A Rússia entraria em guerra pelo Irã?

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Cinco motivos pelos quais Moscou dificilmente fará isso

É difícil esperar que a Rússia apoie diretamente o Irã em sua sua guerra com os Estados Unidos. 

O Irã foi atacado pelos Estados Unidos. O presidente do país segue vivo, mas o Líder da República Islâmica, Ali Khamenei, foi morto no primeiro dia. Agora o país enfrenta a força de destruição combinada de Israel e da avassaladora máquina de guerra dos Estados Unidos. Mesmo que o regime da República Islâmica sucumba com a destruição, desmoralizando seus apoiadores que saíam às ruas e desestimulando aqueles que ocupam posições ativas no Estado, o país já foi profundamente devastado.

A Rússia poderia apoiar o Irã?

Muitos conhecem a resposta básica: uma guerra tem custos, e a Rússia já está lutando uma guerra em sua própria fronteira, contra o Estado ucraniana, que é uma guerra custosa contra um Estado com um exército poderoso apoiado pelo Ocidente, mas não uma guerra direta contra as forças armadas dos Estados Unidos.

É possível perguntar, em tom de ressalva: a grande estratégia russa não percebe a importância de um revés da hegemonia dos Estados Unidos caso este sofra uma derrota no Irã? O problema para essa consideração é que a existência desse interesse não significa que ele será contemplado por meio de participação militar, pois existem fatos anteriores que dificultam a cooperação entre os dois países.

Na verdade, isso se aplica inclusive à hipótese de uma defesa mais ativa do Irã por parte da Rússia antes mesmo de o conflito começar.

É preciso recordar alguns fatores centrais que preveniram os dois países de ter uma aliança tão forte assim:

1) A Rússia e o Irã tentaram trabalhar como aliados na Síria, mas isso falhou e até criou novas tensões. Esse tema foi discutido em meios ocidentais e é admitido claramente por fontes russas. A Rússia defendia reformas políticas na Síria, envolvendo alterações constitucionais e uma nova transição, enquanto o Irã tinha uma posição mais fundamental na defesa de Bashar al-Assad. A Rússia era mais favorável a conversas e à reintegração de grupos que lutavam contra o Estado, o que, no campo de batalha, se refletiu em uma política de corredores de evacuação para os rebeldes. Mais grave ainda para os iranianos, a Rússia aceitava a federalização da Síria, atendendo a uma reivindicação curda, o que era uma linha vermelha para Teerã, que conta com sua própria população curda. A Rússia aparecia como um player geopolítico realizando intervenções estratégicas para defender uma posição internacional, enquanto o Irã defendia um conjunto específico de interesses: seus laços econômicos mais profundos com a Síria e a logística do “Eixo de Resistência” (conjunto de aliados iranianos, sobretudo o Hezbollah, que tinham, através da Síria e do Iraque, um corredor até o Irã).

Em 2017, a Rússia negociou uma zona de desescalada do conflito no sul da Síria com Israel em um formato separado e excludente dos iranianos. Quando Putin encontrou Trump em Helsinque, em 2018, ambos afirmaram um compromisso com a segurança de Israel, com a Rússia enquadrando sua presença na Síria como uma operação capaz de garantir o armistício sírio-israelense de 1974.

A Rússia manteve uma postura de não enfrentamento com Israel, principal inimigo regional do Irã e que bombardeou a Síria diversas vezes sob a justificativa de combater o Irã, sem uma reação russa.

No contexto da estratégia militar, a Rússia se colocava como um parceiro sírio interessado em fortalecer instituições do Estado, como o próprio exército, seguindo seu modelo: reorganizando tropas, reforçando o profissionalismo entre oficiais e reformando escolas de cadetes. A Rússia treinou, estruturou e assessorou o 5º Corpo de Assalto do Exército Sírio, que se dividia em brigadas em vez de divisões. O corpo serviu inclusive para incorporar rebeldes rendidos.

O Irã adotou uma estratégia de criação de uma rede paramilitar, com milícias religiosas, étnicas e locais, sob o guarda-chuva das “Forças Nacionais de Defesa”, similares às Forças de Mobilização Popular do Iraque. A diferença é que a população xiita da Síria é muito menor, mas mesmo assim os grupos de voluntários xiitas cumpriam um papel importante (sob o manto de “defensores de santuários”) e estavam conectados a centros culturais islâmicos iranianos, em uma estratégia inspirada pelos comitês revolucionários do Irã. Destaca-se na estratégia iraniana a atuação central do grupo árabe-libanês Hezbollah, apesar de existirem grupos menores formados por xiitas não árabes (como os afegãos da Liwa Fatemiyoun). Depois da retomada de Aleppo, a Guarda Revolucionária Iraniana trabalhou para fortalecer a influência de uma rede local de milícias, a Legião de Defesa de Aleppo.

