É muito difícil para um político saber a hora de deixar o poder. Estadistas costumam ser os que saem voluntariamente ou morrem no auge. Às vezes, dá-se o que ocorreu a Churchill: servir para a guerra e não servir para a paz. Às vezes, o que se deu com Mandela: servir como pacifista, não como guerrilheiro. Todos eles deixam na memória coletiva a lembrança de um período de bonança e prosperidade ou de uma tormenta atravessada sob boa condução, ou de uma inspiração quase inviolável. Quando não é a fortuna o que retira o governante do palco, é necessário que ele tenha a virtude para a reconhecer a saída no tempo oportuno.
Quis a fortuna afastar Dom Pedro II, Juscelino e Tancredo Neves, empurrando-os da política ao exílio, à cassação ou ao óbito. Por uma trágica virtude, deixou a presidência, o país e a vida Getúlio Vargas. Mas nossos exemplos de estadistas são tão pouco numerosos que é difícil conjecturar de forma sistemática.
De todo modo, no período pós-redemocratização, ascendeu ao poder altivamente o senhor Luiz Inácio Lula da Silva. Sua presença nos meandros da política data mesmo dos anos 1970, quando eclodiu como liderança para nunca mais sair de cena. E o século XXI, que completa agora o seu primeiro quarto percorrido, ainda não assistiu a uma fase qualquer na política nacional em que fôssemos poupados da figura de Lula.
Há muita coisa envolvida. Por competência, Lula e seus correligionários montaram a maior máquina partidária do hemisfério sul ocidental. Nenhum partido tem a penetração e o apelo do PT. Mas mais do que isso. Diferente do peronismo argentino, a força de Lula decorre da institucionalidade e da capacidade organizacional de seu partido. Diferente dos democratas americanos, o PT possui uma liderança carismática efetiva e resiliente com Lula. Um partido com um vistoso Lula, não abre mão do poder; um político com um vigoroso PT não abre mão de candidatar-se.
A construção de ambos os agentes políticos deu-se por reforço mútuo em uma equação eficaz, conquanto incorreta, de tradução dos dramas nacionais de fins de século. O que o partido e seu líder não conseguiram equacionar é a sua relação com um Brasil em transição – nisso tornaram-se ineficazes, sem fazer-se corretos.
A sociedade brasileira nunca foi muito bem compreendida pelo lulopetismo. Mas alguma sincronia entre ambos foi possível em algum momento. O problema é que hoje ela já não é aquela dos anos 80 ou 90. Não é sequer a mesma dos governos Lula 1 e 2. E mesmo aquilo que é permanente – aspectos socioculturais arraigados na longa duração do tempo histórico – é hoje bem mais sintonizável com os sinais da extrema direita. Ademais, o imaginário religioso predominante não é o mesmo. As aspirações econômicas e do mundo do trabalho não são as mesmas. A distribuição de classes não é a mesma e as tensões entre elas, tampouco. A arena em que a política ocorre agora, as redes sociais, é totalmente distinta das portas de fábrica no ABC.
A rigor, nem o PT é o mesmo. Lula já não é cercado pelos de sua geração, que se afastaram, morreram ou se abobalharam. Ele não convive entre iguais, senão com jovens, alguns dos quais meros bajuladores e oportunistas. Sua falta de sintonia com o país deu azo à chegada de Bolsonaro e orgulho a um espectro de direita que nem de partido precisa para se impor.
A antipatia que Lula plantou e tem semeado é consequência disso tudo. E é nesse contexto que vemos a última pesquisa Datafolha, a qual revela uma aprovação de magros 24 % – isso em meros quinze anos após ele ultrapassar a impressionante marca de 80% de cidadãos a favor de seu mandato. Digo de outro jeito para enfatizar o fato: em 2010, 8 de cada de 10 de nós aprovávamos o governo Lula. Hoje, nem 3 de cada 10 de nós o aprovamos. Esse declínio é chocante.
O cálculo que Lula fizera ao fim de seu segundo mandato, quando precisaria de um sucessor, foi: (a) alguém sobre quem ele tivesse ao menos um médio controle; (b) alguém que não fosse carismático a ponto de ombreá-lo; (c) alguém que ele pudesse apresentar ao país como sendo sua cria; (d) alguém que precisasse recorrer a ele como a um conselheiro constante; (e) alguém com quem ele pudesse tirar um proveito político compatível com a sensibilidade progressista do tempo (eleger “a primeira mulher” presidenta); (f) alguém cujo histórico de vida pudesse ser politicamente usado contra os adversários do presente; (g) alguém que tivesse o perfil e o foco voltados para arrumar a casa, mais do que promover expansionismos.
Mas Dilma foi o que foi. E com ela desprovida de virtude e de fortuna, Lula viu sua mácula aparecer e se dilatar. Reviveu as campanhas de difamação da imprensa tucana. Foi injustamente preso. Todavia, ninguém é tão responsável por seu tombo, nem Dilma, nem Moro, quanto o próprio Lula. Isso a tal ponto que nem o outro sucessor escolhido, Haddad, pudesse ter tido êxito na trágica inflexão nacional de 2018. Parece definitivo. Os 80% não voltam jamais.
Houvesse Lula saído do proscênio em 2010, no auge, ele estaria encarando esses amargos 24% hoje? Nunca se sabe. Mas é muito mais factível imaginar que sua ausência do poder inspirasse o sentimento de prosperidade perdida, de que falei antes, no coração dos brasileiros, independentemente do que tivesse ocorrido ao país.
Contudo, a aposta no nacional consumismo revival; a sequência de ambiguidades na agenda econômica, enviando sinais errados tanto ao povão quanto à Faria Lima; as gafes renovadas a cada exposição pública; a falta de imaginação e visão global para encarar problemas nacionais que não podem ser tocados pela anestesia pobrista; a falta de tato para brigar mais do que fingir que briga; o limitado repertório da cooptação de bastidor; o flerte com uma agenda identitária descredibilizada… tudo é item do combo de dissabores políticos que Lula, hoje, por não saber a hora de deixar o poder, assimila – e não sem justiça.
Não esqueçamos, por fim, que a vitória de Lula em 2022 quase não saiu. A rejeição de agora já era ali latente; disposta, porém, a conceder uma chance ao antiBolsonaro. Eis que a chance se revela desperdiçada, e não por conta de fake News da oposição, má comunicação do governo ou eleições americanas. O resultado da pesquisa Datafolha que aponta que 41% dos brasileiros reprovam e 24 % aprovam Lula 3 é diagnóstico definitivo de que nenhum político tem o direito de não mudar num país em radical mudança. Lula está encurralado. E seu carisma, ao que parece, então, meramente eleitoral, talvez não lhe sirva nem para a próxima eleição.






