A condição humana e ‘A Igreja do Diabo’ de Machado de Assis

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Por Cristina Nunes de Sant´Anna – A Igreja do Diabo é um conto de Machado de Assis (1839-1908), publicado em Histórias sem data, em 1884. O escritor exibe, sem piedade, a espécie humana inebriada pelo diabo, que teve uma ideia mirífica de total sucesso. Machado vai revelando o quanto se pode ser maleável, flexível, dobrável. Numa palavra: venal. Dito isto, digamos ainda que a literatura, quando preciso, piedade também não tem: mira e vai na jugular dos leitores. Mas também sabe ser solidária e amorosa. Literatura, enfim, pode tudo e faz muito para e por todo mundo. Antonio Candido escreveu que literatura é direito. Lima Barreto, que aplaca a dor dos humildes. Bom, a obra machadiana aqui tratada está disponível na íntegra no Domínio Público. Vamos falar, então, dos planos do diabo para a sua igreja.

O diabo andava lá meio macambúzio, quando teve uma ideia que considerou genial e brilhante. Porque diabo tem uma auto estima infernal, sempre quer causar e deixar algo de assombroso e diabólico para a eternidade. No caso, tratava-se de criar uma igreja. A igreja do diabo. Seria uma igreja só dele. Que fosse bem do jeitão dele. Um templo para chamar de seu. Um empreendedorismo de ponta.

Decidido, abriu as asas rubras e se mandou pro céu. Foi comunicar a sua boa nova ao Todo Poderoso. Comunicar, vírgula. Também queria deixar o Todo Poderoso irritado com a ideia dele, diabo. Mas Deus conhecia bem a peça e não caiu na armadilha.

Durante o encontro celestial, o diabo explicou que estava entediado de ter uma vida sem organização, disse querer lealdade total dos súditos. Nada de mandamentos, virtudes, amor ao próximo. Tinha planos e ambições de outra monta. Queria mesmo era erigir uma espécie de hospedaria barata, com ares de templo retrô (por assim dizer), para receber seus futuros devotos. Terminou por esnobar seu interlocutor, ao afirmar que sua doutrina seria um sucesso absoluto. Ao passo que a casa de Deus ficaria às moscas logo, logo, já que o preço a ser pago para entrar era uma exorbitância.

Deus não proibiu. Tampouco legitimou a ideia e o diabo seguiu, célere e otimista, para pôr em prática seu projeto arquitetônico e espiritual de conquistar seu rebanho. Uma vez na terra, levava lá e cá, incansável, sua nova doutrina: promessas a seus futuros discípulos de todas as glórias, delícias e deleites possíveis e impossíveis. Não demorou muito para angariar devotos aos borbotões. Crentes nele e em suas pregações. Soberba, luxúria, avareza, cinismo eram tábuas da lei em vigor. Tudo era permitido, em nome do diabo. Todos eram gentes de bem. Em suas homilias, o diabo dizia a seus inúmeros fiéis, por exemplo, que a venalidade era superior a todos os direitos. Suas palavras provocavam enlevo, encanto e êxtase entre os fiéis da igreja diabólica. Conheçamos um trecho das palavras proferidas pelo pastor diabo no conto machadiano:

“Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? Não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? E o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem?”, pregava ele, com galhardia.

Aquele diabo pastor cada vez mais adorado por seus seguidores “não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente”.

Amor ao próximo, dizia ele às suas ovelhas, “era pura perda de tempo”. A nova doutrina diabólica pregava ódio, indiferença, desprezo ao próximo. “Que leve a breca próximo”, bradava o diabo pastor, com fervor mítico. E a igreja nova triunfou mundo afora, com seus fiéis cada vez mais crentes àquela religião que era coisa do diabo. Por sua vez, o diabo, triunfante, considerava-se até mesmo consagrado, sem medo de estar infringindo qualquer pecado aos olhos de Deus.

Foi num dia como outro qualquer, depois de passado muito tempo, que o belzebu começou a perceber que um fiel aqui, outro ali, xingava o próximo pela frente com louvor, mas pelas costas, às escondidas, à sorrelfa, dava esmolas, e até ajudava este próximo. E estas gentes foram aumentando.

Como assim? Se o diabo queria mais que seus devotos metessem o pé na frente do próximo para que se arrebentasse no chão? O diabo, então, desfigurado pela cólera, apoplético, voou ao encontro de Deus para tomar satisfações. Será que havia o dedo Dele nisso? A resposta certeira do Todo Poderoso ao diabo explica muito.

Por Cristina Nunes de Sant´Anna. Jornalista, moderadora do JornalistasRJ. Escreve para os portais Vida e Ação, Cultura em Movimento e toca o blog/fanpage Literatura É Bom Pra Vista. Doutora em Ciências Sociais pela UERJ, tem pós-doutorado em Comunicação e Cultura também pela UERJ onde é pesquisadora associada do Laboratório de Comunicação, Cidade e Consumo (LACON) do Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Comunicação Social. Pesquisadora associada da Universidade Estadual da Zona Oeste.