Anchieta: Como um Padre Católico conseguiu ser tão amado pelos índios

Anchieta Como um Padre Catolico conseguiu ser tao amado pelos indios
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Por Newton Cannito – Foi dia 19 de março que nasceu o Padre Anchieta. É dia de São José, esposo de Maria e padrasto de Jesus, padroeiro dos pais de família e dos trabalhadores. Em sua homenagem, Anchieta chama José de Anchieta. Há dois anos, o Papa Francisco canonizou São José de Anchieta.

Nos últimos meses tive a oportunidade de ler tudo que encontrei sobre Anchieta e posso dizer: virei fã.

Sei que nos dias de hoje o legado dos jesuítas é muito questionado. Como sabemos, vivemos num momento onde a “intelectualidade” é preponderantemente ateia , espírita ou xamânica. Anchieta era cristão e soldado leal da Igreja Católica.

O objetivo deste texto, no entanto, não é discutir religião. Farei isso só no final do texto, mas até lá você já poderá ter desistido. Antes de falar de religião e de ideologias, eu gostaria de analisar Anchieta como ser humano.

Posso lhe garantir que você, mesmo se for anticatólico, vai admirar Anchieta. Posso lhe afirmar que você – mesmo se não se converter e virar devoto – será, ao menos, fã do homem que foi Anchieta . Mostrarei que Anchieta defendeu sua fé, mas sempre com integridade e respeito pela diferença. Se todos seguirmos esse exemplo, o mundo será melhor. Por isso, independente da fé na crença católica, vale muito a pena conhecer o homem que foi Anchieta.

Anchieta veio ao Brasil aos 19 anos e já estava doente. Alguns falam de corcunda e outros de tuberculose óssea. Possível que seja ambos. A Cia de Jesus, instituição jesuíta, era recém-fundada e reunia os jovens católicos que, tal como os primeiros apóstolos de Jesus, queriam pregar a palavra de Deus pelo mundo. Para Anchieta, isso significa largar uma vida de elite e virar religioso em algum canto remoto e “selvagem” do planeta. Era como você largar a Usp para entrar no médico sem fronteiras, sem passagem de volta. Só de ida. Você, aos 15 anos, escolhe ser médico sem fronteiras por toda sua vida, defendendo seus valores e ajudando pessoas em algum canto do mundo que seu superior lhe enviar. Essa decisão , admito, me impressiona. É um ato heroico para os dias de hoje, onde cultuamos uma dúvida e uma crise existencial. Mas, mais comum na época.

Logo que chegou ao Brasil, Anchieta brilhou. Primeiro , ele curou da doença e passou a andar pelo país inteiro. Sempre a pé, pois sua coluna doía se andasse a cavalo. “Desde que me senti curado, nunca mais fui doente “, disse ele (texto de memória).

Além de curar da doença, ele brilhou em seus feitos. Basta você imaginar que ele, em dois anos de Brasil, já fundou sua primeira cidade. E que cidade. Logo no início de sua carreira, o jovem José de Anchieta fundou São Paulo. Temos que admitir: fundar São Paulo com 21 anos é algo bastante impressionante. Está certo que ninguém sabia que aquele colegiozinho na Praça da Sé (então chamado apenas de Pátio do Colégio) viraria a maior metrópole da América Latina. O próprio Padre Manoel da Nóbrega, seu superior e co-fundador da cidade, pensava que aquele povoado seria só um posto para chegar ao Paraguay. Na época, o Paraguay não tinha apenas muamba, era cheio de perspectivas de ouro e almas para evangelizar.

