A arte é utilizada para lavar dinheiro — e o crime tem seus favoritos. Poderíamos estar falando de Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. ou MC Poze do Rodo.
Nesta semana, tivemos o desprazer de conhecer mais uma preciosidade da cultura brasileira: o funkeiro foi preso por supostas ligações com o crime organizado carioca. No narco-Estado brasileiro, conheço poucas pessoas que não têm algum tipo de relação com o tráfico. Na compra de botijão de gás, leve um latrocínio — é o mote.
Frank Sinatra desfez um contrato milionário, que considerava lesivo — e o era — dando uma surra em seu ex-sócio. Sua amizade com as maiores figuras da máfia é literalmente umbilical. Seus pais eram donos de bar na época da Lei Seca. Noventa e oito por cento dos seus amigos tinham alguma ligação com a macarronada e os ofícios escusos. Mario Puzo o retratou exatamente como era em O Poderoso Chefão — filme que, inclusive, só foi rodado após conversas com as três maiores forças do esquema.
Organizações criminosas utilizam a arte para lavar dinheiro. E a arte, curiosamente, se dá muito bem com isso. O motivo é simples: na arte, o valor é quase sempre abstrato. Quanto custa um show do MC Poze do Rodo? É uma lavagem fácil. E ainda dá uma lustrada na imagem dos negócios. Ser mecenas de arte virou questão de status.
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Após sua prisão, Poze recebeu uma ficha padrão, perguntando “qual era sua ideologia”, referindo-se às facções. Curiosa escolha de palavras. No final, o cantor escreveu que alinhava-se ao Comando. O mais estranho? Não havia a opção “não possuo”. Ideologia, eu quero uma pra viver – ou morrer.
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A CPI das Bets foi uma das poucas vezes em que o Congresso Brasileiro discutiu algo sério. O problema é que, com a baixa qualidade da nossa democracia, ninguém sabia ao certo quem era influencer e quem era parlamentar. Ambos defendem seu ganha-pão, seja com o Jogo do Tigrinho ou com o mercado financeiro.
O brasileiro está viciado em aposta. Isso é fato. Um estudo da Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo (SBVC) revela que 63% dos apostadores comprometeram parte da renda com apostas,U reduzindo gastos com roupas (23%), supermercado (19%), higiene e beleza (14%) e saúde (11%). O Tigrinho não está pagando.
A nova lei das Bets é a forma elegante que o Senado encontrou de dizer: “pode viciar, mas sem fazer barulho”. Nada de comerciais berrando entre os dribles, odds dançando na tela ou ex-jogadores prometendo riqueza fácil — só os aposentados de longa data entram nessa. Influenciador virou palavrão. Árbitro? Nem sonhar com patrocínio. Tiraram até os mascotes fofinhos. O vício continua — só que com mais classe. É a aposta combinada: na onda da regulamentação, uma cartelização. É gol!
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Prender artistas (ou quase isso) não vai diminuir a criminalidade. O país precisa de um plano efetivo contra o crime organizado. É a principal urgência da nação. Isso inclui retomada de território e fiscalização real da relação entre facções e poder público. Não adianta prender MC boca de lixo e manter contrato com empresa de coleta envolvida até o caroço com o crime.
Isso não quer dizer que a fiscalização não deva existir. Lavar dinheiro com arte não pode ser privilégio agropecuário ou das elites litorâneas, com suas obras contemporâneas supervalorizadas e curadores amigos.
Enquanto o Brasil encena sua farsa com prisões para a plateia, a arte permanece como a lavanderia de grife dos espertalhões, e o vício em jogos e apostas ganha um polimento de lei para iludir os incautos. O problema não é especialmente o MC despejando seus versos ou as odds piscando como iscas na tela — é o sistema que se lambuza no esquema, do funk ao Congresso, da máfia aos almofadinhas da elite. Sem desmantelar essa engrenagem com retomada de território, fiscalização que preste e um mínimo de decência, vamos continuar valsando ao som de uma ideologia que só quer faturar e debochar da nossa ingenuidade.






