Enfrentamentos, tratativas e um presidente desequipado

De joelho pro rentismo
De joelho pro rentismo, de costas para o povo
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A política requer de seus operadores momentos de enfrentamento e momentos de tratativas. Quando se está no mais alto cargo, ambos são bem mais consequentes e sonoros. Os enfrentamentos são sempre mais apoteóticos e as tratativas, mais celebrantes e pomposas. Sabem bem disso os players, porque esses são os meios mais comuns de que eles precisam se valer para se manterem no jogo.

Pela própria natureza da coisa, os enfrentamentos não podem ser tão frequentes quanto as tratativas. Eles precisam ser poucos e certos, devendo-se submeter as tratativas aos objetivos diretamente tocados pelos enfrentamentos. Assim, pelo menos, é a visão dos estadistas. Eles sabem o porto a que querem chegar, fazem dos enfrentamentos os ventos a manejar e das tratativas, ondas favoráveis. O estadista é um político destemido, visionário e tenaz. Mas é claro que nem todo político é estadista.

Que Lula não possa apresentar as credenciais de um estadista por não as deter não já estamos bastante cientes. É um político inteligente, hábil, safo, carismático, sedutor. Mas não tem outro know-how senão o de chegar ao poder e lá se conservar. É sinceramente sensível à questão da pobreza, mas inteiramente desequipado para tratá-la. Enquanto profissional do ramo, ele é daqueles que, na ausência de destemor, visão e tenacidade, cria um truque com os enfrentamentos e as tratativas. Em vez de hierarquizar as coisas, camufla as tratativas na veste do enfrentamento, finge combater, quando está a pactuar — o que se aplica também à pobreza: em vez de defenestrá-la, Lula se orgulha de incluir as vítimas dela no orçamento.

O leitor já deve estar recordando diversos exemplos que confirmam essa performance. Mas darei dois recentes: A violência e a alta do juro.

O Brasil litorâneo está em guerra. O que causa a guerra é o crime organizado. Mas o crime organizado só tem poder pelo acesso que lhe é franqueado a armas e munições. Não é a droga o que empodera. Nunca foi. O que empodera uma facção é o volume de fuzis, metralhadoras, granadas e projéteis que lhe chegam as mãos. Se, no passado, policiais corruptos e fronteiras imensas impediam o trabalho de interceptação das armas e balas, hoje, com tecnologia abundante e uma polícia federal independente e invulnerável, esse problema poderia ser mitigado, se não eliminado. Mas não dá para esperar que esse trabalho seja da iniciativa dos governadores. Essa é uma tarefa intransferível do presidente.

O que Lula tem feito em matéria de segurança nos últimos meses? Sob pretexto de enfrenta-la, ele cuida de enfatizar a “sensação de insegurança” provocada pelas ações policiais e o porte civil de armas de fogo. Sim, a imprensa tem corretamente denunciado as práticas abusivas e eventualmente assassinas de policiais no país inteiro e em São Paulo especialmente. E sim, o “liberou geral” demagógico de Bolsonaro só aumentou a insegurança no país, pondo mais armas nas mãos de mais criminosos. Mas é evidente que o tal pacote de segurança só assegura o disfarce. Lula e Lewandovski querem emitir ao mundo a mensagem de que estão fazendo alguma coisa: aumentando muros de presídios federais infestados de celulares. A Amazônia está policiada, ao quê, daqui, visualizamos uma patética caricatura de Marina Silva com uma boina e um coldre na cintura. O crime não é enfrentado de fato.

E a retórica contra o valor da Selic durante a gestão Campos neto? Quem vai esquecer daqueles arroubos de pseudo-enfrentamento? A gestão de seu indicado, Galípolo, já começa com a promessa de aumento progressivo da taxa. Qual a posição de Lula em relação a isso? No momento em que a inflação fica acima de uma meta irrealista lançada por um governo que — isso, sim, um ganho — conquistou um notável número de empregados formais em dois anos, fica parecendo que Lula não consegue desatar o no entre a empregabilidade,  o controle dos preços e o valor do dinheiro emprestado. Não sabe mesmo, porque não enfrenta, apenas trata.

Lula é um refém de seu próprio personagem, um cooptador-garanhão do poder. Alguém, contudo, que já não goza de força partidária, de apoio parlamentar e de adesão popular, como gozava em 2010. E, pior, não tem ideias. Um conselho que ele jamais ouviria, e que precisa ser dado: lide com seus problemas enfrentando o que deve ser enfrentado e tratando o que deve ser das tratativas; aposte até em disfarçar os enfrentamentos com tratativas, mas não invista no contrário, fingir que enfrenta quando se pactua em conluios. O Brasil já sofreu demais com isso.