Inteligência da Ucrânia forja morte de neonazista russo

Denis Nikitin
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Quem é Denis Nikitin, o neonazista russo pró-ucraniano cuja morte foi forjada pela inteligência de Kiev.

Depois de noticiada a morte de um notório comandante russo pró-ucraniano em 27 de dezembro, a inteligência militar da Ucrânia anunciou que a informação não passara de uma encenação destinada a enganar os russos e embolsar uma suposta recompensa de 500 mil dólares.

Denis Nikitin, também conhecido como “Kasputin” ou “WhiteRex”, apareceu em uma vídeo-chamada com o comandante da inteligência militar ucraniana (GUR), Kyrylo Budanov, que o parabenizou por ter “voltado à vida” e chamou o militante russo de “inimigo pessoal de Vladimir Putin”. Nikitin é comandante de um grupo de voluntários russos que luta pelo Estado ucraniano, conhecido como RDK (Força Voluntária Russo), responsável por incursões militares ucranianas em províncias russas como Belgorod, Bryansk e Kursk.

O comandante é notório pelo seu histórico contínuo de militância neonazista.  Não se trata aqui de alguém com um “passado nazista inconveniente”, que pertenceu a algo no passado e hoje seria apenas um militar profissional. Nikitin é um propagandista ativo. Como militante, seu programa contemporâneo para a Rússia defende a fragmentação do país em diversos enclaves étnicos, de modo que os russos possam, segundo ele, conquistar um “Estado puro” no norte do território.

Não falo de uma controvérsia pontual, de “momentos” ou “falas específicas”, mas de um ativismo constante e presente. A primeira coisa que Nikitin fez em suas redes sociais depois de “voltar à vida” foi republicar conteúdo de seu associado Alexey Levkin, que utiliza suas plataformas para promover discursos e portais neonazistas. Basta acessar a republicação para encontrar a divulgação de páginas como “Blood & Honour Ukraine”, Combat 18 e até uma página que se identifica explicitamente como uma “Nazi Shop” — que, fazendo jus ao nome, comercializa artigos nazistas diversos.

Nessas páginas, encontramos elogios diretos à figura de Nikitin como correligionário e adepto dos mesmos ideais. Não por acaso. Quando escrevi, em 2022, um artigo sobre o grupo comandado por ele, os temas que apareciam de forma insistente em seu perfil eram os mesmos, incluindo a promoção de outras páginas voltadas ao hitlerismo.

No passado, Nikitin passou parte considerável da juventude na Alemanha, onde se envolveu com o hooliganismo. Chegou a conceder entrevista ao site Ultras Troublemakers, na qual defendeu a “supremacia branca” nas torcidas organizadas alemãs, a ser alcançada pela expulsão de turcos, ciganos e árabes. A entrevista terminou com a saudação “Sieg Heil”. O apelido “WhiteRex” deriva de uma marca de roupas, de um torneio de MMA e de um veículo de propaganda criados pelo próprio Nikitin.

Através de sua marca, ele criou uma rede de atuação internacional e treinou militantes extremistas da Alemanha até a Rússia.

Hoje, ele comanda uma formação militar a serviço do Estado ucraniano e cumpre uma função estratégica de promover incursões em território russo, além de prover soldados provenientes de outros países. Desde que se estabeleceu na Ucrânia, em 2014, Nikitin se associou ao movimento do Batalhão Azov, fundado por Andriy Biletsky. O Azov e seus desdobramentos constituem um importante polo de organização do neonazismo na Ucrânia, apesar da insistência de alguns especialistas em sustentar que o grupo teria se desvinculado da política, uma imprecisão: tanto o Batalhão Azov integrado à Guarda Nacional quanto o Terceiro Regimento do Exército, formado por veteranos do Azov, mantêm vínculos com estruturas políticas e funcionam como plataformas para ultranacionalistas.

Com Nikitin, o Azov conseguiu mobilizar voluntários russos e administrar negócios fora do espectro militar; dentre as mais famosas fontes de financiamento, o festival de música extrema Asgardrei, associado mais diretamente à figura de Alexey Levkin.

Diversos neonazistas investigados pelo Estado russo — inclusive suspeitos de ligação com grupos terroristas processados em 2010 — refugiaram-se em Kiev.

A ideia de fragmentar a Rússia não é uma obra original de Nikitin, já que outros nazistas de seu país viam nessa proposta não apenas uma utopia racial, mas também um meio prático de enfraquecer o Estado e abrir espaço para o extremismo.

Para os ucranianos, promover a desintegração da Rússia já foi um sonho de nacionalistas no passado — compartilhado, por exemplo, pela estratégia prometeísta do Estado polonês no período entre guerras — e hoje integra a ambição estratégica do próprio Estado ucraniano, conforme já expressado pelo chefe de sua inteligência. Por motivações distintas, mas pelo mesmo caminho, o Ocidente também tem oferecido plataforma a defensores da desintegração russa, com esmaltes “decoloniais”.

Até segunda ordem, o neonazista Kapustin continua sendo uma peça importante nesse projeto e mantém a confiança de seus superiores ucranianos para seguir promovendo incursões que aterrorizam o território russo. Suas preferências políticas parecem despertar pouco interesse entre jornalistas ocidentais, mais preocupados com a aparente astúcia dos serviços ucranianos em mais uma ação espetacular.

Kyrylo Budanov, o celebrado “mestre-espião” da Ucrânia, glorificado no Ocidente, empresta parte de sua aura a esse Denis Nikitin redivivo — alguém que “morre” no Natal e renasce no Ano Novo com o rosto estampado no noticiário internacional. Uma crônica de morte adiada, entre tantas outras crônicas da Ucrânia pós-2014, tantas delas crônicas de necromancia.

É a Ucrânia onde aliados de Nikitin marcham todos os anos com tochas acesas na esperança de ressuscitar nacionalistas como Stepan Bandera — receberam Nikitin. Enquanto isso, alguns dos mais radicais tentam ressuscitar as ideias do pintor austríaco, e a oposição pró-Rússia encena, por sua vez, levantamentos soviéticos e memórias czaristas.

A tradição das gerações mortas oprime o cérebro dos vivos, já disse um outro falecido; Nikitin, não — este ressuscitou pelas mãos de Budanov.

Sem sair do noticiário, Budanov também acaba de ser escolhido como o novo chefe de gabinete da de Volodymyr Zelensky, depois da renúncia antigo aliado — zelenkista original — Andriy Yermak, em meio a uma investigação de corrupção que incluiu buscas em sua residência.