O intelectual orgânico que virou uma porta

O intelectual organico que virou uma porta
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Por Newton Cannito – Kleber Mendonça não é um cineasta comum — ele é o escolhido para ser o intelectual orgânico do petismo. Stalin também tinha seus cineastas escolhidos e autorizados. Monsieur Mendonça , como ele gosta de ser chamado, é o eleito da vez. Agente Secreto é mais um fracasso estético e possivelmente mercadológico do diretor que, devido à grana pública pesada na produção e lançamento e a um lobby de 20 anos em festivais, se traveste de sucesso.

O fracasso estético tem sido apontado por vários bons críticos, como Sérgio Alpendre e Josias Teófilo, que recomendo a leitura. Esse artigo não é de estética ,é mais de sociologia da arte. Nesse sentido, o surpreendente é que esse é o primeiro filme dele que ainda tem vozes discordantes. “Bacurau”, por exemplo, era péssimo, até pior que “Agente Secreto”… mas criticar o filme era considerado em si, motivo de cancelamento. E é assim até hoje. Se você não gostar do filme de Monsieur Mendonça, você automaticamente será encaixado na categoria de “extrema direita” e será cancelado pela classe artística. O artigo de Alpendre na Folha é curioso de ser lido pois, antes de criticar o filme, ele passa metade do artigo se desculpando por criticá-lo. E justificado: é o medo de ser cancelado por discordar do consenso de que Monsieur é um gênio e que o filme é ótimo!

O intelectual orgânico, nos termos de Gramsci, é o intelectual a serviço do partido, integrado à filosofia partidária. Nelson Rodrigues, que era realmente livre, se definia como intelectual inorgânico. Já Monsieur é um intelectual orgânico da última geração: só repete jargões e só promove polêmicas pautadas para promover a pauta petista – como o “Fora Temer” em Cannes, o frevo antibolsonarista e outras performances dignas de Anos Rebeldes, da Globo. Ele é só um robô digital com muita grana pública.

O curioso é que, para Gramsci, o intelectual orgânico ainda remetia a algo vivo, criativo e contestador. Já o intelectual orgânico de hoje é orgânico como uma porta — uma madeira morta e dura. O orgânico de Gramsci era de oposição ao sistema. O intelectual porta é o próprio sistema.

No início de sua carreira, o relativo sucesso internacional de seus filmes era ampliado pela mídia nacional, também financiada pelo mesmo sistema cultural. O lobby deu certo e depois de anos ele acabou ganhando um prêmio importante: o de Direção em Cannes. O premio em si, é uma prova clara da perda da importância cultural dos festivais e da crise da criação cinematográfica.

Até 50 anos atrás, ganhavam Bergman, Fellini… até 20 anos atrás havia Ken Loach, Almodóvar etc. Hoje, é Monsieur Mendonça fazendo filmes que são pastiche do cinema novo, mas que agrada o ultrapassado pensamento do mercado de críticos envelhecidos. O fato é que os festivais de cinema viraram bolhas autistas de autopromoção dos cineastas da panela. Não é à toa que Mendonça, antes de ser cineasta, investiu muito em frequentar os festivais como crítico, fazendo um network por 20 anos. Deu certo. Parabéns. É uma boa estratégia de carreira. Temos que admitir: um cineasta medíocre ir tão longe é um feito para se admirar. Imagine onde iria se tivesse talento.

A Fórmula do “Sucesso” Forjado

O lançamento comercial de Agente Secreto repete a fórmula de sucesso forjada e muito usada pelo establishment do cinema brasileiro, a fórmula Caca Diegues de Sucesso de Público! Cito o Caca, pois os filmes dele eram um caso comercial muito parecido com os de Monsieur Mendonça.. O truque é simples: o sucesso não é medido pela rentabilidade, e sim pelo público absoluto. Isso é obviamente uma distorção.

Imagine qualquer negócio: você prefere investir 10 reais e recuperar 5, ou investir 1 e ganhar 2 reais .. Evidentemente, o segundo é mais rentável — e mais bem-sucedido. No cinema brasileiro, não. O sucesso é de quem investiu 10 e recuperou só 5, pois a medida do sucesso comercial usada para avaliar os filmes no Brasil (pela Ancine e outros mecanismos) é apenas o público absoluto e, nesse critério, o 5 é maior que o 2.

Esse modelo favorece cineastas e produtores eleitos pelo Regime Oficial, que concentram as verbas do investimento público. Assim, com alto investimento prévio, eles sempre fazem mais “sucesso” do que os não eleitos.

Agente Secreto, por exemplo, está sendo tratado como um sucesso. No entanto, ainda é cedo para isso. Foi lançado em 1.400 salas e, mesmo com uma campanha de lançamento milionária, apoiada por Petrobras e outras estatais, está fazendo um baixíssimo índice de espectadores por sala. Maria Rosario Caetano, outra critica que não pode ser suspeita de ser de direita, analisou alguns dados. Em post no Instagram, ela alerta: “Ainda estou aqui” tinha media de 846 espectadores por sala. “Agente secreto” está com 395 espectadores por sala.

