Por Vitor Imafuku
O Banco Central do Brasil erra ao elevar a taxa SELIC para 15% ao ano, uma decisão de conservadorismo extremo que cobra um preço alto do país. A nova taxa básica de juros consolida o Brasil como a segunda maior taxa de juros real do mundo, atrás apenas da sempre instável Turquia. Isso ocorre mesmo com a inflação dando sinais claros de alívio: em maio de 2025, o IPCA desacelerou para 0,26% no mês, acumulando 5,32% em 12 meses, graças à queda nos preços de alimentos como tomate, arroz, ovos e frutas. Ou seja, o BC aumenta juros num cenário em que a alta de preços está se moderando e o custo de vida começa a se estabilizar, especialmente nos itens essenciais. Trata-se de uma dose de remédio excessiva e fora de hora.
A justificativa para tamanha alta é frágil. A inflação encontra-se relativamente sob controle: além do IPCA de maio ter ficado abaixo do esperado, houve forte desaceleração no grupo de alimentação, que passou de 0,82% em abril para apenas 0,17% em maio — a menor variação desde agosto de 2024. Mesmo itens voláteis como combustíveis e passagens aéreas apresentaram queda. Esses dados sugerem que a inflação caminha para próximo do limite superior da banda. Não há pressão inflacionária que justifique juros reais tão elevados — hoje, em torno de 9,5% ao ano, um nível incomum entre economias estáveis. Ainda assim, o BC opta por manter uma postura mais dura do que boa parte do mercado esperava.
Trata-se de um conservadorismo radical, que sinaliza desconfiança mesmo diante de dados positivos, sob o argumento de que as expectativas futuras ainda não convergiram.
Do ponto de vista fiscal, a política de elevação dos juros tampouco se sustenta. O Brasil cumpriu a meta fiscal de 2024, encerrando o ano com déficit primário praticamente nulo (R$ 11 bilhões, apenas 0,09% do PIB) — o segundo melhor resultado em dez anos e bem acima das previsões iniciais. Para 2025, apesar das dificuldades, as projeções indicam que o objetivo é alcançável. A Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado considera plausível o cumprimento da meta de déficit zero, mesmo sem repetir a arrecadação extraordinária de 2024, desde que sejam feitos os ajustes necessários. Não há, portanto, descontrole fiscal que justifique “puxar o freio” monetário ainda mais.
Pelo contrário: o aperto nos juros agrava a situação fiscal. Juros altos elevam a despesa com serviço da dívida, anulando parte do esforço de ajuste. A política monetária excessivamente restritiva contribuiu para piorar as expectativas sobre a dívida pública e contribuiu para uma especulativa desvalorização cambial, o que terminou por elevar projeções de inflação futura — um efeito perverso. O BC incorre num paradoxo: alega buscar estabilidade, mas ignora que juros extraordinariamente altos estão se tornando parte do problema, não da solução.
Os efeitos na economia real já se fazem sentir. Entidades da indústria, do comércio e dos trabalhadores criticaram duramente a elevação da Selic para 15%, classificando-a como “injustificável” e “irracional”. Até mesmo a conservadora Confederação Nacional da Indústria (CNI) observou que não se via um patamar tão alto desde 2006 e alertou que a taxa já sufoca os setores produtivos. Juros nesse nível encarecem o crédito, desestimulam o consumo e travam investimentos em novos postos de trabalho, inovação e expansão dos negócios.
A cada nova alta, adia-se uma recuperação mais robusta do setor produtivo, impõe-se um custo cada vez maior ao empreendedor que deseja investir e condena o trabalhador ao subemprego ou a informalidade. O Banco Central, porém, parece fechar os olhos para esse custo social e produtivo.
Essa política monetária se apoia em uma visão ultrapassada, segundo a qual apenas a ortodoxia extrema confere credibilidade. Ignora-se que o próprio câmbio tem ajudado: o real se valorizou cerca de 10% em 2025, aliviando pressões inflacionárias. Em um contexto de inflação de oferta, outras ferramentas poderiam ser usadas para conter pressões pontuais sem elevar os juros. Mas o Copom prefere o caminho fácil — e doloroso — de sempre: subir a Selic na canetada.
