvolvimento de nossa base produtiva, amarra o papel empreendedor do Estado e compensa a progressiva desnacionalização de nossa economia – e por consequência déficit na balança de pagamentos – com juros mais altos que a média internacional, é uma combinação suicida de demagogia e interesse internacional que matou nosso quarto movimento.

É por isso que penso que, mais do que um quinto movimento, o que o Brasil precisa é retomar seu quarto movimento que foi morto junto com a nova República. Perdemos hoje grande parte da base industrial que tínhamos e nossa soberania se perdeu no nosso atraso tecnológico.

Mais do que uma mudança de modelo, o que está em jogo hoje é a sobrevivência da própria democracia no Brasil. O regime democrático desde 1985 até aqui tem se mostrado incapaz de pensar os interesses nacionais em longo prazo, e a sucessão de demagogos, incapazes e agentes estrangeiros que legou à presidência da República colocaram a construção do Brasil em seu leito de morte.

Se há alguma esperança de acordar esse gigante, não do berço esplêndido, mas da UTI onde se encontra, está na grandeza de homens públicos como Aldo aceitarem a necessidade histórica de unir todas as forças nacionalistas do Brasil no mesmo barco. A única candidatura que hoje oferece não só essa alternativa, mas mesmo que ressuscitou esse debate nacional, é sem dúvida a de Ciro Gomes.

Mais do que uma candidatura, precisamos reconstruir um partido verdadeiramente nacional que mantenha na agenda essas questões, que alcance o poder ou tenha força real de cobrá-lo e denunciá-lo. Uma união nesse momento entre Aldo e o PDT e Ciro Gomes traria muito do que falta a Ciro para ser esse governante que o Brasil precisa: uma articulação construtiva do trabalhismo com as Forças Armadas e o que ainda existe de direita com interesse nacional no Brasil, o agronegócio.

A história pede de lideranças como Ciro e Aldo, que sempre atuaram de forma bastante individual, a responsabilidade da reconstrução de um grande partido nacional, sem o qual livros e eleições serão sempre moídos no moinho incansável do imperialismo.

Vamos juntos, Aldo! O Brasil chama. Talvez pela última vez.

  1. Excelente texto, Gustavo. O Aldo precisa reconhecer que esse é o caminho, de união com Ciro e o PDT, para retomar o desenvolvimento, reativar a indústria e investir massivamente em educação. Aldo Rebelo seria um ótimo ministro no governo Ciro.

  2. O articulista assim conclui: “Uma união nesse momento entre Aldo e o PDT e Ciro Gomes traria muito do que falta a Ciro para ser esse governante que o Brasil precisa: uma articulação construtiva do trabalhismo com as Forças Armadas e o que ainda existe de direita com interesse nacional no Brasil, o agronegócio.”

    Apenas aviso aos viajantes que as Forças Armadas já não são nacionalistas desde 1964 com a submissão a interesses dos EUA, porém na atualidade isso chegou a extremos quando os oficiais em sua maioria seguem um Neoliberalismo Entreguista, enquanto os praças seguem um Bolsonarismo (também Neoliberalóide) falso moralista e alienante.

    Direita com interesse nacional também é quase uma contradição lógica, principalmente após o período de 1990 até os dias atuais. Já o agronegócio (cada vez mais sem preocupações nacionais e mais balizada por questões internacionais) é ainda mais contraditório, pois seus interesses (e isenções) muitas vezes conflita com políticas industriais e urbanas.

    Ahhh além de discordâncias históricas (como colocar no mesmo balaio como um “quarto movimento” tanto a República Velha com Trabalhismo Nacional de Vargas/Jango com Desenvolvimento Multinacional de JK, além do Militarismo Submisso de 1964 a 1985)… há discordâncias políticas com Aldo que se diz “nacionalista”, mas apoiou Temer que é um declarado Entreguista.

    Falta filosofia nessas análises políticas e econômicas do articulista, porém também identifico que a historicidade que entende por alguns livros divergem da historicidade com base em fatos.

  3. Parabéns Gustavo;
    È de um acerto quase no alvo. Ainda há algumas divergências nos projetos de Aldo e Ciro, mas sim eles possuem uma complementaridade e seria uma excelente junção.
    Ainda sim vamos de Ciro.
    #PrefiroCiro

  4. Aldo seria uma escolha estratégica como vice, pois tem dialogo com os nacionalistas e o agro.
    Nos atuais atuais de ataques da União Européia ao nosso agro-negócio seria uma forte mensagem de compromisso com o setor.
    Certamente uma escolha muito melhor do que Marina Silva que justamente apresenta sinais contrários.

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