Mas Anchieta, ao contrário do Nobrega, anteviu e investiu toda sua energia para criar aquele povoado. Não era tarefa fácil, pois o povoado vivia sobre a ameaça de ataques indígenas. Muitos mamelucos também não gostavam do projeto jesuíta, consideravam que queriam criar uma teocracia. Na época que São Paulo surgiu, o único povoado por aquelas bandas era o de Santo André da Borda do Campo, terra de João Ramalho, cunhado do Cacique Tibiriçá, um português que estava no Brasil desde os primórdios e tinha virado uma liderança fundamental. 6 anos depois de São Paulo ser fundada, o governador Mem de Sá ordenou que todos os moradores de Santo Andre mudassem para São Paulo, fortalecendo ainda mais a cidade que Anchieta fundou. Poucos anos depois de fundar São Paulo, Anchieta fundaria também o Rio de Janeiro, depois de uma guerra bastante violenta, liderada por Estácio de Sá. Antes disso, Anchieta foi fundamental em outra ação: participou como missionário de paz em meio a uma guerra entre tribos aliadas dos franceses e tribos aliadas dos portugueses. Ou seja, se fosse nos dias de hoje, o jesuíta corcunda Jose de Anchieta podia ser personagem de um impressionante filme de ação.

E nesse filme de herói o ponto de virada seria, sem dúvida, o período que ele ficou refém em Ubatuba.

Acho que vale explicar um pouco o contexto para entender a dificuldade do feito de Anchieta. Na época havia uma guerra entre paulistas e cariocas. Qualquer semelhança com o momento presente é mera coincidência. Em São Paulo, os índios já estavam mais pacificados, mais civilizados, mais católicos, mais cristãos, seja o termo que quisermos usar (sempre evitando, ao menos por enquanto, julgar se é melhor ou pior ser “mais cristão”. Peço que tentemos ainda evitar julgamento de valores, pois estamos focados nos feitos de Anchieta como ser humano e líder). Já no Rio de Janeiro, os índios eram aliados dos franceses e eram bem mais “selvagens”, “doidões”, “festeiros”, antropófogos, nômades, livres, carnavalescos, sei lá, o termo que você quiser.

Hoje continuamos com as diferenças entre paulistas e cariocas. Mas acertamos no estádio no jogo do Corinthians e Flamengo. Mas, na época, o futebol ainda não passava na TV. Na verdade, nem tinha TV. E nem futebol, invenção inglesa que só colaria no Brasil 400 anos depois. Então a turma saía para umas batalhas mais físicas mesmo: guerra. Eram mortos para cá e para lá. E para comemorar as vitórias, nada melhor que um churrasquinho de carne humana: os índios eram canibais! Ou seja, um mundo um pouco mais quente que o atual.

Anchieta foi fundamental na vitória da turma católica portuguesa (que era uns tio paulista mesmo, empreendedores/bandeirantes), contra a turma francesa que se dizia protestante, mas era tipo uns doidão da milícia carioca atual. Traduzindo para os dias de hoje era mais ou menos esse o conflito.

Anchieta foi o principal embaixador da turma portuguesa/cabocla de São Paulo. Ele se entregou como refém numa tribo de Ubatuba para lá negociar a paz. Lá foi ameaçado de morte diariamente por 6 meses. Imagina um padre católico se internando numa comunidade de motoqueiros anarquistas Harley Davidson. Com a diferença que os anarquistas da época eram mais violentos canibais. Os caras queriam assar ele na brasa. As índias mais velhas eram as mais famintas. Adoravam um bacanal com carne humana. Era essa onda mesmo!

Além disso, tinha mais uma coisa: as tentações da carne. O jovem Anchieta, jovem irmão (ainda nem era padre) e com voto de castidade eterna, era testado o dia inteiro pelas gatinhas do local. Lá naquela turma moderninha de índios quase cariocas de Ubatuba era considerado falta de educação você não degustar das meninas caiçaras da aldeia. Os pais das moças faziam questão: “po, caraíba, pega minha filha aí!!”, era algo que ele devia ouvir o tempo todo dos pais de família indígenas. Sinceramente, não sei se a aldeia era machista, pois o termo não se aplicaria a outra cultura. Mas era… Bem… digamos, exótico. Elas também pareciam curtir e todas se ofereciam para o moço o dia todo, tentação permanente. Segundo relatos havia muitas índias lindas. E, ao contrário das roupas super pudicas de Portugal, elas viviam numa praia de nudismo permanente. E o Jesuíta de 20 e poucos anos aguentando tudo. Para isso, rezava toda noite por horas a fio. Anchieta era um herói de filme de ação, mas era muito devoto. Os índios observavam essa impressionante devoção, pensando que aquele moleque branquelo devia ser maluco. Quando não pensavam que era melhor comer ele logo, pois estava emagrecendo.

