De onde vem o êxito político das extremas direitas no mundo hoje? Uma resposta factível: do esgarçamento das alternativas organizacionais pregadas por partidos e atores políticos tradicionais. Essas alternativas são sutis variações dos projetos políticos modernos do século XIX compilados e distorcidos no século XX, a saber, o liberalismo e a socialdemocracia. Reconheçamos: não termos tido muito além disso tem nos custado caro.
Esses dois projetos passaram a ser as únicas vias de organização social em um Ocidente de pós-Guerra caracterizado por relações internacionais estabilizadas, com o apoio de órgãos transacionais sofisticados e distribuídos tematicamente, tratados e acordos multi e bilaterais diversos, comércio e intercâmbio cultural intensos e arrefecidas ameaças de novas guerras. Mas, sobretudo, prosperaram tais projetos pelo pacto infranacional de celebração dos três domínios macroinstitucionais adotados como necessárias e suficientes para o mundo contemporâneo: a sociedade civil independente, a democracia constitucional representativa e a economia de mercado. Os projetos variam conforme a ênfase que prestam sobre o peso e a proeminência desses domínios. Mas ambos concordam em conservá-los sem muitos questionamentos e retoques.
O projeto liberal, onde e quando predominou, advogou pela diminuição do Estado, enquanto sede da democracia representativa, atribuindo ao mercado, seus agentes e contratos, a provisão dos objetos de desejo e realização do conjunto da sociedade. Caberia ao Estado apenas o papel modesto de manter serviços públicos indispensáveis (educação básica, saúde preventiva, segurança, justiça, relações exteriores e defesa) que justificassem a arrecadação e o emprego de funcionários de uma máquina burocrática eficiente.
O projeto socialdemocrata, por sua vez, defende a diminuição do mercado como ente provedor dos interesses coletivos, por postular que as desigualdades acumuladas pelo capitalismo precisam ser administradas pelo agente público, visando o interesse coletivo. Sem o Estado, pensam os socialdemocratas, a sociedade civil padece em escassez, despotismo e abandono. O mercado permaneceria como provedor de bens e serviços, mas não substituiria o Estado na tarefa primordial de engendrar os produtos de interesse social, e não estaria blindado da interferência do Estado engajado em promover equidade quando ela fosse urgente.
Gastos públicos e inflação são problemas dos que mais se convocam as energias dos homens de Estado nessa conjuntura. As décadas que se sucederam na segunda metade do século XX viram um cotidiano de poucas aspirações transformadoras e muito quietismo político disfarçado de realismo, o realismo da administração tecnocrática de um estado impotente para conduzir a economia e para promover a assistência social a contento.
Com a transição entre os séculos XX e XXI uma cultura política nova despontou. Moldada por um mix filosófico de teoria crítica alemã e do desconstrucionismo francês, insuflado pelo paradigma dos movimentos sociais norteamericanos, e encontrando na academia, nos centros de pesquisa e na imprensa mainstream os meios de maturação e propagação, essa cultura política, centrada na celebração de identidades sociais autoafirmadas como oprimidas por estruturas e instituições convencionais, representou a confirmação de novos atores a serem beneficiados pela agenda socialdemocrata de atendimento das demandas sociais e pela agenda neoliberal de supressão ou esvaziamento dos Estados nacionais. A narrativa de emancipação das minorias quer o estado para cobertura social, porém não procura lastro nacionalidades.
Sem identidades nacionais que acomodassem grupos tão diversos, minorias e maiorias, a agenda emergente da política contemporânea passou a ser a da reparação e responsabilização retrospectiva, pautas que despertaram fúria em nichos que doravante se viam como prejudicados: materialmente, pela fraqueza dos projetos de organização, então incapazes de assegurar crescimento econômico contínuo com emprego e poder de compra, e simbolicamente, porque tornados bodes-expiatórios de todos os males com essa nova linguagem política.
Tais nichos são massas de populares, com moral de base religiosa e desejosa de formar e conservar a unidade social da família, raro reduto de confiança num mundo de impessoalidades e incertezas. Consideram a insegurança um dos principais problemas da sociedade em que vivem, e contra ela mobilizam afetos punitivistas bem despertados pela comunicação política dos profissionais que os mapeiam. Esses grupos entusiasmam-se com o discurso nacional rebelde ao neoliberalismo e à socialdemocracia predominantes. Ao neoliberalismo, por seu caráter globalista, contra-nacional. À socialdemocracia, por seu caráter assistencialista. O espírito das extremas direitas, dessas massas que ocupam posições intermediárias na economia das democracias ocidentais, tende a um nacionalismo-empreendedor, xenofóbico e antiassistencialista.
Os discursos e práticas da extrema direita são reações diretas aos discursos e práticas progressista-identitários (dos quais o wokismo é a versão americana). Só puderam brotar onde houve uma forte disseminação do vocabulário identitário e só se consolidaram pela verbalização de premissas contrárias às da agenda identitária. O palco disso são os países ocidentais ou ocidentalizados, como o Japão, nos quais o liberalismo permanece glamourizado apenas por seu acento austero e rígido, e onde a socialdemocracia, com sua pauta açucarada, está inteiramente descredibilizada. Nos países em que a pressão migratória é constante, esse discurso extremista tem tido crescente adesão. Em todos, uma desconfiança do poder judiciário e da instituição da imprensa determina a militância de direita.
Outro ponto importante é que os discursos de extrema direita dialogam com elementos de longa duração das sociedades históricas em que são emitidos. O discurso esquerdista identitário é disruptivo e prenuncia os termos de normalidade de uma vida social ainda por nascer. O choque com valores arraigados ou residuais é inevitável. Não à toa, o extremismo de direito evoca, com ou sem fidelidade, os pensadores do conservadorismo como sua base de fundamentação. Mas, nesse quesito, o elemento nacional novamente ganha relevo. Quando os líderes de extrema direita falam de valores cristãos, eles modulam essa fala em acordo com as circunstâncias específicas de sua cultura nacional. No Brasil, Bolsonaro foi hábil em conseguir galvanizar adeptos por ostentar em sua fala e em seus gestos caracteres do que se pode chamar de brasil profundo, como o punitivismo à brasileira, o sadismo à brasileira, o machismo à brasileira, o autoritarismo à brasileira etc. – termos que não devem ser lidos como palavrões, mas como componentes de uma experiência coletiva longeva. Os extremistas não monopolizam o acesso às realidades nacionais profundas, mas entram em sintonia com alguns dos elementos até inconscientes delas de forma muito eficaz.
Por que a extrema direita se consolida no mundo? Porque as alternativas globais de organização da sociedade estão desacreditadas e porque a linguagem política de mobilização impossibilita transigências. É claro que o tabuleiro informacional, o ambiente de rede e as big techs que o sustentam conferiu uma expressão própria à comunicação política da ascensão dessa direita. Mas não é verdade, como se diz por aí, que a ascensão da extrema direita provém das teorias conspirativas que abundam nesses ambientes de rede. Antes, é uma combinação desalentadora de frustração política e desorientação moral e cultural.






