Escolha de filho de líder morto indica opção por continuidade e enfrentamento, e não por transição ou acomodação.
A escolha de Mojtaba Khamenei como sucessor do líder supremo Ali Khamenei ocorre em um momento extraordinário da história da República Islâmica: poucos dias após o assassinato do líder e em meio a uma guerra aberta com os Estados Unidos e Israel.
Mojtaba Khamenei foi escolhido pela Assembleia de Peritos para suceder Ali Khamenei como terceiro líder da Revolução Iraniana. Ali Khamenei foi líder do país durante 37 anos e agora é sucedido por seu filho, escolhido por uma assembleia composta por 88 clérigos eleitos por voto popular. No dia 28 de fevereiro, também foram mortos, junto com seu pai Ali Khamenei, sua mãe, irmã, cunhado, dois sobrinhos, além da esposa e de um filho de Mojtaba.
No dia 5 de março, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, comentando a possibilidade de Mojtaba ser escolhido como sucessor, chamou essa alternativa de “inaceitável” e afirmou que os Estados Unidos deveriam estar envolvidos na escolha.
Após o assassinato de Ali Khamenei em meio às negociações, e alguns dias de intensos bombardeios, a escolha é um acontecimento importante por sua dimensão política e simbólica. Em primeiro lugar, porque poderiam não escolher líder nenhum, o que é permitido pela constituição iraniana e poderia estar no interesse tanto das elites iranianas, como dos Estados Unidos que flertou com a ideia de destruição da figura do líder. A escolha por si só já é um gesto para indicar a continuidade do sistema. Em segundo lugar, a escolha de Mojtaba Khamenei em particular tem significado político próprio, já que ele foi elevado em detrimento de outras opções.
A escolha de Mojtaba Khamenei significa não apenas continuidade, mas possivelmente o aprofundamento do caminho seguido por Ali Khamenei. Em especial, ela indica a reafirmação do peso político da Guarda Revolucionária (Pasdaran) no sistema. A escolha também carrega um elemento simbólico delicado para a República Islâmica: pela primeira vez, o sucessor é filho do líder anterior.
Para a política interna iraniana, a mensagem é clara: o sistema pretende continuar. Ao escolher o filho do líder assassinado, as elites do regime demonstram disposição de enfrentar tanto a pressão externa quanto as correntes internas de oposição. A única coisa que muda com certeza é o aumento do fervor na defesa da ordem estabelecida, pois as redes de poder e clientela — o status quo — seguem praticamente intactas: Mojtaba herda as redes e os recursos do pai.
Não existe disposição de tentar mostrar “uma nova face” para o povo para sinalizar algum tipo de mudança e não é possível esperar que a mera mudança vai chacoalhar a distribuição de poder nas elites iranianas. Se Mojtaba fizer mudanças significativas na distribuição de cargos, será só depois da guerra ou se começar a substituir clérigos mais velhos e militarizar mais as estruturas durante a guerra.
O nome de Mojtaba Khamenei já aparecia como operador político associado aos neoprincipistas e à Guarda Revolucionária desde os anos 2000. Em 2009, uma notável matéria de Julian Borger para o Guardian já dizia que Mojtaba era “mais linha-dura” que o pai e que controlava acesso ao líder. Uma carta pública do candidato e clérigo reformista Mehdi Karroubi denunciou Mojtaba como peça-chave em uma rede por trás de Ahmadinejad, o que chamou a atenção da mídia ocidental. Mojtaba também estaria envolvido com os grupos de Basij que confrontavam os manifestantes do Movimento Verde — onda de manifestações contra a reeleição de Ahmadinejad em 2009.
Nos anos 80, Mojtaba serviu com a Guarda Revolucionária na guerra Irã – Iraque, e muitos dos seus companheiros de armas ascenderam no sistema da República Islâmica. Sua formação teológica foi com o Aiatolá Mahmoud Hashemi Shahroudi, uma das maiores autoridades do Irã, que passou dez anos como chefe do judiciário e possui laços profundos com as redes de revolucionários xiitas do Iraque. Mojtaba também teve sua formação associada ao Aiatolá Misbah Taqi Yazdi , conhecido como um ultra-conservador que é crítico até mesmo da expressão “República Islâmica” como uma contradição em termos. Antes do seu falecimento, Yazdi era visto como líder da facção mais conservadora do Conselho dos Peritos. Sua influência na cidade de Qom seria responsável por um renascimento de valores religiosos mais conservadores na política iraniana.
Em suma, o retrato de Mojtaba Khamenei reúne a qualidade de filho do líder anterior com o histórico de ter sido um dos operadores políticos da ascensão dos neo-principistas e da Guarda Revolucionária no sistema iraniano; por extensão, um dos expoentes da onda contrária às pretensões do reformismo no interior no sistema. Além de ter sido instrumental para promover a ascensão de Ahmadinejad no começo dos anos 2000, Mojtaba também apadrinhou o populista Saeed Jalili, herói militar, diplomata, cientista político e negociador do programa nuclear, que concorreu à presidência em algumas ocasiões, sendo inclusive o candidato derrotado por Pezhekian nas eleições de 2024. Outro candidato presidencial do neo-principismo é o físico e membro do Conselho de Discernimento de Expediência, Gholam-Ali Haddad-Adel, é sogro de Mojtaba Khamenei.
