Por Newton Cannito – Não vai ser fácil para “Vale Tudo”.
O projeto de comemoração do aniversário da Globo é um transatlântico com grandes chances de naufrágio.
Nas redes sociais tem se falado da má interpretação de alguns dos atores e dos trailers que ficam parecendo TV Pirata, ou seja, parece uma paródia da novela original.
Tudo isso é fato.
Mas vou falar de algo ainda mais preocupante para fazer esse remake. Um grande autor é uma antena social que capta conflitos da população e o traduz em forma de dramaturgia. Para uma novela dar certo não basta ter um bom texto e bons atores. Isso é pré-requisito.
Mas a novela precisa, principalmente, estar em conexão com o espírito do tempo (zeitgeist) e preencher uma demanda de imaginário. Essa é a diferença dos autores reais para os roteiristas: os roteiristas são apenas técnicos, o autor é um técnico que vai além e tem a visão de como equacionar um conflito social em forma de dramaturgia.
Esse é o principal desafio de “Vale Tudo”: dialogar com os dias de hoje. As entrevistas do ano passado da autora Manuela Dias diziam basicamente que a adaptação para os dias de hoje iria seguir as regras do politicamente correto e da estética Woke. A vilã não será tão vilã, a bêbada não será tão chocante e por aí vai… Ou seja, não é uma adaptação, é uma versão “oficial” da novela para a ideologia dominante hoje. Vivemos uma distopia de Orwell, um mundo onde o poder dominante tenta reescrever as histórias de sucesso de nossa cultura para a versão Woke. Aconteceu com Branca de Neve e foi essa a intenção inicial da roteirista Manoela Dias. Se ela seguir nesse caminho será um fiasco, pois essa ideologia não dialoga com o público brasileiro. E dialoga ainda menos com o público conservador de cidades pequenas, com o Brasil profundo que é, cada vez mais, o grande consumidor de Telenovelas.
A Globo de hoje vive um paradoxo: seu público é conservador, mas seus autores são progressistas. E progressistas radicais de carteirinha. Parecem mais ativistas do que artistas, mais donos de Ong do que escritores. Aliás, uma curiosidade, o principal criador de séries da Globo Play é o José Junior que nunca foi roteirista e fez uma bem-sucedida carreira como dono de Ong.
Esse simples fato já mostra a linha que a Globo seguiu: ao invés de dar o poder criativo a autores fortes que prezam por sua liberdade, a empresa tem optado por autores que são fiscais leais da ideologia oficial da firma. São mais ativistas da causa progressista do que escritores. Essa desconexão faz com que as novelas e séries, ao invés de primar pela boa dramaturgia, se tornem obras didáticas cheias de lacração, lembrando filmes institucionais de empresas. Isso é a morte da dramaturgia e tem sido o principal motivo do fiasco de público da Globo. Uma pena. Uma empresa importante para a cultura brasileira está se afastando do público apenas para tentar irradiar uma ideologia de gueto.
Mas ainda está em tempo. De outubro de 2024 para cá, o mundo mudou rápido. Ano passado, quando lancei o Manifesto Anti Woke, esse debate ainda era tabu. Hoje todos – inclusive a Globo – já sabem que o Woke está com os dias contados. A entrevista da Manoela Dias repercutiu muito mal e ela já foi pressionada a não fazer apenas a versão Woke. Vamos ver o caminho que ela seguirá.
De toda forma, fazer um remake de “Vale tudo’ é uma oportunidade maravilhosa para repensarmos a sociedade brasileira de hoje.
É isso que faremos nos próximos meses na Utopia Brasil. Estamos lançando um Concurso Vale Tudo de histórias. Todos podem mandar sugestões de enredos e cenas para a novela. Os melhores ganharão cursos, e-books e mentorias para aprofundar a história. Nosso objetivo é aproveitar “Vale tudo” para discutir o Brasil e, ao mesmo tempo, relembrar o potencial da boa dramaturgia de provocar esse debate.
Esse texto é uma reflexão inicial sobre o tema central da novela, pensando como ela dialoga com os dias de hoje e visa inspirar todos a darem novas ideias para a ajudar a Globo!!
Toda novela “Vale tudo” é unificada a partir de uma pergunta: vale a pena ser honesto no Brasil?
Na época da primeira versão, 1988, a pergunta era uma dúvida real. Em 1976, tinha-se popularizado a Lei de Gerson que defendia explicitamente que o certo é tentar levar vantagem em tudo. Ademar de Barros e Maluf eram políticos que recebiam votos, apesar de serem reconhecidos como corruptos. Era o “rouba, mas faz”. Lembro de meu pai tentando convencer meu tio a não votar no Maluf, pois ele era corrupto. E meu tio, um pequeno golpista malandro das antigas que vivia de esquemas com gerentes de banco, apenas sorria e pensava feliz: eu gosto do Maluf, pois ele é malandro como eu.
