Algumas observações sobre a entrevista de Jessé Souza em O Globo

Algumas observacoes sobre a entrevista de Jesse Souza em O Globo
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Por Carlos Eduardo Martins

1) Discordo frontalmente que o objetivo da Teologia da Prosperidade seja enfrentar a injustiça social e fazê-lo através da valorização de virtudes morais do pobre como a de ser bom e honesto.

Penso que é exatamente o contrário.

A Teologia da Prosperidade abole a injustiça social como questão e não tem nenhuma pretensão de promover o pobre como bom e honesto. O que ela faz é o extremo oposto. Promove expectativas de ascensão exclusivamente individuais e a sua receita para realizá-las é socializar a violência praticada pelas classes dominantes entre os pobres. Sua mensagem é para acabar com a pretensão de ser bom, justo, honesto e solidário porque este é o caminho dos derrotados. Vençam não importa como e porque pois o paraíso é para poucos. A medida da bondade é a vitória e da maldade é o fracasso. Por dizer se identificar com os pobres e as maiorias, a esquerda não presta;

2) A entrevista usa a categoria de “pobre de direita” e isso merece problematização. Existe muito mais o pobre enganado pela direita, do que o pobre de direita. O problema é quando ele passa a ser enganado pela esquerda também. Ai a tese de que a solução para a pobreza é ser desonesto e violento ganha muita força e é exatamente o que o fascismo explora;

3) Está corretissima a proposição de Jessé de que uma retomada da esquerda no Brasil deve passar por um reencontro com a era Vargas. É contra a era Vargas que o neoliberalismo e o fascismo fazem a sua ofensiva. E é clarissimo que a social-democracia periférica de 3a via petista não é capaz e nem quer defendê-la. Merece muita atenção a formulação de Theotonio dos Santos, nos anos 1980, de que o socialismo no Brasil deve ser construído pela superação dialética do trabalhismo e não por sua negação (veja-se O Caminho brasileiro para o socialismo” do autor de 1985);

4) Embora critique o uso excessivo das pautas identitárias como estrategia eleitoral, Jessé acaba se inscrevendo dentro desse paradigma para analisar as escolhas de voto dos eleitores, o que é falho. O Rio de Janeiro é um estado de maioria negra e nem por isso os eleitores deixaram de se identificar com o bolsonarismo e lhe dar consistente vitória;

5) Finalmente,vale apontar que o identitarismo não pode estar descolado do universalismo como estratégia eleitoral e a tentativa de fazê-lo é um artificio da direita liberal que conduz a um imenso fracasso das pautas progressistas e das esquerdas. Segundo o Datafolha, mais de 80% dos negros eleitos nas eleições municipais são de direita.

Por Carlos Eduardo Martins (UFRJ)