A escolha de Mojtaba também ganha significado quando contrastada com outras alternativas possíveis dentro do próprio regime.
Quando Ebrahim Raisi era cotado como sucessor de Ali Khamenei (antes de sua morte em 2024), sua ascensão como presidente significava uma contenção simbólica do militarismo da Guarda Revolucionária e sobretudo do populismo dos neoprincipistas associados à Guarda, uma reafirmação da centralidade dos clérigos na vida pública, um conservador em sentido mais estrito. A reafirmação dessa linha de um clérigo de carreira jurídica seria através da escolha do chefe do judiciário e membro do conselho de transição, Gholam-Hossein Mohseni-Ejei.
Outra alternativa — que vinha sendo cantada como “o escolhido”, antes da decisão real — era Alireza Arafi, um perfil mais ideológico, que escreveu sobre o confronto civilizacional do Irã com o ocidente e que foi elevado na carreira por Ali Khamenei, sendo colocado em posições estratégicas no sistema educacional religioso. Esse caráter doutrinário, seu cargo no restrito Conselho de Guardiões e a suposta resistência à uma escolha que parecesse dinástica fez com que ele fosse considerado um favorito na sucessão.
Para sublinhar a mensagem que é passada com a escolha de Mojtaba, podemos imaginar quem poderia ser o escolhido caso quisessem passar uma imagem de mudança, transição e reforma, para o mundo ou para a política interna. Hassan Rouhani, como centrista, daria segurança para os membros do regime com medo de um expurgo radical, ao mesmo tempo que teria alguma credibilidade como negociador para o Ocidente (e, como bônus, tem sido crítico do governo e da aproximação com a Rússia). Rouhani foi lembrado como candidato em alguns momentos da sua carreira — há quatro dias seu nome foi levantado pela Al Jazeera, mas essa discussão também ocorreu em 2024 quando ele se candidatou para a Assembleia de Peritos.
Mohammed Khatami, o presidente que inaugurou o movimento reformista no Irã, também poderia ser cotado caso a escolha representasse uma tentativa de sinalizar uma mudança radical no Irã. Sua nota de pesar pelo falecimento de Khamenei foi acompanhada por um chamado reiterado por reforma. Existem outros clérigos reformistas, que no limite poderiam atender ao chamado de Mousavi — candidato presidencial reformista preso desde as manifestações de 2009 — por um referendo constitucional.
Os reformistas foram marginalizados desde 2009 e se converteram nos maiores críticos da “tomada do poder” pela Guarda Revolucionária, e a família Khamenei é uma das grandes responsáveis pela reorganização e fortalecimento político e institucional do Pasdaran.
Nosso objetivo aqui é entender o significado da escolha de Mojtaba por contraste, então cabe citar ainda outra alternativa que era mais provável que as anteriores, Hassan Khomeini, o neto do líder da Revolução de 1979, que mantém relações com os reformistas, críticas ao sistema interno, ao mesmo tempo que mostrava lealdade a projeção externa da visão revolucionária, à atuação da Guarda Revolucionária no chamado “Eixo de Resistência”.
O fato é que a escolha foi feita, segundo o Aiatolá que a anunciou, Mohsen Heidari Alekasi, com base em uma orientação de Ali Khamenei: o sucessor deveria ser alguém “odiado pelo inimigo”. A Guarda Revolucionária já publicou o seu juramento de lealdade:
“Estamos prontos para a obediência completa e para o sacrifício em cumprimento às ordens do Guardião-Jurista neste tempo, o Aiatolá Sayyid Mojtaba Khamenei.
A Guarda Revolucionária, como soldado e braço poderoso da Wilayat al-Faqih (a tutela do jurista islâmico), anuncia seu apoio à decisão do respeitável Conselho de Especialistas da Liderança e reafirma sua disposição para a obediência plena e o sacrifício na execução das ordens divinas do Guardião-Jurista neste tempo, Sua Eminência o Aiatolá Sayyid Mojtaba Khamenei, para proteger os valores da Revolução Islâmica e preservar o precioso legado dos dois imames da revolução: Sua Eminência o Imã Khomeini (que a complacência de Deus esteja sobre ele) e o Imã Khamenei (que a misericórdia de Deus esteja sobre ele).”
Tutela do jurista islâmico: os poderes supremos do Líder
A posição assumida por Mojtaba é também conhecida como “Líder Supremo”, expressão que foi cunhada como honraria na mídia iraniana e adotada no ocidente para descrever a posição mais alta da República Islâmica. Oficialmente, o cargo é de “Líder” e corresponde a ideia de continuidade da Revolução Islâmica do Irã, pairando sobre a própria instituição republicana.