Em 2020, a rede de milícias iranianas se dedicou a uma campanha de ataques midiáticos contra as Forças Especiais “Tigre” do exército sírio.

Tanto a Rússia como o Irã tinham na Síria um palco central para projeção internacional — a Rússia como player global, o Irã como um país que se apresentava como livre do isolamento e capaz de combater um inimigo comum aos Estados Unidos (o Estado Islâmico) —, mas possuíam abordagens diferentes e conflitantes sobre como fazer isso.

Os iranianos ganharam alguns dos melhores contratos de reconstrução do país, mas não conseguiram sustentar o regime perante a ofensiva de militantes apoiados pela Turquia — as milícias careciam do apoio logístico e de artilharia do exército, que estava falido. A Rússia partiu do pressuposto de que sua presença se justificava por um acordo com o governo e, sem o governo, dispôs-se a negociar com os militantes, como já havia feito antes na guerra civil. O novo governo liderado por Ahmed al-Shara, por outro lado, tem uma postura abertamente anti-iraniana.

Em dezembro de 2025, Nikolay Kozhnanov resumiu as relações entre os dois países dizendo que a cooperação na Síria nunca foi uma aliança total e que a posição russa durante a Guerra dos Doze Dias (vista por muitos como falta de apoio) não era uma surpresa. 

2) Os dois países lutam contra a hegemonia dos Estados Unidos em seus espaços de projeção regional, mas ambos mostraram disposição de negociar com Washington em nome desses interesses. O período mais profícuo do Acordo Nuclear do Irã foi também um momento de afirmação iraniana no Iraque e na Síria. Um dos objetivos da Rússia agora é conter o engajamento dos Estados Unidos no conflito ucraniano, mantendo boas relações com o governo Donald Trump, contando que esse pode ser o governo que empurrará Kiev para a assinatura de um acordo de paz.

3) Uma aliança se constrói na prática através de vínculos operacionais em vários níveis, alinhamento de expectativas e interesses. Apesar da aproximação entre os dois países, não existe uma interdependência estratégica ou profundos laços econômicos, institucionais. Não existe um sistema de segurança coletiva. A identidade política dos dois países também engendram interesses diferentes.  A Rússia prefere manter liberdade para equilibrar suas relações no Oriente Médio, inclusive com Israel, Turquia e países do Golfo, se colocando como um ator internacional que paira sobre a região em nome de preocupações de segurança e — pelo menos até pouco atrás — compromisso com uma ordem internacional baseada na soberania. O Irã, por sua vez, entende que tem um projeto regional que mistura as características de uma potência histórica com a agenda ideológica da Revolução Islâmica de 1979.

A própria Parceria Estratégica Compreensiva assinada em 2025 aprofunda a cooperação mesmo na área de defesa, mas não acena para a defesa mútua, diferentemente dos tratados que a Rússia mantém com países como Belarus ou Coreia do Norte. Quando o embaixador iraniano em Moscou, Kazem Jalili, comentou o acordo, fez questão de enfatizar que ele não representa a entrada do Irã em um bloco militar e que o Irão não desejava isso em nome da sua independência. 

Os vetos da Rússia contra sanções dirigidas ao Irã no Conselho de Segurança das Nações Unidas seguem um padrão de atuação da Rússia em temas que consideram “assuntos internos”, não uma aliança específica com os iranianos. E mesmo assim, em 2006, a Rússia, em acordo com a China, assumiu uma posição de defesa do regime internacional de não-proliferação no momento de maior pressão contra o Irã e a Coreia do Norte. 

Em 2016, os iranianos tiraram os russos da base aérea de Hamadan após apenas uma semana de utilização para apoio aéreo para as milícias pro-iranianas que lutavam contra o Estado Islâmico no Iraque, o que mostra a dificuldade dos dois países se articularem mesmo quando claramente tem um interesse em comum (os russos causaram desconforto em alguns nacionalistas iranianos). 

Em 2025, o ex-chanceler iraniano Javad Zarif acusou a Rússia de atuar para manter o Irã aprisionado no isolamento internacional (“nem normalização com o mundo, nem conflito militar direto”) e atuar contra os interesses iranianos na época do acordo nuclear. Naquele momento, Zarif entrou em um conflito público com o chanceler russo, Sergey Lavrov, que dizia que o acordo JCPOA era uma “armadilha ocidental”. O político iraniano acusou hipocrisia e distorção da história, declarando que a proposta elaborada pelos russos em conjunto com os franceses seria “ainda pior”.

