Quando a realidade deixa de importar, a identidade é o que sobra

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Muito se fala da verdade como se a verdade estivesse escancarada no nosso nariz, exposta sem nenhuma mediação. Em um período eleitoral na nossa era digital, é como se o conceito de verdade fosse cada vez mais maltratado por aqueles que dizem protegê-la na época da assim chamada pós verdade.

A verdade, entendida como correspondência com a realidade, não pode ser dissociada do processo histórico e material que a produz. Ela não surge como mera abstração lógica ou consenso discursivo, mas como expressão de relações concretas, socialmente determinadas, que se realizam no tempo. Se a realidade é a possibilidade que se concretizou, então a verdade é o reconhecimento dessa concretização, isto é, a apreensão consciente do que efetivamente se tornou real dentre várias potencialidades existentes.

Nesse sentido, a verdade não é apenas um espelho passivo dos fatos, mas o resultado de um movimento entre prática e pensamento. O que se apresenta como verdadeiro é aquilo que se confirma na experiência objetiva da vida social, no trabalho, nas relações de produção, nas instituições, nas formas de organização e nas contradições que atravessam a existência concreta. A objetividade da verdade não elimina seu caráter histórico, pois aquilo que é verdadeiro em determinado momento decorre das condições materiais que tornam possível tal afirmação.

A ideia de desvelamento, ou de revelação do que está encoberto pelas aparências, ganha aqui um papel central. As formas sociais frequentemente produzem ilusões necessárias, narrativas que naturalizam desigualdades, interesses particulares e relações de dominação. A verdade, portanto, exige a superação da aparência imediata e a compreensão das determinações profundas que estruturam a realidade. Não se trata apenas de verificar fatos isolados, mas de entender o conjunto de mediações que os tornam possíveis.

A coerência interna de um sistema de ideias, embora relevante, não basta para definir a verdade. Um conjunto de crenças pode ser logicamente consistente e, ainda assim, estar desconectado da realidade concreta. Da mesma forma, a utilidade prática não pode ser reduzida a benefícios imediatos ou individuais, pois uma ideia pode funcionar para manter certa ordem social e, ao mesmo tempo, ocultar as contradições que habitam o interior dessa ordem. O critério decisivo permanece sendo a relação entre pensamento e realidade objetiva, tal como ela se efetiva historicamente.

Mesmo as ideias mais sóbrias e objetivas do positivismo carregam o risco de produzir uma situação em que os indivíduos apegam-se somente a sua experiência imediata que se converte em identidade. Na realidade política brasileira, a pós verdade não é a mera reprodução de mentiras ou desacordo com os fatos, mas a afirmação ativa das identidades como o critério da verdade — o triunfo dos identitarismos!

A pós verdade surge precisamente quando essa mediação entre realidade concreta e consciência é rompida ou distorcida. Em vez de a experiência material orientar a formação das ideias, são as crenças, emoções e interesses previamente constituídos que passam a filtrar o que é aceito como real. O que se deseja que seja verdade substitui aquilo que efetivamente se realiza na prática social.

Nesse ambiente, a realidade deixa de ser um limite para a consciência e passa a ser tratada como uma simples narrativa entre outras. A possibilidade que não se concretizou, ou mesmo a impossibilidade, é elevada à condição de verdade subjetiva, desde que satisfaça necessidades emocionais, identitárias ou ideológicas. A pós verdade não nega frontalmente os fatos, ela os dissolve em disputas de opinião ou guerras de identidade, esvaziando seu caráter objetivo.

As redes sociais intensificam esse processo ao fragmentar a experiência comum e ao criar espaços de confirmação contínua, nos quais a consciência se afasta ainda mais da realidade concreta. A emoção substitui a análise, a repetição dos polos de identidade substituí a pesquisa e a reflexão, o que por fim coloca a crença no lugar da prática. Triunfa uma consciência invertida que toma os efeitos pelas causas e as aparências pela essência.

Diferentemente da mentira clássica, que pressupõe o reconhecimento da verdade para ser negada, a pós verdade opera num terreno em que a própria noção de verdade objetiva é enfraquecida. Não se trata apenas de enganar, mas de produzir um ambiente no qual a realidade deixa de ser o critério central de validação do pensamento.

Diante disso, a defesa da verdade não é um exercício abstrato ou moral, mas uma tarefa prática e crítica. Significa recolocar a realidade concreta, histórica e material, como fundamento da consciência, reconhecendo que nem todas as possibilidades são equivalentes, e que apenas aquelas que se realizam no mundo, através das relações sociais efetivas, podem ser compreendidas como verdadeiras.

Assim, enquanto a verdade aponta para a compreensão do real tal como ele se constitui, com suas contradições e determinações, a pós verdade expressa um afastamento dessa realidade, convertendo o pensamento em instrumento de acomodação emocional e reprodução de ilusões. No meio da névoa das raivosas identidades políticas, precisamos de frieza, análise e confronto com o mundo existente — a prática como critério da verdade no lugar do conforto simbólico comprado com o afastamento do real.

Jairo Jr nasceu no Recife e vive em São Paulo desde a adolescência. Nordestino de origem e escolha permanente, construiu sua trajetória entre a palavra, o corpo e a ação coletiva. É jornalista, sociólogo, escritor, roteirista, poeta e pesquisador, com atuação constante nos campos da cultura popular, da comunicação, da educação e da militância social.