A agonia identitária e a cidadania

A agonia identitaria e a cidadania
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A literatura acadêmica e a imprensa de opinião já escancarou a agonia do identitarismo. Todos os dias, e não com alguma felicidade e ternura, vejo mais e mais comunicadores e intelectuais com coragem para eviscerar o identitarismo e desmascarar seus propagadores e corresponsáveis.

Do modo como tenho enquadrado, aqui e alhures, o identitarismo é uma corrente de opinião: um conjunto heterogêneo de formas de pensamento, atitudes e performances públicas, que tem seus próprios porta-vozes, intelectuais, artistas e políticos. Isso para deixar claro que ele não é um movimento social ou ideológico e organizado. É um feixe de dizeres e cacoetes, de atitudes e temperamentos, efêmero, como moda de uma geração; penetrante, como moda de uma geração.

Essa corrente substituiu outra corrente de opinião progressista, que declinou com o fim do socialismo real. Foi gradativamente se tornando o único insumo para a sede de classe média por uma visão generosa e humanizada da vida em sociedade, a sede pela defesa de quem é esmagado por alguma forma de assimetria socialmente cristalizada. Um recurso, porém, inócuo, contraproducente e, por fim, fatal, que, também gradativamente, serviu como instrumento de poder para segmentos intelectualizados de formadores de opinião, universitários, marqueteiros, banqueiros e parlamentares aproximar-se, ocupar e se conservar no poder.

É que atravessa a corrente de opinião identitária, como um gás tóxico, o impulso pan-conflitivista. Mais cedo ou mais tarde, os indivíduos se lançam uns contra os outros, especialmente aqueles então mais próximos, companheiros de jornada, ou solidários de uma visão política, por meio de expedientes de exposição, de denuncismos e cancelamentos, pretensamente corretivos. Esse impulso é eficaz tanto para segregar e isolar indivíduos quanto para conferir voz aos que se autoproclamam vítimas ou vitimizáveis, não pelas ações, mas pelas intenções de vizinhos, parceiros e correligionários. A propósito, se é eficaz na destruição, o identitarismo é inapetente para construções. Na performance acusatória/autopromocional é sempre confortável berrar pelo seu “lugar de fala” justamente por isso. Tudo o que se quer é ter à boca um microfone.

As gerações que manipularam com mais intimidade os termos dessa corrente são os chamados millenials. Mas é óbvio que as gerações seguintes levaram tais termos à aporia em que se colocaram os identitários antes de iniciarem esse momento de declínio moribundo.

O descrédito do identitarismo, esclarecido e celebrado por muita gente hoje, tem muitos ingredientes, como a peculiar inviabilidade eleitoral, que sabotou candidaturas (Boulos e Biden, entre dezenas de outros no Ocidente, que o digam); a ausência de rumo e de programa de ação entre os simpáticos às pautas; a aparente inversão de prioridades no bojo das discussões que promovem; o oportunismo com que a linguagem identitária é usada para destruir reputações e impor condenações a desafetos; e o tédio que essa mesma linguagem traz ao trato na vida social com uma série de verbalizações e condutas pateticamente estéreis.

Tudo isso é verdade. Embora tal descrédito não seja atestado de óbito – como penso, seguiremos vendo por aí variadas tagarelices identitárias, ostentadas com fantasia de seriedade e de justiça –, essa agonia não é toda a história. É preciso encaixar novos elementos para uma lida social que não abandone a solidariedade diante das assimetrias explícitas e implícitas que a história nos legou, que não nos jogue aos braços do cinismo e da indiferença face o sofrimento alheio, nem nos furte a tarefa de construir uma nação – em nosso caso, tão afetada pelo papo esdrúxulo da desconstrução.

Para começar, temos que estabelecer um vocabulário para outras atitudes. Eu tenho proposto que retomemos a mensagem da cidadania. A mensagem hibernada nos anos noventa no Brasil. Que ela forneça diretrizes e clarões para as nossas elites culturais e políticas reorganizarem o debate nacional. E proponho que o pretexto seja não apenas o enaltecimento da Constituição, cada vez mais posta sob suspeita pelas massas. Mas que seja a formulação de um novo critério de cidadania a ser manejado na fronteira entre a sociedade civil independente e o Estado de direito.

Até aqui, a cidadania tem sido discutida quanto ao acúmulo de direitos de distintos perfis aos indivíduos das nações modernas, a partir da experiência inglesa, notadamente, o direito civil, o direito político e o direito social. Nesta ordem, o cidadão teria direito a coisas como liberdade e propriedade, depois, a manifestação da vontade política com voz e voto e, depois, a educação, saúde, trabalho e salário justo. Como bem observou José Murilo de Carvalho, entretanto, essa ordem foi bagunçada no Brasil, tendo vindo primeiro os direitos sociais, depois os políticos, interrompidos pelo regime militar, e então os direitos civis.

A inversão da pirâmide, entretanto, é também a remontagem do sistema de garantias e conquistas para os cidadãos de uma nação de periferia do capitalismo mundial. Isso quer dizer que esse rearranjo de ganhos pode ser visto como incompleto e promissor. Se pudermos vislumbrar o acesso ao trabalho digno e produtivo e à poupança como um direito irredutível aos anteriores, um direito econômico, que nos proteja contra o desemprego, a informalidade, a ilegalidade e o endividamento, começaremos a ver um rumo novo para a nossa sociedade nacional. Ou seja, a cidadania de que precisamos é uma cidadania plena e material, instaurada pelo enredamento de quatro ordens de direitos: civis, políticos, sociais e econômicos.

Sim, o identitarismo com que se iludiu nossa elite cultural está em franca agonia. E essa é uma oportunidade para semearmos uma alternativa que coesione o país em uma mensagem que nos prometa uma prosperidade factível. Não será sem luta que conseguiremos isso. Mas acomodados ao jargão pan-conflitivista do lugar de fala, da resistência, da representatividade, o máximo que conseguiremos é o que temos: porta-vozes de minorias assumindo cargos de poder em instituições e empresas e a grande massa de brasileiros que esses porta-vozes ostentam defender relegada à pobreza, à falta de instrução, ao endividamento e à violência urbana. Queremos mais. E haveremos de conseguir.