Mas o fato é que, depois de 6 meses prisioneiro dessa aldeia em Ubatuba, ele evangelizou boa parte da tribo, foi libertado e conseguiu a paz. Como esse moleque conseguiu isso?

Bem, primeiro é importante dizer: Anchieta não era um carola fanático, do tipo que sofre por medo a Deus. Anchieta conseguia ser feliz. Mostrarei isso mais a frente, pelas cenas da aldeia. Mas o fato é que ele era feliz. É difícil entender como um homem ameaçado de morte diariamente e sozinho num país exótico consegue ser feliz. É difícil. Ainda mais pensando que era católico, cristão, cheio de culpa, que rezava a noite toda.

Mas é aí que ele era feliz.

O fato é que Anchieta era feliz como jesuíta, por estar na Companhia de Jesus.

Ele não rezava por medo. Ele não era um chato culpado que tinha deixado de curtir a vida. Ele rezava com o prazer de uma meditação transcendental, ele atingia transes místicos dos melhores rituais nova era. Ele não era um bobo se sacrificando por uma Igreja católica corrupta. Ele era um homem em companhia de Jesus apostando em ser um verdadeiro cristão e mostrando que essa é a verdadeira felicidade.

Antes de explicar mais sobre Anchieta vale lembrar o contexto. O fato é que a Igreja Católica na época era mesmo corrupta. Isso resultou em Lutero e na Reforma Protestante. E os Jesuítas eram os católicos da contra reforma, que se opunham aos protestantes . Os Jesuítas eram leais ao Papa e pregavam o evangelho pelo mundo com a disciplina de uma organização militar. Como disse Paulo Prado, tinha a ver com eles serem uma Companhia. Era uma Companhia militar e eles estavam sempre em Companhia de quem eles queriam evangelizar. Eles não ficavam no púlpito, eles desciam ao chão, eles tinham a coragem de se misturar sem perder seus valores.

Os jesuítas se orgulhavam de estar no mundo. De pregar em lugares perigosos. Perigos físicos e perigos espirituais. Tentações. Eles se orgulhavam de resistir às tentações. E curtiam isso. Se imaginavam como heróis. E eram realmente heróis. O livro “Liderança Heroica” mostra os princípios de liderança dos jesuítas. Mostra como o Inácio de Loyola, o fundador da Cia, era mais que um líder: ele era um mega coaching formador de líderes. A Cia de Jesus formava líderes com autoconsciência, amor e uma imensa vontade de fazer grandes feitos, de serem heróis. Foi assim que, em poucos anos, revolucionou o mundo, enviando jesuítas da China ao Brasil.

A vontade de ser herói era comum a todos. Mas Anchieta, no Brasil, descobriu um novo tipo de herói. A história dos jesuítas é cheia de mártires que, tal como os primeiros cristãos, eram mortos por povos “bárbaros” na tentativa de irradiar o evangelho.

Era esse o modelo narrativo que colava na época, o tipo de filme que mais bombava nas “bilheterias” da turma jovem que sonhava em ser jesuíta: era o filme do herói mártir, que morre pela causa.

Anchieta e seus amigos foram, com certeza, muito influenciados por isso. Imagine Anchieta viajando doente ao Brasil. É quase certo que ele imaginava que seria um mártir, que morreria jovem pelo evangelho. Em suas cartas vemos como ele foi percebendo que outro destino o aguardava: o destino de evangelizar pelo amor, pela humildade e pela alegria. Primeiro santo do Novo Mundo, Anchieta não foi santo por sofrer, como quase todos os santos. Anchieta se tornou santo sendo feliz. Era esse o destino que Deus lhe reservara. Um destino totalmente inovador que ele, apenas por ter muita fé, muita humildade e entrega, conseguiu captar.

