O Brasil não foi colônia de exploração

O Brasil nao foi colonia de exploracao
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Muitas ideias necessitam serem revisitadas na história do Brasil. Talvez o maior exemplo seja a história da “Independência do Brasil” que, quando se analisa de forma mais acurada, se parece mais uma “Independência de Portugal” em relação ao Brasil. No entanto, isso é assunto para outra ocasião.

Revisitar esses temas para fazer sua correta abordagem histórica sobre símbolos e significados é necessário para a reconstrução do Brasil que se enxerga como nação soberana e competente. Isso porque, nos últimos anos, uma série de narrativas que tentam nos menosprezar enquanto povo nos colocando como descendentes de estupro, povo explorado, povo escravizado etc. de nada servem que não para diminuir o nosso ethos de nação poderosa que sempre tivemos.

Uma dessas ideias que precisamos revisitar para poder fazer um melhor aproveitamento da temática, e não somente algo como uma refutação vulgar, é a tese de que nós fomos uma “Colônia de Exploração” e os Estados Unidos foram “Colônia de Povoamento”. Diante dos dados estimados, essa tese não se sustenta e não explica várias das diferenças entre os países.

Vamos começar pelos anos 1600. Nesse período, tanto nos EUA como no Brasil, a população de brancos e negros em relação a população total era quase inexistente, principalmente se comparadas as massas de milhões de indígenas. Quando se analisa esse dado já começam muitas das interpretações erradas. Para a construção da tese “Colônia De Exploração versus Colônia de Povoamento” os dados considerados pelos pesquisadores abrangem todo o atual território brasileiro para aquela época (mesmo que na época o território do Brasil fosse muito menor que hoje). Porém, quando eles analisam os EUA, somente consideram os dados para a costa leste do país. Então, mesmo havendo 5 mil brancos nos EUA e 15 mil brancos no Brasil ao redor de 1600, várias publicações já consideram que lá eles eram 95% da população e aqui os brancos não passavam de 5%. Veja: mesmo em 1600 existia no Brasil o triplo de população europeia que nos EUA, sendo esse dado dissimulado para sustentar narrativas cômodas.

Ao redor de 1700, as populações já ficam mais interessantes. Dos 1.3 milhões de americanos havia 20% de brancos. Na mesma época, no Brasil, dos 2 milhões de habitantes, os brancos já eram 25% da população. Se considerar os mestiços, que para a coroa tinham status de pessoas brancas, estamos falando de 35% da população. No entanto, a percepção era claramente diferente. Nos EUA, em 1700, os indígenas, que somavam 1 milhão de pessoas, estavam cada vez mais distantes geograficamente e eram perseguidos, ao passo que no Brasil integravam bandeiras de povoamento. Então, mesmo a porcentagem de brancos nos EUA sendo menor que no Brasil nessa época, a percepção de que lá essa população era maior foi falsamente projetada e usada para análise.

Seguindo para 1800, os EUA já tinham uma população bem maior que a nossa e agora sim com entrada massiva de brancos no país. Dos 6.5 milhões de americanos nessa época, os brancos já eram 73% da população. Dos 3.5 milhões de brasileiros, brancos e mestiços somavam 57% da população. Mas veja, não é porque não houve povoamento no Brasil. A questão é que nos EUA a população foi gradualmente sendo substituída. Se cá no Brasil, ao invés de integrar indígenas e depois os negros à sociedade, tivéssemos exterminado o primeiro grupo e segregado o segundo como foi feito nos EUA, a nossa porcentagem de brancos e descendentes de europeus teria sido semelhante a dos EUA também. Então não é possível fazer uma análise de que lá foram pra povoar e aqui serviu só para exploração.

Outro argumento que utilizam para reforçar esse ponto é que para os EUA migraram famílias inteiras e para o Brasil só vieram homens desbravadores. Ao verificar os dados, isso também não é verdade. Em 1600 a proporção da população de homens brancos para mulheres brancas, tanto no Brasil como nos EUA, era de 5 homens pra 1 mulher.

Em 1700, de fato, dos brancos brasileiros 65% eram homens e 35% eram mulheres e nos EUA entre os brancos 55% eram homens e 45% eram mulheres. Ou seja, de fato entre 1600 e 1700 nos EUA houve uma formação precoce de famílias, mas isso não indica que no Brasil esse processo também não tenha existido, considerando que aqui ainda havia os mestiços que equilibravam as relações.