Em sua concepção fundamental — e mais religiosa — o cargo é produto da teoria da “tutela do jurista-guardião” (Velâyat-e Faqih), formulada pelo Aiatolá Ruhollah Khomeini (primeiro líder da Revolução) como teoria de governança islâmica e que prevê que um governo justo demanda a tutela de um clérigo jurista. O Estado é estruturado e dividido como uma República, com separação entre judiciário, legislativo e executivo, bem como eleições competitivas e burocracia profissional, mas a figura do guardião pode “supervisionar” as instituições.
A manutenção desses poderes, além da manutenção do cargo, é um dos termômetros que temos para medir a mudança de regime no momento atual. Entre os poderes existe a capacidade para demitir o presidente e os ministros, indicar o chefe do judiciário, comando das forças armadas e do Pasdaran. O principal órgão de controle, responsável por vetos legislativos e eleitorais, o Conselho de Guardiões, é escolhido pelo líder (seis advogados islâmicos e seis juízes).
O seu poder é baseado também no controle direto de alavancas de poder de mobilização ideológica, mídia, controle clerical e religioso, relações internacionais, segurança e atuação social-econômica, em especial através das fundações religiosas, as Bonyads.
Mehrzad Boroujerdi e Kourosh Rahimkhani listaram os cargos e instituições diretamente dependentes da nomeação do Líder Supremo em sua obra Postrevolutionary Iran — A POLITICAL HANDBOOK (2019, Syracuse University), sendo alguns deles:
- No campo da segurança e da defesa, sua influência alcança o Conselho Supremo de Segurança Nacional, órgão responsável pela coordenação estratégica das políticas de defesa e segurança do país. No Ministério da Defesa, existe uma estrutura ideológica interna semelhante a um politburo encarregado de garantir a fidelidade à doutrina da Revolução Islâmica. Estruturas semelhantes também existem nas Forças Armadas regulares — o exército, a marinha e seus serviços de inteligência — que mantêm órgãos ideológicos responsáveis por assegurar a orientação política do aparato militar. O mesmo se aplica às Forças do Comando Policial (FARAJA), uma organização com cerca de 260 mil integrantes comandada por um oficial proveniente do Pasdaran. Essa força policial ganhou maior capacidade institucional ao longo das últimas décadas: em 2009 foram criadas unidades de forças especiais, em meio às manifestações daquele ano, e em 2022 foi estabelecida uma unidade especial de inteligência.
- No setor de comunicação, podemos citar o Serviço de Rádio e Televisão da República Islâmica, responsável pela radiodifusão estatal, o Conselho de Coordenação de Propaganda Islâmica, o Conselho Supremo do Ciberespaço, além da Organização de Propaganda Islâmica. No campo da mídia impressa e intelectual, destacam-se instituições como o Instituto Keyhan e o Instituto Ettela’at, além do Conselho Superior da Revolução Cultural, responsável por orientar políticas culturais e educacionais.
- Na esfera religiosa e clerical, o Líder Supremo dispõe de instrumentos institucionais importantes para supervisionar e disciplinar o clero. Entre eles está a Corte Especial para os Clérigos, que julga membros da hierarquia religiosa. O líder também controla o sistema oficial de designação dos líderes das orações de sexta-feira, figuras com forte peso político nas cidades iranianas. Sua influência se estende ainda à organização dos seminários religiosos, incluindo a direção do seminário de Qom, a condução dos seminários de Khorasan e a supervisão da formação clerical em geral. Entre as instituições religiosas e missionárias sob sua esfera encontram-se o Conselho do Corão, a Ahlulbeyt World Assembly, a WAPIST (organização voltada à aproximação entre escolas islâmicas), bem como a escolha de representantes para comunidades e irmandades sunitas dentro do Irã. Também estão vinculadas à sua autoridade instituições como a Organização de Doações Pias e Assuntos de Caridade, a Fundação para o Pensamento Islâmico e a Sede para a Promoção do Bem e a Proibição do Mal. Além disso, ele escolhe os custódios dos grandes santuários.
- Controle de grandes fundações semiestatais conhecidas como bonyads, que administram vastos recursos econômicos e sociais. Entre essas organizações encontram-se a Fundação das Cooperativas do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, a Fundação dos Despossuídos (Mostazafan), a Fundação Khordad, a Fundação de Moradia da República Islâmica e outras instituições. Essas fundações atuam tanto na assistência social quanto na gestão de ativos econômicos ligados ao Estado revolucionário.
- O Líder Supremo mantém representantes institucionais em cada universidade do país.
Ainda existem diversas instituições importantes, inclusive fora do Irã, que recebem representantes do líder.
A ascensão de Mojtaba Khamenei pode durar pouco. Seu primeiro desafio é sobreviver em meio à guerra. Se conseguir fazê-lo, a questão histórica que se colocará será outra: se será capaz de preservar — ou transformar — o sistema de poder construído por seu pai. Dessa resposta dependerá não apenas o destino do Irã, mas também o equilíbrio político do Oriente Médio e a própria configuração do mundo religioso xiita, que poderá emergir dessa crise com um centro de poder renovado ou passar por uma reorganização com a perda de uma de suas potências materiais e ideológicas.