O fato é que só assim daria certo. Os índios brasileiros não seriam evangelizados pelo sofrimento. Eles não tinham sua cultura baseada na ideia cristã tradicional do sofrimento para redimir os pecados.

Isso é uma narrativa cristã. Verdadeira e fundamental. E é a forma ocidental de equacionar o fato de que o ser humano sofre. Mas essa não é a única narrativa cristã. E não é a narrativa cristã que funcionaria para os índios brasileiros.

O fato é que os índios foram evangelizados. Alguns acham que foi tudo à força, mas isso é apenas transposição da ideologia marxista da luta de classes para contextos históricos com outros valores. O fato é que se hoje somos um imenso país cristão é porque o cristianismo funcionou para o povo brasileiro. O mesmo povo que surgia na época, o povo mestiço. O povo caboclo. O fato é que os índios brasileiros seriam evangelizados pela Igreja Católica e, já mestiços com europeus, surgiria a cultura caipira, caiçara e cabocla, algumas das principais matrizes do povo brasileiro. Se isso aconteceu, se o cristianismo realmente irradiou, vale pensar porque.

Minha hipótese é que eles não seriam evangelizados pela narrativa cristã tradicional do sofrimento e redenção dos pecados. A conexão deles com o cristianismo foi em outros aspectos. Foi no universalismo de “todos são nossos irmãos” em oposição às permanentes guerras tribais, no aconchego e consolação da Grande mãe, da Virgem Maria, em oposição a violência da cultura guerreira e patriarcal.

Anchieta representa isso: um exemplo de como ser cristão naquela época. Isso é muito comum. O mundo muda e novos paradigmas e desafios aparecem. Os principais santos são aqueles que renovam o cristianismo, nem se for renovar voltando às raízes, renascer para ser mais ele mesmo. São Francisco foi assim. E muitos outros. Anchieta também. Ele, ao viver no Brasil, descobriu uma nova forma de ser cristão, a forma que, acredito, é o cristianismo do futuro que irradiará cada vez mais!

Dentro dessa narrativa, o ponto de virada é o período em que ele virou refém em Ubatuba. Naquele momento, todos achavam que ele seria martirizado. Terminaria morto e canibalizado, como o Bispo Sardinha, ou como algum mártir de esquerda progressista dos dias de hoje. Outros achavam que ele cederia às tentações da carne e casaria com as índias, virando um João Ramalho, protótipo do português que virou índio (Ramalho é outro personagem da época, uma espécie de patriarca de Santo André da Borda do Campo, hoje São Bernardo do Campo, curiosamente terra onde Lula também criou sua base).

Mas Anchieta não nasceu para ser mártir. Ele conseguiu evangelizar os índios de Ubatuba de outra forma. Em seis meses na aldeia, ele ganhou a confiança dos índios e evangelizou muitos. Ao final, conquistou a paz. Os índios de Ubatuba não se aliaram aos índios cariocas, revertendo a balança da guerra entre paulistas/portugueses e cariocas/franceses. Foi assim que Portugal ganhou a guerra e o Brasil começou a formar sua identidade. Foi assim que o Brasil nasceu. Sua estadia como refém em Ubatuba foi decisiva para o Brasil ser o Brasil. Depois daquela conquista em Ubatuba os paulistas se fortaleceram e, nos anos seguintes, conquistaram o Rio de Janeiro, expulsando os protestantes franceses (aquela turma que era tipo da milícia, lembra?).

A pergunta chave é: como Anchieta conseguiu conquistar os índios?

A resposta a essa pergunta é a chave.

Levantarei algumas hipóteses. Neste trabalho, passarei por outros momentos da biografia de José de Anchieta , que ilustram a mesma tese.

Primeiro, Anchieta escutava os índios nas confissões. No entanto, vários relatos mostram como os índios ainda não entendiam exatamente o conceito de confissão. Mas Anchieta escutava. E orientava. E passava exercícios . Ops, penitências. Mas como quem passa algo bom. Como quem passa alguma lição de casa. Ou uma boa meditação. Pois Anchieta escutava com amor.

