A mestiçagem brasileira – 1

Antonio Riserio A mesticagem brasileira
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Por Antonio Risério – A esquerda tem uma já relativamente longa tradição de negação da nação, à qual se filiam, com seu diferencial particularizante, as seitas multicultural-identitaristas. Mas, mesmo no âmbito do marxismo tradicional, que vem de Marx a pelo menos a esquerda negroafricana das revoluções anticolonialistas, a leitura do significado de nação é contraditória. Na teoria marxista clássica, a nação é vista como construto opressivo, superferramenta para anestesiar e manter sob controle as classes proletárias exploradas no sistema capitalista, obstáculo maior à realização da fraternidade comunista universal. Na prática esquerdista do século XX, no entanto, grande parte das vitórias objetivas da esquerda se deu em decorrência de lutas de libertação nacional. E esta realidade obrigou pelo menos parte da esquerda a repensar “a questão nacional”, deixando de parte a antinomia entre destino nacional e internacionalismo proletário. Régis Debray chegou a dizer que o futuro da esquerda dependeria da sua capacidade de reinventar uma política nacional para o século XXI.

Nesse contexto esquerdista, o multicultural-identitarismo tem a sua particularidade. Uma nação já não é uma “totalidade contraditória” formada por classes sociais distintas, como na teoria marxista. Para o identitarismo, antes que composta de classes, uma nação é feita de várias “nações”. É um construto opressor, mas que, antes de oprimir “classes”, agrupa de forma coerciva as diversas “nações” que vivem dominadas em seu interior. O identitarismo não lida com classes sociais, mas com grupos “oprimidos”, definidos em termos de raça, sexo, orientação sexual, língua, cultura. E esses grupos oprimidos costumam ser vistos, de sua perspectiva fragmentadora, como “nações” subalternas e até semiclandestinas, não reconhecidas pela nação dominante. Ou, no dizer do antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, o Brasil é uma ficção: o que temos aqui não é uma nação, mas um elenco de pequenas “nações” coabitando compulsoriamente um mesmo espaço geográfico, unificado sob “o tacão” do Estado. E o objetivo último é desintegrar esta nação. Destruí-la. Daí a gíria atual de que o Brasil não é uma nação, mas um “pluripaís”.

A “legitimação” desse ponto de vista antinacional se constrói por meio de uma reconstrução ideológica do passado do país. Mas uma reconstrução idiossincrática: onde a história confirma a ideologia, reportam-se os fatos; onde a história a desmente, descartam-se os fatos. É o método da falsificação. Constrói-se uma nova memória nacional não como forma de ampliar o conhecimento histórico, mas como instrumento de luta política e intimidação ideológica. O compromisso identitarista não é com a História, mas com uma suposta “justiça social”, de que seus militantes seriam os representantes (autodeclarados, evidentemente, já que ninguém os escolheu para este papel). Daí que seu instrumento básico de reconstrução do passado esteja nas exigências estratégicas ou táticas da luta atual. Precisa-se de uma mulher negra para posar de companheira de Zumbi dos Palmares? Fácil: inventa-se uma – e ela já vem prontinha da silva, com o curso completo de foclore afro e fazendo discurso identitarista tipo “globonews”. Aqui, a história não vale por si mesma, nem tem significado próprio: está a serviço da política e da ideologia. Resumindo: como a história não aconteceu como os identitaristas gostariam que tivesse acontecido, trata-se de falsificá-la. E assim os identitaristas provam que têm razão – especialmente num país que é de uma ignorância quase absoluta com relação ao seu passado.

