Tudo leva a crer que o governo Lula 3 está disposto a afundar o país no nacional consumismo. De novo. As decisões do governo refletem a adesão ao mesmo modelo de Lula 1 e 2, cujo conteúdo é a cooptação. Os rentistas foram cooptados com juros abusivos; o alto empresariado, com as benesses do BNDES; a classe média tradicional, com a retórica da concessão de direitos; e toda a imensa massa abaixo, com bolsas. Mas hoje, a cooptação tem contornos mais sinuosos com a renovação do alívio fiscal, aprovado na reforma tributária, aos endinheirados e com a diversificação dos auxílios aos pobres.
O nacional consumismo pode ser definido como uma política econômica orientada para o aquecimento da demanda nacional, o consumo das famílias sendo o fim absoluto da agenda. Esse aquecimento é propiciado pela elevação da participação popular na quota dos pagadores e compradores. E, para que o povão gaste, não é preciso aguardar um crescimento gradativo e espontâneo de sua renda, bastando uma engenharia tecnocrática inchar o orçamento familiar dos mais pobres com recursos públicos. Para isso, há que se criar programas sociais de transferência – inventá-los é fácil e politicamente rentável, e o PT se tornou profissional no assunto.
Para que tipo de política econômica um Fernando Haddad seria recrutado senão essa? Um intelectual frankfurtianófilo que, pessimista em relação ao que se tornou as sociedades modernas, reduz suas próprias expectativas de mudança social e econômica, aceitando, como espólio de um mundo capitalista injusto e irreversível, a redistribuição de migalhas do orçamento do governo entre os extratos carentes da população, enquanto consolida a institucionalização das desigualdades com o peso tributário sobre o dorso da classe média e afagos aos do andar de cima. A reforma que o ministro protagonizou é um remendo modernizador: simplifica os sistemas de imposto, o que é um mérito, porém sem alterar significativamente o quadro dos mais onerados na pirâmide social brasileira.
Entre outros, um dado sugere esse nacional consumismo revival de Lula-Haddad. O IBGE registrou nos últimos dias que, no primeiro trimestre de 2024, o PIB do país cresceu 0,8%. Não é pouco esse aumento, sobretudo se se o compara ao crescimento um ano atrás, 2,5%. O alarmante está nos números de destaque nessa apuração: comércio, 3%. serviços, 1,4%; consumo das famílias, 1,5%; importação, 6,5%. A agropecuária manteve sua performance exemplar, com 11,3% e o setor de investimento, sempre pendular, obteve vistosos 4,1%. Em contrapartida, a indústria regrediu 0,1%, o que os economistas consideram dentro do estável, o setor de construção teve queda de 0,5% e o de exportações, de 0,2%.
Com festejos, noticia-se que o resultado positivo do PIB foi puxado pelo consumo das famílias e pelo setor de serviços. Mas esse não é um filme já visto? Com a imobilidade da indústria, o que pode cobrir o impulso importador do país? Macroeconomicamente, os produtos primários pagam a conta do consumo urbano, o que só dura enquanto o valor das commodities é alto. Pouco agregamos valor a nossos produtos, e, via de regra, exportamos natureza (quase nua de inteligência), enquanto estimulamos as aquisições, e, novamente, com o dinheiro fácil dos programas de transferência.
Um dos problemas que o nacional consumismo iniciado em Lula 1 gerou no Brasil é vivido agora, em meio a essa maré de crescimento do PIB, com toda sua contundência, a saber, surtos de endividamento e inadimplência. A CNC (Confederação nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo) registrou que mais de 78% das famílias brasileiras estão endividadas. Em palavras mais indignadas, isso quer dizer que quase oito de dez brasileiros devem alguma coisa. E por que? Supõe-se que a leve descida na Selic tenha estimulado o cidadão a se aventurar ainda mais em despesas novas. Mas qual cidadão? A leitura da faixa social é bastante persuasiva: das famílias endividadas, 79% são de baixa renda (até 3 salários mínimos). Os programas de transferência estão sendo avaliados como instrumentos de maior garantia de pagamento de dívida, razão pela qual os credores se sentem um pouco mais protegidos contra calotes. Em muito, é para isso que tem servido tantas bolsas e vales.
Que as pessoas adquiram o que quiserem com o dinheiro que tiverem em mãos. Mas os governos não têm o direito de brincar com a organização da economia. Enquanto não houver uma aposta entusiasmada e diligente em nossa indústria, não a mesma que se pensava na era da substituição de importações, mas uma voltada para a sofisticação do produto brasileiro exportável, o consumo popular não terá lastro. O risco a que o nacional consumismo de Lula nos sujeita é o de nos consolidarmos como cultivadores de dívida, exportadores de cérebros e importadores de tudo.