Uma das maiores provas que ele escutava aos índios foi seu imenso esforço para fazer a primeira gramática Tupi. Em pouco mais de seis meses, ele aprendeu a língua dos índios. Em 2 anos, ele já tinha organizado uma gramática para ensinar outros jesuítas a língua indígena. Imagine isso.

Segundo, Anchieta pregava com amor por seu público. Ou seja, ele tentava realmente se comunicar com eles.

E se comunicar com amor. Foi assim que ele começou a usar o teatro para pregações e a criar peças especialmente orientadas para uma determinada etnia, dialogando com o imaginário e a cultura local.

Seu teatro usava fartamente de imagens e personagens do imaginário indígena. Ou seja, mesmo mantendo a ideologia católica, ele sabia antropofagizar a cultura indígena. Ele estava sempre apto a criar obras artísticas que dialogassem.

Pois estava realmente preocupado em divulgar a Palavra. E sabia escolher o que era essencial e o que podia ser transformado para que a comunicação ocorra bem.

Terceiro, Anchieta, como um bom líder, sempre dava o exemplo.

Ele sempre foi um homem humilde e prestativo que, mesmo atarefado, fazia questão de ajudar concretamente as pessoas. Há inúmeros relatos dele prestando serviços com humildade. No navio que o trouxe ao Brasil, ele cuidou da cozinha. Há relatos dele fazendo sapatilhas para andar na mata. Muitos relatos dele como médico, curando muitas pessoas. Além de escutar os índios, Anchieta aprendeu muito com eles sobre ervas. Era um botânico. E como Anchieta circulava por todo o país atuando como curandeiro, ele ajudou no intercâmbio entre sabedorias indígenas, trazendo conhecimentos da Bahia para São Paulo e vice -versa, por exemplo. E sempre que era preciso ele estava na linha de frente, atuando como médico e enfermeiro.

Quarta, Anchieta era um bom padre da Igreja Católica, um homem com muita fé nos sacramentos da Igreja.

É muito bonito como Anchieta narra seu primeiro naufrágio, logo que está chegando ao Brasil. Foi ali que ele percebeu que seu destino não seria ser mártir. O navio quase afunda, e fica sem rumo no meio da tempestade. Mas eles escapam e chegam de manhã a uma praia. Estavam muito assustados. A região era famosa por ter índios violentos e eles poderiam ser todos mortos. Os índios, no entanto, o recebem bem e, ao chegar à aldeia, ele é procurado pelos pais de uma criança à beira da morte. Ele não pode salvá-la, mas pede autorização para batizá-la para que ela possa entrar no paraíso. Os pais aceitam. Anchieta então batiza e dá extrema unção numa criancinha antes de morrer. Em seu relato, aquilo tudo fez sentido. O naufrágio e a noite de medo foram necessários para ele chegar àquela aldeia e salvar aquela alma. Anchieta não viera ao Brasil para ser mártir e morrer. Ele viera para evangelizar e ter sucesso na pacificação e invenção do Brasil. Mesmo após um naufrágio, Anchieta jamais cederia ao pessimismo. Onde estiver ele irá salvar almas.

Além disso, como bom padre católico, ele realmente é convicto de seus valores. Ele sabia intuitivamente onde podia negociar e onde tinha que firmar sua posição.

Ele era criticado por permitir que índios entrassem na Igreja Nus. Isso ele permitia. Por outro lado, quando tinha que firmar posição, ele firmava.

Mesmo se ele mesmo correr risco de vida. Anchieta tem coragem para defender sua fé.