Ou seja, está indo bem mal. Mas claro que ainda é cedo para dizer que será um fracasso, precisa olhar mais umas 3 semanas. O fato é que em lançamentos de cinema a primeira semana é muito resultado do marketing (e, nesse caso, mesmo com marketing pesado a média foi ruim). Mas a segunda semana é fundamental para avaliar se o filme foi bem ou mal de boca a boca e aí definir a curva final do filme. Esses dois números ajudam a analisar o interesse real do espectador em assistir.

Mas essas avaliações mais objetivas não são feitas pela imprensa. que prefere dizer que o filme é um sucesso, apenas por analisar os números absolutos. Avaliar o público absoluto é um jeito de quem tem mais grana pública (ou seja, os eleitos pelo Estado) serem sempre considerado mais bem-sucedidos do que quem tem menos grana pública. E assim o sistema controla o pensamento: garantindo o sucesso para os intelectuais-porta do petismo!

O Controle das Ideias

Mas, se quisermos ser indústria, deveríamos avaliar a rentabilidade das obras — não o público absoluto.

Mas essa política não é feita para o cinema virar indústria, e sim para controlar as ideias.

Essa verba dos editais é, obviamente, usada como prêmio de bom comportamento ideológico. Na prática, o que existe no Brasil é um adicional de fidelidade ideológica na avaliação.

Para entender isso, é preciso compreender um pouco de sociologia da arte e como foi montado o sistema de financiamento audiovisual. No audiovisual, o padrão é a avaliação dos editais ser feita pela própria classe — uma confusão entre corporativismo e democracia.

A maioria dos festivais perdeu público real e se tornou apenas um encontro de profissionais da área, sustentado com dinheiro público. Trinta anos disso, com imensa pregação ideológica, transformaram o ambiente cultural brasileiro num ambiente radical, dominado pela pauta identitária woke ou, ao menos, pela pauta de esquerda clássica, como Kleber.

A esquerda percebeu bem o potencial da classe artística. Afinal, ninguém é mais ativista do que um artista engajado que se acha intelectual. E o intelectual-porta, como dissemos.

Nesse ecossistema cultural totalmente controlado pela esquerda, criticar qualquer mecanismo do sistema é motivo de exclusão da classe artística — como aconteceu comigo e com muitos associados dos Artistas Livres. O cancelamento na área artística não é só um cancelamento no Instagram: é o fim da carreira. É parar de ganhar prêmios e nunca mais conseguir trabalhar. Muitos ficam calados porque têm medo também de possíveis perseguições da burocracia estatal.

O Prêmio da Lealdade

Toda a cultura brasileira está organizada para premiar quem é leal ao sistema. Produtores pequenos já aprenderam a usar as palavras-chave que ganham os editais (crítica à ditadura militar, decolonialismo e tal). Parece exagero, mas não é.

Por que você acha que há tantos filmes sobre a ditadura militar? É óbvio: é bom lembrar da ditadura antiga para não pensar na ditadura do presente.

E é fácil comprovar o controle ideológico: basta olhar os resultados de editais públicos e você verá que todo artista explicitamente de “direita” tem grandes dificuldades para ganhar edital.

Por isso, quanto mais leal ao esquerdismo você for, mais prêmios e verbas públicas ganhará. Kleber é isso: o mais porta de todos, o mais leal, o robô mais treinado — o melhor intelectual porta da esquerda. E, por isso, é o grande case de sucesso desse sistema atual.

O sistema premia bem as portas leais — e premia forjando sucessos. Kleber é apenas o mais bem-sucedido nesse sistema de avaliação corporativo e autista, criado para manter as ideias controladas.

Conclusão

No futuro, quando analisarem a crise da cultura de nossa época, o sucesso forjado do péssimo cineasta Kleber Mendonça será usado como um dos casos que explicam como acabar com a cultura de um país.

Pois forjar o sucesso de um cineasta impediu o surgimento dos verdadeiros talentos livres — que foram silenciados nas décadas de domínio da cultura pela esquerda.

Por Newton Cannito

  1. O articulista demonstra com o que está escrito que entende pouco de cinema, entende pouco de Gramsci e parece querer medir a “estética” de uma obra pelo número de telespectadores que pagaram ingresso em um cinema.

    E ainda faz indicações de tendência de possível fracasso, mas não coloca qual parâmetro seria sucesso ou fracasso nos dias atuais. Se for ingressos de cinema comprados, quantos seriam necessários para falarmos em sucesso ou fracasso?

    Aliás, parece que não gosta da filmografia de Kleber Mendonça (e é direito de qualquer um gostar do que quiser), mas força em tentar desqualificar algo que não é desqualificado (tanto Bacurau como o Agente Secreto são filmes bem feitos e muito potentes em termos de direção, roteiro e interpretações da história, mas que a estética pode ser boa ou ruim a depender de quem a veja… e pessoalmente gostei da estética desses filmes).

    Espero que o anti-petismo não seja o motor desse artigo sem fundamentos, pois senão daqui a pouco a qualidade do filme vai depender da posição política do diretor… e o pior ainda pode levar a servir como mera peça de anti-propaganda do filme ou do petismo para conservadores ou bolsonaristas kkkk

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