Podemos ver esta falsificação operando até na dimensão da linguagem. Como se aqui existissem não só algumas “nações”, como suas respectivas línguas. Ora, encontramos no planeta diversos países multiculturais, assim como multilinguísticos. São dezenas de grupos étnicos e de línguas na Nigéria. É grande a variedade étnica e idiomática da China e da Indonésia. A Espanha tem quatro línguas tradicionais – o castelhano, o galego, o catalão e o basco. Etc. E temos até mesmo a diversidade dialetal alemã, com a língua-padrão e uma dezena de dialetos, onde um alemão de Berlim pode não entender um da Baviera. São coisas que nada têm a ver com o Brasil. O português brasileiro é a língua falada em todo o país, das praias do Amapá aos campos do Rio Grande do Sul. Partilhamos os mesmos códigos de cultura – e o código central é a língua. Apesar de variações idiomáticas internas, de ondulações dialetais, o fato é que nenhum de nós tem dificuldade para entender nossos conterrâneos.

Uma série de falsificações da história e da vida brasileiras é gerada, em especial, pela importação e aplicação, ao Brasil, de categorias “nativas” dos Estados Unidos, que nasceram em resposta a realidades específicas daquele país. Como quando se quer impor, à nossa realidade policromática, a fantasia racista norte-americana do país bicolor. Fantasia que, definindo os Estados Unidos como nação formada por “duas raças”, acrescenta que a cada uma dessas raças corresponde uma cultura distinta. Aqui, também o Brasil aparece como país de duas “raças” e duas “culturas” – bobagem solenemente repetida por um prestidigitador camaleônico chamado Fernando Henrique Cardoso, quando lançou seu programa nacional de direitos humanos. O fato de que o Brasil não é bicolor é coisa prontamente reconhecida pela vasta maioria da população brasileira, que é e se declara mestiça, como agora no Censo 2022. Quanto à ideia de nação de “duas culturas”, o Brasil não é país multicultural – é país sincrético. Entrelaçaram-se em profundidade todos os elementos, formas e práticas de cultura que aqui desembarcaram através dos séculos.

Veja-se a música brasileira. À exceção do que se toca nos terreiros de candomblé, não existe música negra no Brasil. Claro: a partir do momento em que opera com o sistema tonal – uma criação exclusivamente europeia que a música negroafricana jamais conheceu –, a pretensa música negra, como o samba, é na verdade música mestiça. Escreve o musicólogo Flávio Silva, em Musicalidades Negras no Brasil: “A adoção do sistema tonal inventado na Europa, propagado no Brasil pelas músicas sacras e profanas trazidas pelos portugueses, obrigou à utilização de instrumentos que possibilitassem a prática de melodias e de harmonias baseadas em escalas de sete sons temperados. Os variados ritmos negroafricanos foram substituídos pelo compasso binário e pelo ternário; no candomblé podem ser ainda encontradas melodias em escalas tetratônicas e pentatônicas. Ou seja: as músicas brasileiras – folclóricas, populares ou eruditas – decorrem, basicamente, do sistema clássico europeu, com alguma influência negra e, em menor escala, ameríndia, em variações que dependem da geografia e dos diferentes contingentes humanos originais. Não tem a menor sustentação a ideologia racista da predominância negra em nossa música. […] as variedades de sambas que vieram da África Negra foram aqui profundamente modificadas para se enquadrar no sistema tonal e no esquema da canção em duas partes, cuja introdução, no chamado samba urbano, nada tem a ver com tradições afronegras. […]. O samba urbano, depois transformado em esteio da nacionalidade, foi fabricado no Rio de Janeiro no final da década de 1920, e não só pelos que descendiam, parcial ou integralmente, de escravos”. O que aconteceu então no Brasil, musicalmente, foi um processo generalizado de tonalização do ouvido nacional.