Um dia, quando ele estava refém em Ubatuba ,os índios enterraram uma criança viva. Era um hábito comum na aldeia: matar recém nascidos enterrando-os vivos. Anchieta está de refém na aldeia, preso em sua Oca, e acaba de ser ameaçado de morte. Mas, ao saber que um bebê foi enterrado vivo, Anchieta não hesita. Ele sai da Oca agitado, interroga todos na aldeia, até descobrir onde a criança foi enterrada. Sozinho e em desespero ele cava para salvar a criança. Todos na aldeia ficam impressionados com aquela loucura. Por que tudo isso por um recém-nascido? Nesse dia, Anchieta correu riscos de vida. Ele já estava ameaçado de morte e desrespeita um costume local, desafiando os guerreiros da aldeia. Aquele menino frágil, de pouco mais de 20 anos, encarou todos os guerreiros da aldeia para salvar um recém-nascido. Ele segue sua fé, que jamais permitiria um assassinato como esse. A discussão rolou solta. Alguns índios ficam furiosos. Foi desrespeito. Isso é decisão da família. Mas, de repente, as mulheres decidem apoiar Anchieta. A coisa podia complicar, mas os homens acabam aceitando. Anchieta foi salvo pelas mulheres. E por sua coragem. Ele pode ter sido folgado, mas se tem algo que índio respeita é a coragem. Deu para ver que o moço magro vestido de preto é corajoso, segue o que acredita.

É sabido que nos rituais de antropofagia, os índios só comiam os corajosos. Para eles, se a vítima fosse covarde não valeria a pena se contaminar comendo sua carne. Nesse dia, Anchieta mostrou que tinha coragem. Possivelmente algum índio pensou: dará um bom prato! O fato é que os índios não mataram Anchieta nesse dia e as mulheres o ajudaram.

Para salvar a criança sem família, ele diz que vai adotá-la. Mas nessa hora as mulheres se sensibilizaram. E prometem cuidar juntos da criança. O curioso é que o gesto espontâneo e corajoso Anchieta trouxe efeitos. Muitas índias se aproximaram dele para ajudá-lo. Ele ficou mais amigo delas. Isso nos deixa uma pergunta: será que elas, no fundo, não entristeciam com o infanticídio? Será que alguma que já cometeu um infanticídio sentiu alguma culpa e foi se confessar com Anchieta no dia seguinte? Ou você acha que Anchieta foi etnocêntrico em não respeitar a cultura indígena? Você que respeita a diversidade cultural: se um índio enterrar uma criança viva por ser algo comum na cultura deles você vai deixar a criança morrer enterrada? Ou vai agir como Anchieta? Pense nisso quando quiser acusar os jesuítas de serem apenas etnocêntricos.

Mas o principal, Anchieta não julgava. Ao contrário do Padre Nóbrega (um grande homem, mas principalmente um estrategista, um estadista), Anchieta conseguia ser católico como era, sem julgar os índios. Ele, é claro, ficava chocado com hábitos que ele – e eu – considerava brutais, como o já citado canibalismo e infanticídio. Mas ele também observava a leveza deles com a vida, o humor, as brincadeiras… Ele também gostava da língua deles, gostava de falar com eles sobre pássaros, sobre ervas, sobre beijar flores, e sobre aranhas. Anchieta era realmente amigo deles. Anchieta viu neles o humanismo cristão que ele não via nos europeus. Anchieta os amava, Anchieta reaprendia com eles a ser cristão, Anchieta intuitivamente redescobria o cristianismo, ele redescobria o prazer de Jesus ao conversar com os amigos apóstolos, enquanto bebiam vinho e curtiam a vida na Galileia. No Novo Mundo, Anchieta redescobria a sabedoria cristã da vida comum, mas cheia de significado e poesia, a vida de São José, padrasto de Jesus, carpinteiro, operário, esposo de Maria, pai de família. Obediente a Deus. Pau para toda obra. Dessa forma, aqui no Brasil, amando os índios, trabalhando na obra e, principalmente, sendo realmente FELIZ, Anchieta saía do modelo dramático da vítima que se torna um mártir de Deus. E ajuda a construir um novo modelo de santidade, uma santidade que é uma história de sucesso, de evangelização bem-sucedida, de implantação de um paraíso na Terra, na vida feliz e harmônica. Anchieta visualizava a Utopia Brasil, um novo país, o V Império, o Reino do Amor e Perdão Universal.