Essa postura revela uma dupla moral. Representantes do mercado insistem que “não se pode baixar juros na canetada”, para não comprometer a confiança. No entanto, elevar juros da mesma forma parece perfeitamente aceitável quando se trata de agradar o sistema financeiro. Quando um governo eleito sugere redução da Selic, é tachado de irresponsável; mas quando tecnocratas — frequentemente oriundos do próprio mercado — aumentam agressivamente a taxa, são celebrados como guardiões da estabilidade.
Esse viés traduz um preconceito: apenas a elite financeira seria confiável para conduzir a política monetária, enquanto representantes da sociedade precisam ser tutelados. Trata-se de um discurso perigoso, que marginaliza o debate democrático. A taxa de juros não pode ser tabu, decidida por poucos e imune a críticas, sobretudo quando afeta profundamente toda a economia. O Banco Central autônomo deveria promover estabilidade; mas até agora, como foi antecipado, tem promovido a ditadura dos rentistas. Manter a Selic em 15% com a inflação cadente e o fiscal sob controle é uma escolha política, de viés reacionário, não um imperativo técnico.
Os pais da independência do Banco Central e que fazem coro com a preocupação do COPOM com a “expansão fiscal” e as dificuldades do governo em controlar os gastos são os próprios parlamentares, os mesmos que sabotam os mecanismos de ajuste.
O Congresso Nacional que exige cortes de despesas do Executivo é o que aprova medidas que ampliam gastos e pressionam a inflação. Um exemplo recente é a derrubada do veto presidencial que obriga a contratação de usinas de energia mesmo sem demanda. A medida foi embutida em um projeto sobre eólicas offshore e trará custo adicional estimado em R$ 197 bilhões até 2050. Quem paga? O consumidor, na conta de luz.
A decisão eleva tarifas, gera mais inflação, reduz competitividade e prejudica o emprego industrial. O Congresso, porém, ignorou os alertas técnicos e seguiu adiante. O Congresso finge não considerar o impacto dessas medidas inflacionárias aprovadas, que contribui para penalizar a sociedade como um todo, criando justificativas para a autoridade monetária aplicar juros mais altos.
Para completar o paradoxo, o Congresso aumentou o Fundo Partidário para 2025 em R$ 168 milhões, elevando-o para R$ 1,368 bilhão, ao derrubar veto do Executivo. Além disso, rejeitou qualquer proposta de limitar ou bloquear as emendas parlamentares. Resultado: estão previstos R$ 59,5 bilhões em emendas individuais e de relator no Orçamento — muitas vezes com baixa transparência e finalidade nada estratégica para os interesses nacionais.
Enquanto isso, o discurso público é de austeridade. Cortes são exigidos sobre serviços públicos, programas sociais e investimentos estruturantes, ao mesmo tempo em que os gastos mais questionáveis permanecem intocados. É uma hipocrisia fiscal. O Banco Central deveria ponderar esses fatores antes de punir a economia real sob a justificativa de um suposto descontrole fiscal.
O desajuste é mais político do que técnico. E não se resolve com a conta recaindo, mais uma vez, sobre quem produz, consome e trabalha.
Outro ponto ausente da equação — e que deveria estar no centro do debate — é a estrutura tributária brasileira. A classe média assalariada segue arcando com uma carga desproporcionalmente pesada, enquanto os muito ricos desfrutam de generosas isenções e brechas legais.
O caso mais simbólico talvez seja o Repetro, regime especial que concede isenção fiscal a grandes petroleiras, a maioria estrangeiras. Criado em 2009, foi estendido no governo Temer até 2040. De 2017 a 2023, as renúncias fiscais somaram cerca de R$ 260 bilhões. Uma “bolsa petróleo” financiada pela sociedade, com mínimos retornos sociais. Não houve redução de preços de combustíveis, nem aumento de investimento proporcional ao privilégio concedido.
