Lô Borges (1952-2025)

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Nesse triste 3 de novembro, o Brasil soa pior, numa microfonia ensurdecedora. Nos deixa Lô Borges — o homem responsável por um dos maiores álbuns da música brasileira: Clube da Esquina.

Clube da Esquina revelou ao mundo uma turma de Minas Gerais profundamente influenciada pelos Beatles, pelo jazz, pela bossa nova e pelo folk — e, ainda assim, absolutamente original. Uma geração que alcançou uma maturidade musical rara.

A obra de Lô é feita de camadas. Psicodélica mas consistente, sua arte é cheia de camadas, refletindo um momento do Brasil — o país em busca de si mesmo. É um disco em que cabe o samba de ” Me deixe em Paz”e o delírio pop de “O Trem Azul”, inspirado na beatlemania. Um álbum que transcende fronteiras mercadológicas. Quem consegue classificar o inclassificável?

De 15 em 15 anos, o Brasil esquece o que aconteceu nos últimos 15 — já dizia Ivan Lessa. O país de hoje se acomodou com as vulgaridades de um entretenimento pobre. Como se as esquinas de Belo Horizonte nunca tivessem entoado os acordes de “Um girassol na cor de seus cabelos”, como se nunca houvesse existido Lô e companhia, como se as dissonantes nunca tivessem dissonado.

Lô deixa a vida para entrar na história, ao lado dos grandes — João Gilberto, Tom Jobim. Apesar da grande carreira, sua maior obra é seu disco inaugural, seu grito natural, sua obra-prima.

Mostra que a maturidade nem sempre é a chave da grandeza — às vezes, é a anarquia, o impulso, o frescor juvenil que nos trazem o belo. Assim como Rimbaud, que deixou sua marca antes de completar 18 anos, Lô Borges deixou sua marca antes que o tempo o completasse. Coisa de gigante, coisa de quem nasce pronto.

Como completaremos nós — o Brasil e sua cultura — a maturidade sem ele?

Quem sabe o Brasil complete, enfim, seus 18 anos — e que possamos merecer a maturidade dos clubes pelas esquinas afora.