Era por estar nessa vibração, por já visualizar o paraíso no Brasil, que Anchieta conquistava os índios. Ele convertia por sua adesão a alegria. E também, eu diria, até principalmente, ele convertia pois ele conseguia, do fundo de seu coração, nunca julgar os índios.

O não julgamento é o que os índios brasileiros precisavam para ser evangelizados em paz.

Mas como pode? Como ele vivia numa realidade brutal e, mesmo assim, visualizava o paraíso em que ele também vivia? Como ele tinha olhos atentos a cada pequeno instante de paraíso que existia ao seu redor?

Mas como ele aguentava ver tanta barbaridade e ainda assim pregar o evangelho apenas com alegria?

Como era possível ele não julgar? Sei que todos juram que não julgam, mas a maioria julga quem está julgando. “Eu sou melhor que ele, eu não julgo”. Pronto. Você já julgou a se achar menos julgador. A humildade é muito difícil de alcançar. E o amor? Você pode até não julgar, mas conseguirá realmente amar o “bárbaro”? Pense: você poderá não julgar e amar aquele que você considera bárbaro? Se você é bolsominion ou eleitor do bolsonaro: você conseguirá não julgar e amar de coração quem você considera petralha? Se você é mais petista ou petralha: você conseguirá não julgar e amar de coração quem você considera bolsominion? Isso serve para tudo: você, gay, conseguirá não julgar e realmente o homofóbico? E por aí vai. Lembre que Anchieta não julgava quem pensava em matá-lo para comê-lo (canibalizá-lo). Você acredita em algo. Você consegue não julgar quem pratica o oposto? Ou você acredita que isso nao se aplica, pois a fé do Anchieta era errada e a sua fé moderna de hoje é a verdadeira? Se você acredita nisso, está apenas sendo etnocêntrico, dizendo que o Anchieta era etnocêntrico.

Esse texto, vale lembrar, está tentando não julgar o mérito da fé de Anchieta. Está tentando apenas analisar o homem . E como homem é impressionante ele conseguir, sozinho numa aldeia hostil, conquistar o amor de pessoas com cultura tão diferente, que pensavam diariamente em matá-lo.

Como ele conseguiu isso? Nossa hipótese é que foi dando o exemplo de vida cristã feliz.

Mostrando com um bom cristão é alegre, prestativo, carinhoso, psicólogo, desinteressado, humilde, devoto etc…

E, principalmente, sendo alegre.

A pergunta é: como ele conseguiu ter vibração tão elevada naquela situação precária?

Bem, a hipótese é que Anchieta conseguiu isso por dois motivos:

  • Pois seguia os exercícios espirituais de Inácio de Loiola.
  • E porque era muito devoto da Virgem Maria.

Vamos falar de cada um, pois eles eram a base da devoção de Anchieta. Lembra que ele passava horas a noite rezando? Ele, na prática, fazia essas práticas espirituais. Imagino que alguns leitores achem que praticar horas a fio de rezas à noite é apenas sinal de fanatismo. Muitos identificam a reza com sofrimento e culpa. A experiência de Anchieta, no entanto, com certeza ia além disso. Muitos que acham fanatismo ele rezar horas também acham bonito um monge budista meditar por horas. Por que será que a cultura nova era acha bonito a meditação oriental e fanáticas as práticas de meditação cristãs e católicas? Fica a pergunta. Vale lembrar que as práticas budistas são mais realizadas em mosteiros isolados. Já as práticas espirituais dos jesuítas são realizadas por homens que estão envolvidos no “mundão bárbaro”, vivendo na ação, em meio a batalhas, guerras e negociações. Seja no passado entre índios, seja na luta atual de movimentos sociais, ou na luta diária de funcionários que cobram ética de corporações financeiras ou qualquer experiência prática. Os jesuítas não ficavam em mosteiros meditando. Eles estavam no meio das guerras. Essa diferença de objetivo, essa vocação para intervir no mundo, muda a prática espiritual. E é claro que a elite gosta de práticas para ficar parados, enquanto a classe proletária prioriza práticas que o orientam na ação.

Por Newton Cannito

Texto completo aqui.