Enquanto isso, a tabela do Imposto de Renda Pessoa Física permanece com defasagem superior a 160%. Mesmo com ajustes recentes, quem ganha pouco mais de R$ 3 mil por mês já paga IR, enquanto lucros e dividendos seguem isentos. A classe média paga na fonte, no consumo, no cotidiano. Os super-ricos, quando tributados, o são de forma simbólica ou contornável.
Essa distorção alimenta revolta. E é justamente nela que a extrema-direita pesca sua narrativa: culpa o Estado por cobrar demais, mas silencia diante dos que menos contribuem. Falam contra tributação de heranças, jatinhos, fortunas. Combatem qualquer proposta de progressividade. O discurso da “carga insustentável” é seletivo.
Corrigir essas distorções não é apenas uma questão de justiça social. É também de inteligência econômica. Tributar de forma progressiva aliviaria o consumo da maioria, ampliaria a arrecadação e permitiria um ajuste fiscal mais justo e eficaz.
Mas esse debate segue travado por interesses poderosos. E o Banco Central, ao ignorar esse contexto, opta por uma solução fácil para os de cima e dolorosa para os de baixo: subir juros, cortar serviços, punir a produção e premiar a renda ociosa.
O modelo atual de juros elevados impõe um custo perverso ao Brasil: o desvio contínuo de recursos públicos para o pagamento da dívida, em vez de investimentos no futuro. Com a Selic real em torno de 9% e a nominal em 15%, o país compromete centenas de bilhões apenas para remunerar detentores de títulos públicos. Essa engrenagem consome recursos que deveriam financiar escolas, universidades, hospitais, infraestrutura e ciência.
É um modelo de desenvolvimento às avessas: endivida-se o Estado para alimentar o rentismo, não para transformar a realidade social e econômica. Enquanto isso, setores fundamentais à soberania nacional seguem subfinanciados, e a promessa de crescimento sustentável vai sendo adiada indefinidamente.
Não há país desenvolvido que tenha trilhado esse caminho. As nações que hoje ditam as regras do jogo global — como EUA, Reino Unido, França e Alemanha — construíram suas infraestruturas com dívida pública, emissão monetária e, em muitos casos, com base na exploração colonial, guerras e pilhagem de riquezas. O Brasil, por outro lado, segue tentando equilibrar suas contas com cortes e superávits, mesmo tendo mazelas do século XIX para resolver.
É hora de romper esse ciclo vicioso. Juros altos não são sinal de responsabilidade: são o reflexo de um pacto injusto, que transfere renda do povo para uma elite pouco interessada com os anseios da população. Cada ponto percentual da Selic representa bilhões a mais em juros pagos — e bilhões a menos em saúde, educação e infraestrutura. A armadilha está montada: o fiscal corre atrás do monetário, e o país corre atrás do prejuízo.
O Brasil precisa rediscutir o papel da dívida pública. Ela não pode ser tratada como tabu ou apenas como despesa contábil. Deve ser instrumento de investimento, de transformação, de reconstrução nacional. É urgente devolver à dívida sua função social. E isso exige também rever a política monetária, democratizar o Banco Central e colocar o desenvolvimento no centro da estratégia econômica. É necessário a discussão de um robusto arcabouço para a divida pública, ou seja, um teto para os gatos com o serviço financeiro.
A elevação da Selic para 15% em 2025 é um alerta. Ela simboliza não apenas uma opção técnica, mas uma escolha política: manter o país de joelhos diante do rentismo. Para avançar, será preciso coragem para dizer o óbvio: desenvolvimento não se faz com juros estratosféricos. Faz-se com projeto nacional, com justiça fiscal, com investimento público — e com um Estado que confie mais no seu povo do que no mercado.
Este é um texto de opinião, de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião do Disparada.
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