Apesar disso, já em 1800, a proporção entre homens e mulheres da população branca – tanto nos EUA como no Brasil – já estavam equilibradas.

Ou seja, quando se considera Brasil e EUA – que são as duas experiências mais complexas e completas do Novo Mundo – não é possível reduzir a análise a essas simples categorias de “povoação” ou “exploração”. Tanto aqui como lá ambas foram presentes. Talvez se pode julgar que aqui teve uma maior proporção de exploração que povoamento e lá maior proporção de povoamento que exploração. Porém, de forma alguma, dá para reduzir ambas as construções em categorias vulgares e simplistas.

  1. Será que a redução a categorias vulgares e simplistas não foi feito pelo articulista?

    Utilizar apenas dados de composição da população é que vulgariza qualquer conclusão.

    O que fazem ser uma colônia de Exploração ou Colônia de Povoamento é o tipo de capitalismo que é aplicado em determinado local. No Brasil, com as sesmarias e depois com o plantatio, assim como no sul dos EUA com os plantations… há uma colonização de exploração. Enquanto no Norte dos EUA e mesmo em partes do Sul do Brasil que houve distribuição de terras, mas sem se vincular ao sistema de plantation… teve então colônias de povoamento.

    E a guerra de secessão nos EUA eclode com base na luta pela hegemonia entre esses dois modelos, que o modelo derivado da colônia de povoamento no Norte sagra-se vencedor.

    Incrível como buscam vulgarizar conceitos que atribuem a qualidade de “vulgar”, mas que a vulgarização parte de quem não sabe analisar os conceitos.

    Aliás, poderia ter aprofundado o tema ao falar que nos dois modelos existiam exploração, porém em um modelo ocorre uma exploração com base no sistema agrário de plantation escravocrata, enquanto noutro modelo a exploração baseava-se na produção cosmopolita de manufaturas.

  2. A análise carece de qualquer sustentação histórica significativa. Uma breve folheada n’O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro (ou em qualquer outro dos seus estudos civilizatórios), derruba todo esse impropério publicado como artigo. Ora, não exterminamos os indígenas? Gastou-se, desenfreadamente, até a morte toda uma população de milhões de nativos aqui. Fora o restante da argumentação, absolutamente insuficiente e de extração ufanista. Viva a nação brasileira e seu povo! Mas o real, não essa versão mistificada que o autor ora desenha.

  3. Concordo em parte, e discordo em parte também.
    Inicialmente foi sim colônia de exploração, mas como tudo muda, principalmente em se tratando de Portugal. As reviravoltas políticas/econômicas resultantes da ”união ibérica (1580/1640)”, que deixaram uma Portugal completamente quebrada, matizaram novas configurações, ”nada simples” de se sintetizar em algumas linhas.
    E sim, a maior parte dessas narrativas contraproducentes em relação ao nosso país, servem como vírus de ataque ao nosso ”Êthos”, de grande nação, o que sempre fomos, e não deixaremos de ser (sem ufanismos idiotas, mas somos grandes porque ”somos’, e ponto!).
    Mais uma, o brasileiro é ”miscigenado” sim, mas porque ”quer e gosta”, caiamos na realidade, e deixem os estúpidos falando sozinho, é o que merecem.
    Quanto aos EUA, a síntese também não é fácil, a colonização do norte foi sim, desde o início de povoamento, mas a do sul não, foram reservadas aos amigos da monarquia, por isso os plantation no sul, e a mão de obra inicial era de ”apenados” da metrópole. A contraposição de modelos nos futuros EUA, sempre foi acentuada, só se resolvendo, ou melhor, culminando, com a guerra de secessão (1861/1865).
    Mas sim concordo, simplificar que a imensa colônia lusitana do sul, foi só de ”exploração”, enquanto que a inglesa do norte, foi de povoamento, é de um binarismo ridículo, tolo.
    Fomos muito mais que isso, e como dizia o agora esquecido, mas imprescindível, Darci Ribeiro ”somos uma nação e um povo novo, disponível ao futuro” ao futuro que construirmos para nós!
    Prof. Dr. Luciano Kneip Zucchi.

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