As eleições americanas e quem temer

As eleicoes americanas e quem temer
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O mundo progressista ocidental parece viver so​nhando ​romanticamente com o que foi a obra de Roosevelt ou com o que poderia ter sido a de Kennedy, quando pensa no Partido Democrata. Mas não é só por isso que ​há tanto receio pelo cada vez mais inevitável retorno de Donald Trump à Casa Branca. Os progressistas odeiam, com razão, a retórica da truculência e do reacionarismo que, aqui e ali, se manifesta na direita americana. E até aceitam a truculência sem retórica que o Partido Democrata tem despejado pelo mundo através das décadas.

Já se disse que países têm interesses, não amigos. A verdade incontestável dessa afirmação pode ser qualificada, no caso americano, com outro slogan bem simples. Para os republicanos, “America first”, e o resto do mundo que se ferre; para os democratas: “America first”, e nós ajudamos a ferrar o mundo. Assim tem sido desde sempre.

É nesse contexto que vejo o depoimento do secretário de defesa, Lloyd Austin, feito ontem, meio planejado, meio gafe, sobre a guerra na Ucrânia. As vantagens colhidas com o empreendimento na guerra dos outros são notórios, segundo ele: fortalecimento da economia e geração de emprego. Isso aos custos do prolongamento do conflito, do massacre de ucranianos face o arsenal russo, da ilusão de que há um apoio e um interesse na ocidentalização da região… A fala do secretário é reveladora do calendário intervencionista dos democratas em guerras e terras alheias.

O meu amigo Rodrigo Ornelas, filósofo interessado em relações internacionais, me lembra que o histórico democrata de engajamento em guerras é longevo e promissor especialmente em terras alheias. Não que os republicanos não ostentem uma azeda capivara, mas vejamos: Woodrow Wilson se lançou na guerra civil mexicana e no desfecho da Primeira Mundial. Franklin Delano Roosevelt foi decisivo para a Segunda com a campanha dos aliados. Harry Truman foi quem devastou Hiroshima e Nagasaki com o artefato atômico. Bill Clinton foi o responsável pelos mísseis contra a Iugoslávia à guisa de uma “intervenção humanitária”. E o drama aumenta conforme o carisma. Obama autorizou ataques a sete países: Síria, Iémen, Iraque, Afeganistão, Somália, Paquistão e Líbia. Em nome de alguma causa de interesse da raça humana, a left wing norte-americana costuma não medir esforços e reforços bélicos.

O depoimento de Lloyd Austin, o secretário de Biden, é bastante útil para pensarmos sobre o que temer com as eleições por vir. Trump ou Biden não merecem qualquer torcida por parte de quem tem uma sensibilidade progressista. Mas, para quem tem uma orientação nacionalista, a história sugere que Biden é um mal ainda maior.

Trump é um desastre para países cujos líderes se curvam caninamente a suas bravatas e blefes. Já passamos por isso. Com alguém que possa olhá-lo de igual para igual, com altivez, sua brabeza tenderá, creio eu, a ser menor. Os republicanos não vão abandonar sua tara por restringir o acesso dos outros a seu território. Mas, para o mundo, esse não é o maior dos problemas

Os democratas, por sua vez, não dão sinais de abrir mão de agendas intervencionistas – só Biden está metido em duas guerras dos outros ao mesmo tempo –, inclusive quanto a vínculos com nações aliadas. Esse tipo de agenda tem várias pautas e muita camuflagem. A propósito, e voltando a Obama, quem esquece o grampo aplicado sobre a chefe de estado Dilma Rousseff?

Concluo: não temos que optar pelo temor à truculência retórica de Trump. É preciso pragmatismo sempre. Temos que temer o histórico dos contendores. Em matéria de ameaça à soberania nacional alheia e de sanha por “corrigir” a falta de democracia ou de humanitarismo pelo mundo, os democratas me parecem assustadoramente imbatíveis.