A União Democrata-Cristã (CDU) saiu vitoriosa nas eleições alemãs, conquistando 28,5% dos votos e pavimentando o caminho de seu líder Friedrich Merz para a chancelaria. Enquanto isso, o Partido Social-Democrata (SPD), seu antigo rival com quem alterna no poder desde 1949, sofreu uma derrota histórica, com apenas 16,4% dos votos — o pior desempenho desde 1933. O segundo lugar ficou com a Alternativa para a Alemanha (AfD), que alcançou 20,8% dos votos, um avanço significativo para a direita radical e um dos temas mais comentados pela mídia. No entanto, é a plataforma da CDU que merece maior atenção, por seu reposicionamento político.
A virada conservadora do eleitorado alemão não é demonstrada só pelo apoio ao partido populista da direita radical, mas está na própria atitude política do partido vencedor, que proclama seu compromisso com a liberdade e com a ordem constitucional dentro e fora da Alemanha, enquanto defende políticas de mão dura na ordem interna, controle rigoroso da imigração e uma postura mais agressiva na política exterior.
Imigração pautou disputa eleitoral
A imigração foi um dos temas mais quentes da campanha. Pressionada pela ascensão da AfD, a CDU adotou uma postura mais dura e prometeu “parar a imigração ilegal” e “controlar as fronteiras alemãs com rejeições estritas”. Também defendeu a deportação de imigrantes para países como Síria e Afeganistão, o que contrasta com a plataforma do SPD, que priorizou diversidade e direitos de asilo.
A CDU também propõe criar “organizações islâmicas alemãs para muçulmanos alemães” para reduzir a influência estrangeira sobre mesquitas no país (o chamaram de “Islã controlado remotamente). Além disso, enfatiza a necessidade de uma “cultura dominante” para guiar a integração dos imigrantes: “a integração não acontecerá sem o idioma alemão”.
O partido que carrega o legado do conservadorismo alemão do pós-guerra
Fundada em 1949, a CDU governou a Alemanha Ocidental por grande parte da segunda metade do século XX, promovendo o chamado “ordoliberalismo” — uma combinação de livre mercado com um Estado regulador e políticas sociais inspiradas em valores cristãos. Durante a era Merkel, o partido adotou um pragmatismo centrista, mas, em 2025, a legenda sinaliza um “retorno ao conservadorismo”.
Defesa, segurança e relações exteriores
Tradicionalmente próxima dos Estados Unidos, a CDU manifestou insatisfação com a postura do governo Trump. Recentemente, o vice-presidente J. D. Vance criticou a Europa, questionando se a democracia alemã é de fato aberta, dado o isolamento imposto à AfD. Elon Musk também entrou no debate, declarando que “só a AfD pode salvar a Alemanha”. Na conferência de segurança em Munique, Vance também sinalizou a forte virada da política do governo dos Estados Unidos para com a Ucrânia, falando de “paz realista”, além de representar as exigências de maior participação financeira dos países europeus na OTAN.
Merz, por sua vez, defendeu que a Alemanha precisa “fortalecer a Europa” para conquistar maior independência dos EUA. A CDU propõe reforçar a relação com a França e Polônia, trata a China como um rival estratégico e a Rússia como inimiga da ordem europeia. Em termos militares, apoia o retorno da conscrição obrigatória, maior investimento em defesa (2% do PIB), construção de um escudo antimísseis e continuação do apoio à Ucrânia.
Segurança e lei
A CDU adota uma estratégia de “tolerância zero” contra o crime, propondo endurecimento das leis penais e revogação da legalização parcial da cannabis (pequenas quantidades e clubes para fumantes) aprovada em 2024. Reafirma um compromisso com a repressão de atividades extremistas, incluindo a possibilidade de revogar cidadania e permissão de residência para apoiadores terrorismo. Na Alemanha existe um organismo federal (BfV) que monitora atividades políticas com apoio da inteligência interna (BND) e pode classificá-las de acordo com uma escala de ameaça à ordem constitucional, o que pode ter repercussões judiciais. Isso não impede, mas talvez até estimule, que o termo “extremismo” seja utilizado no discurso político e também seja tratado na mídia como tema básico da segurança pública.
O programa dos conservadores promete ainda “fechar mesquitas onde o ódio e o antissemitismo sejam pregados”.
Economia e meio ambiente
Na área econômica, a CDU propõe redução de impostos, reindustrialização e corte de 25% no imposto corporativo. Defende a revogação de regulações ambientais, como o banimento de motores a combustão e a Lei da Cadeia de Abastecimento, que exige que empresas garantam condições trabalhistas e ambientais adequadas em seus fornecedores estrangeiros. O partido também planeja reavaliar o uso da energia nuclear.
No setor agrícola, apoia a flexibilização das regras para uso de fertilizantes e a legalização do “abate controlado” de lobos em certas regiões.
A CDU propõe reformar o sistema de assistência social, eliminando o welfare no formato atual e substituindo-o por um modelo baseado em contrapartidas. No entanto, garante que não fará cortes na previdência e continuará apoiando o salário mínimo. Também incentiva sistemas previdenciários privados como alternativa ao modelo estatal.
O futuro da Alemanha… no leste da Europa?
Com a vitória da CDU, o novo governo deve buscar preservar a imagem de que é uma sólida representante dos valores liberais da União Europeia e vai continuará a se apresentar como portadora de uma ordem constitucional estável. No entanto, o país passa por um reposicionamento conservador que está além da aparência de estabilidade. A política migratória endurecida e o fortalecimento da política militar são dois eixos fundamentais. Por mais que a AfD esteja na vanguarda do discurso radical contra a imigração, o fato é que o partido conservador mainstream colocou a migração no centro de suas preocupações, defendendo uma identidade nacional mais homogênea, “mesquitas alemãs” e especulando com a retirada de cidadania alemã como punição por “apoio ao terrorismo”. Isso não significa que a CDU seja igual a AfD, mas configura um cenário político em que a diferença programática mais substancial entre os dois grupos reside no compromisso da atual liderança conservadora com a continuidade do esforço de guerra ucraniano.
Ainda que a CDU possa ter sucesso em capturar o eleitorado da AfD ao atender a algumas de suas demandas, o que eventualmente tornaria a AfD menos relevante e permitiria que o pêndulo do poder retornasse ao SPD, a tração de certas pautas pode fortalecer os radicais. Se uma parcela do eleitorado demanda ‘mais deportações’, quem oferecerá mais deportações, os conservadores ou a Alternativa? Da mesma forma, a AfD tem seu próprio projeto de militarização e tolerância zero, além de ser o partido com maior número de apoiadores que se declaram dispostos a “defender a Alemanha com armas em uma guerra”.
O resultado das eleições pode até trazer algumas respostas, mas também levanta questões cuja gravidade será sentida no futuro próximo: a Alemanha pode arregimentar os europeus sob sua liderança? O país será capaz de influenciar a política do governo dos Estados Unidos em outra direção? Quais serão as consequências de uma política divergente do governo dos EUA? E, ainda mais grave, se o novo governo alemão apostar na crença de que toda a ordem europeia está ameaçada nos campos de batalha da Ucrânia, quais serão as repercussões políticas de uma eventual derrota diplomática ou militar do governo ucraniano para a Alemanha?
O conservadorismo da República Federal Alemã retornou ao poder, o que não significa uma mera repetição dos governos de Adenauer, Kohl ou Merkel. A alternância entre Social-Democratas e Democrata-Cristãos continua, mas isso está longe de ser sinônimo de estabilidade nos meses que virão.