4) A Rússia mantém relações na região baseadas primariamente em seus próprios interesses, de forma pragmática, e não na articulação desses interesses em uma estratégia russo-iraniana ou em um projeto internacional de resistência conjunta. O maior exemplo disso é a forma como a Rússia busca manter uma relação especial com Israel, considerando o vínculo com a comunidade de imigrantes russos no país e os canais de diálogo que os russos mantêm com a política israelense. Essa relação não foi importante apenas para a Rússia se apresentar como um player internacional pairando sobre os interesses da região, mas também serviu para driblar sanções econômicas.

A Rússia se aproximou do Governo Regional do Curdistão no Iraque e realizou investimentos na infraestrutura energética por meio da Rosneft, enquanto o Irã se afastava e suas milícias aliadas no Iraque realizavam pequenos ataques contra instalações de petróleo e gás na região. Da mesma forma, apesar de o Irã buscar manter diálogo com seus vizinhos (que agora são alvos de bombardeios iranianos por abrigarem bases dos EUA), a Rússia buscou aprofundar suas relações com a Arábia Saudita e construiu uma relação especial com os Emirados Árabes Unidos. A relação da Rússia com o Iêmen, dividido por uma guerra entre partidos com diferentes aliados regionais, também não recebe tratamento preferencial em favor dos aliados iranianos (Ansar Allah / Houthis).

Sem ignorar o Cáucaso, em 2024 os iranianos enxergaram o apoio russo a proposta do corredor de Zangezur no Azerbaijão como problemática para a sua segurança.

5) Os dois países têm mais histórico de desconfiança e conflito do que de confiança e cooperação. A aproximação dos últimos 20 anos não é o padrão dos últimos dois séculos. Ambos competiram pelo controle do Cáucaso no século XIX, e o Irã Qajar sofreu perdas territoriais irreversíveis. Mais do que reduzir a influência iraniana e tomar territórios no Cáucaso, o Império Russo passou também a disputar a hegemonia sobre a política interna iraniana com a Grã-Bretanha.

No xadrez geopolítico, o Irã é uma barreira no caminho do objetivo histórico da Rússia de obter acesso a portos de águas quentes, e os britânicos utilizaram o Irã — assim como o Império Otomano — para pressionar a Rússia e reduzir sua influência na Europa. Mesmo após a Revolução Russa, os revolucionários apoiaram um projeto separatista no norte do Irã, a República Soviética de Gilan.

Na Segunda Guerra Mundial, a URSS e os britânicos realizaram uma invasão conjunta do Irã. Após o fim do conflito, a URSS apoiou dois projetos separatistas no território iraniano: a República de Mahabad (curda) e o Governo Popular do Azerbaijão, o que implicaria na fusão da província iraniana do Azerbaijão Ocidental com o Azerbaijão soviético. O Irã posteriormente participou de um pacto anti-soviético (CENTO / Pacto de Bagdá).

O Partido Comunista Iraniano, Tudeh, foi fortemente afetado por sua identificação com a URSS e acabou fragmentado por dissidências nacionalistas. A Revolução Islâmica voltou-se contra os aliados da URSS e possuía um forte discurso anti-soviético. A atuação de grupos armados xiitas apoiadas pelos iranianos no Líbano dos anos 1980 também era hostil aos soviéticos.

A URSS aproximou-se do Iraque nos anos 1970 e apoiou Saddam Hussein na guerra Irã-Iraque. O Irã, por sua vez, apoiou o movimento separatista da Caxemira contra a Índia, aliada dos soviéticos, e apoiou grupos armados que lutaram contra os soviéticos no Guerra do Afeganistão dos anos 80. Após a queda da URSS, o Irã apoiou a Bósnia contra o aliado russo preferencial, a Sérvia. Nos anos 1990, os dois países se esforçaram para restabelecer o comércio de armas, mas a Rússia recuou após a Comissão Gore–Chernomyrdin, acordando com os Estados Unidos que não venderia sistemas de mísseis ou aviões ao Irã — situação que mudaria apenas nos anos 2000.

Por fim, podemos dizer que muita coisa mudou desde os anos 2000. No Irã, apesar de existirem forças políticas que se colocam como mais nacionalistas ou que preferem alianças com países como a França, cresce entre os principistas o número de adeptos de uma aproximação com a Rússia. Os dois países entendem que têm sua independência nacional ameaçada pelos Estados Unidos. As convergências, entretanto, ainda não significam que a Rússia entrará em uma guerra contra os Estados Unidos para defender o Irã.