Temos moral para dar lições à Venezuela?

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Sim, é verdade que as esperanças suscitadas pela experiência venezuelana há vinte anos atrás, bem como seu poder de referência para a esquerda mundial, murcharam. É difícil ser “naïve” frente à quantidade dos problemas graves, para pegar leve.

Não se trata de nenhuma grande novidade, mas a repetição de características estruturais de praticamente todo nacionalismo popular anti-imperialista – seria interessante comparar com a história do peronismo, do nasserismo no Egito, dos Baath sírio e iraquiano ou da Líbia de Kaddafi:

– dependência excessiva da figura do líder militar carismático, cujas qualidades dificilmente são reproduzidas pelos sucessores ou apaniguados (enquanto os defeitos, ao contrário, são mais facilmente emulados e hipertrofiados).
– O militarismo tomando conta do Estado, com todas as consequências previsíveis: autoritarismo, burocratismo, etc. Isso afetou bastante a esquerda venezuelana, cada vez mais refém do servilismo ao Estado ou então simplesmente perseguida e reprimida.
– A incapacidade de criar um modelo econômico alternativo e viável no longo prazo em relação ao liberalismo. Não que seja algo muito trivial — às vezes a esquerda considera que industrialização e complexificação produtiva só depende de atos de vontade.

Certo, houve conquistas econômicas e sociais até agora irreversíveis — a soberania em relação à principal e única riqueza do país, o sucesso da “misiones sociales” contra o analfabetismo e outras chagas sociais, a inédita independência em relação a Washignton, o avanço da organização popular e da consciência política de milhões de cidadãos antes desprezados e tratados como nada, etc.

No entanto, tudo isso é cada vez mais enquadrado em balizas cuja aparência feiosa suscita apreensões. Maduro abusa de “patriotadas” ridículas (como nessa querela contra a Guiana) e até da exploração da religião (muitos evangélicos bolsonaristas ficariam surpresos se soubessem da relação umbilical do Estado venezuelano com o neopentecostalismo…). Esses elementos já estavam em Chávez, mas se tornaram puramente caricaturais quando esvaziados de sua contra-parte meritória.

Dito isso, e reafirmando a necessidade de uma postura crítica e de um balanço sério, boa parte da esquerda brasileira não possui críticas honestas e precisas à Venezuela, mas apenas segue irrefletidamente, por oportunismo e “boa consciência” marqueteira (na era da auto-promoção, é cada vez mais rentável posar de bom moço), o consenso imperial – que se opõe violentamente a Venezuela pelos motivos errados. Onde estavam essas vozes contra o terrorismo anti-popular que Álvaro Uribe realizava na Colômbia ou contra, recentemente, a violência aberta e assassina contra a população indígena no Peru que se recusou a validar o golpe contra Castillo?

Ora, é totalmente hipócrita denunciar e lutar pela perseguição do bolsonarismo, incluindo restrições de liberdades (afinal de contas, é mentira que Xandão tenha uma concepção para lá de alargada de legalidade?), impedindo Bolsonaro de ser candidato (querendo ou não, é um líder popular muito mais querido e que mobiliza muito mais gente que qualquer “líder” da oposição venezuelana) e combater fake news através de pressões por regulação das redes sociais e coisas do gênero, enquanto sataniza-se a Venezuela por fazer a mesma coisa. Não me confundam, não defendo aqui a liberdade do bolsonarismo de ser normalizado, nem acho que Bolsonaro seja um “perseguido” (deveria estar preso), mas questiono: o que faz com que a extrema-direita deles seja melhor do que a nossa e mereça maior generosidade de nossa parte?

A verdade é que lá, pelo menos, há mais motivos para a repressão, afinal de contas a Venezuela não lidou apenas com bravatas de golpes mal orquestrados ou quebra-quebra desordenado de lúmpens desorientados, mas com coisas muito mais graves e sérias: golpe militar efetivo e tramado com Washington, sequestro de presidente, táticas de assassinato de civis e até mesmo bloqueio e rapinagem de suas reservas bancárias e de ouro (esses anglo-saxões parecem ser nostálgicos de sua época de pirataria…).

É até constrangedor ver lideranças da esquerda brasileira, que entraram em desespero com as ameaças bolsonaristas (e pediriam tranquilamente poderes especiais ao Xandão se a coisa ficasse mais grave… Na prática, já não o fazem?), darem lições à Venezuela, que convive com coisas muito mais sérias e violentas há muito mais tempo.

Ora, já esquecemos que Guaidó se declarou presidente e foi aceito por todo o Ocidente? Que os protestos inciados em 2014 tinham ambição explícita de criar caos e descontrole inclusive através de assassinatos de inocentes? Que a cabeça de Maduro esteve entregue sob promessa de recompensa milionária por uma proposta oficial do governo dos EUA, ao melhor estilo faroeste? Que Trump admitiu – pelo menos este idiota tem esse mérito da franqueza – que a intenção dos EUA era derrubar o governo pra ter controle sobre seu petróleo? Que um grupo de mercenários invadiu a Venezuela para matar Maduro (foram impedidos, numa história espetacular, por pescadores armados em defesa do bolivarianismo)? Esquecemos das sanções econômicas criminosas, enquanto Israel continua livre, leve e solto, com todo apoio econômico de que precisa, para cometer um massacre colonial e exterminar todo um povo?

Façamos o dever de casa mínimo e paremos de arrogantemente dar lições a quem já teve que enfrentar obstáculos muito maiores que nós. Isso não implica adesão a Maduro — uma tarefa cada vez mais difícil até para quem tinha grande admiração pela chamada revolução bolivariana –, mas um mínimo de semancol e coragem de desafiar a estupidez jornalística.