Mas vou me concentrar aqui no maior de todos os estelionatos. No maior de todos os negacionismos de esquerda. É a negação do que o historiador marxista Caio Prado Júnior definiu como a característica central do nosso país e da nossa gente: a mestiçagem. Hoje, para negar o Brasil, o multicultural-identitarismo submete a mestiçagem a uma dupla falsificação. De uma parte, falsificação da mestiçagem no passado histórico nacional. De outra, falsificação da mestiçagem na sociedade presente. Com relação ao passado, tenta-se reduzir a mestiçagem a um tão colossal quanto irrealizável estupro em massa. Com relação ao presente, promove-se sistematicamente, com o apoio de uma legislação racista, o sumiço do mestiço. A fantasia mórbida da mestiçagem como estupro pode ser desmentida desde logo. Nossa primeira onda miscigenadora não contou com negros. Foi exclusivamente euro-ameríndia. E sem qualquer interferência estatal. É o “período caramuru” da vida brasileira, quando os brancos eram muito poucos, sem condição de impor qualquer coisa aos índios. Não seriam loucos de violar códigos indígenas de conduta ou de violar uma índia. As coisas só mudam quando a economia do escambo é substituída pela cultura dos canaviais. As realidades da guerra e da escravização se impuseram. Mas toda vez que algum fanático pretende absolutizar o estupro, é obrigado a fechar os olhos para três realidades que desmantelam a tese: o lugar da mulher na sociedade indígena, o caminho cultural do concubinato interétnico e, principalmente, a prática da mestiçagem entre iguais.

No primeiro caso, devemos lembrar que, no mundo indígena, as fêmeas eram servas dos machos, providenciando o pão de cada dia da aldeia. E eram encaradas como mercadorias do circuito das trocas comerciais. Quanto ao casamento interracial, escreve João Azevedo Fernandes: “… é impossível ver a miscigenação unicamente como um ato de força do colonizador, na medida em que esta só teve lugar junto àqueles povos indígenas que possuíam, em sua organização social, mecanismos de integração dos estrangeiros através do casamento”. No caso da mestiçagem entre iguais, o estupro não faz sentido. E aqui se deu a maior parte da mistura genética com grupos ameríndios. Mestiçagem de índios e brancos pobres, de par com a mestiçagem de índios e negros, resultando na imensa presença de cafuzos na população brasileira, de que temos milhões de exemplos modernos, do jogador Garrincha (descendente dos índios fulniôs) a músicos como Luiz Gonzaga e Djavan.

Costuma-se agora saltar a fase da mestiçagem luso-ameríndia porque ela contraria a fantasia ideológica do Brasil Bicolor, um país dividido entre brancos e pretos, igualzinho aos Estados Unidos. Mas o fato é que nossos primeiros mestiços foram pardos (pardos existiram antes que tivéssemos pretos por aqui), sem gota de sangue africano e se distribuíram ao longo de todo o espectro social. Nos séculos XVI e XVII, a fatia maior dos mamelucos engrossaria o segmento social das pessoas mais pobres. Outra fatia, ao contrário, teria assento nas salas iluminadas da classe dominante. Boa parte dos senhores rurais e comerciantes urbanos ricos era mestiça. Descendia de índios que andavam nus, cultuavam entidades mágicas nada cristãs e praticavam a poligamia e a antropofagia. Famílias poderosas da região eram, na verdade, agrupamentos mamelucos. Com a chegada de negros africanos, a mestiçagem não se deslocou para o círculo circunscrito das trocas genéticas entre negros e lusos. Permaneceu mestiçagem generalizada. Mestiçagem entre índios e as camadas populares de brancos, mestiçagem entre índios e negros. Isto é o fundamental: aqueles processos de mesclas biológicas e culturais floresceram nas esferas menos formais e menos institucionalizados da vida social. Menos em gabinetes e alcovas senhoriais do que ao ar livre, nas clareiras, em caminhos públicos, nos mercados, nos arraiais que se formavam. Foram misturas em todas as direções. Mas, principalmente, entre pessoas do mesmo estamento social ou em situações socialmente próximas, fosse no segmento intermediário da sociedade ou em círculos proletários. Mestiçagem como processo popular e não necessariamente preso à vida rural. E a dinâmica e o dinamismo dos ambientes extracampestres incrementaram as misturas.

Por Antonio Risério

 

Fonte do texto original: https://antonioriserio.substack.com/p/a-mesticagem-brasileira-1