Foi se aproveitando dessa ambiguidade moral do brasileiro que “Vale tudo” construiu grandes vilãs. Quando Maria de Fátima critica o avô por ele não ser corrupto, o público da época se questionava realmente: vale a pena ser honesto? Marco Aurélio ficou famoso por dar uma banana para o Brasil e meter o pé. Em entrevista ao Podcast Novelão, Reginaldo Farias conta que ele achou que por interpretar um vilão seria perseguido nas ruas pelos espectadores, como acontecia muito na época. Mas isso não aconteceu, pois o espectador de 88 se identificava realmente com esses vilões. Todos estavam cansados da opressão do Estado por impostos, decidindo ser mesmo um corrupto e mandar a nação pras favas.
Isso tudo é claro, foi construído com maestria pelos autores da primeira versão da novela. Eles sabiam construir bons vilões. Já os autores atuais, todos politicamente corretos, ativistas e donos das Ongs, costumam esquecer uma regra básica da dramaturgia: um vilão para ser bom tem que ser fascinante e tem que sempre estar à beira de convencer o público que ele está certo. E a identificação com o vilão que garante o sucesso da novela. Por isso, um autor tem que ser mais artista do que ativista. Pois o ativista passa mensagem oficial com a certeza de um pregador, enquanto artista tem a capacidade de ter relatividade moral para entrar na cabeça do vilão e justificar suas ações. Será esse o principal desafio da nova versão.
Um exemplo: Odete Roitman, a mega vilã mais famosa da TV brasileira, se notabilizou por falar frases classistas. Isso é maravilhoso. Como sabemos, uma forma de combater os preconceitos é revelá-los com clareza. Hoje, na dramaturgia brasileira, muitas pessoas (de público wokes a pareceristas) confundem a voz do personagem com a “opinião” do autor e, por isso, cancelam qualquer obra que tenha uma simples fala racista, recurso que poderia ser usado agora, visto que a nova Maria de Fátima é negra. Por isso, ficou quase impossível criar vilões racistas. Será um grande desafio para a novela atual: será que a Globo, dona da pureza e rainha do politicamente correto, permitirá falas explicitamente racistas na novela? Paulo Gustavo, gênio do humor, tinha uma personagem maravilhosa: Nossa Senhora dos Absurdos, uma socialite homofóbica, racista e classista. Ele foi o último que conseguiu ter “autorização social” para ser politicamente INCORRETO. Nos dias de hoje, será que a Globo correrá esse risco. Espero que sim
Além disso, temos que voltar à pergunta principal da novela: será que a questão “vale a pena ser honesto” ainda é válida para o Brasil dos dias de hoje?
O desafio da adaptação é pensar isso e é essa dúvida que iremos colocar para iniciar o debate sobre Vale tudo.
Minha impressão é que hoje a maioria do povo brasileiro decidiu ser honesto. Ainda não somos, claro. Mas a maioria dos espectadores de novela admira a honestidade. Ele não tem mais a dúvida que tinha na época da primeira versão. Hoje um político que tem a imagem de “Rouba, mas faz” não seria eleito. Mesmo quem vota em político corrupto defende (e geralmente acredita) que ele é honesto. Se pensarmos que o público da TV aberta é o público conservador, teremos ainda mais claro: a opção pela honestidade e pelo trabalho duro é um valor absoluto das pessoas conservadoras. Pouca gente defende explicitamente que o certo é seguir a Lei do Gerson e levar vantagem em tudo. Antes, muitos defendiam isso na cara dura. Hoje não.
Isso pode ser um imenso problema para a novela e um grande desafio para a roteirista. Afinal, será que o público atual vai se fascinar pela Maria de Fátima e Marco Aurélio como se fascinou na primeira versão? Se não se fascinarem, não serão grandes vilões e a novela não fará sucesso.
A explicação sociológica para isso está nos debates sobre malandragem no Brasil. A malandragem é uma forma do excluído resistir à opressão absoluta do sistema (Estado e sistema financeiro), que impedem um confronto mais direto. A malandragem é a forma que o povo não organizado encontra para se virar e se proteger da violência do sistema e burlá-la.
Isso foi por toda a história do Brasil e esse “superpoder” foi, aos poucos, se tornando um orgulho nacional. Foi assim que surgiu a Lei de Gerson. E ali, na primeira versão da novela, o povo se perguntava: Vale a pena ser honesto no Brasil?
Hoje, a imensa maioria do povo decidiu ser honesta até por birra. Ainda temos um reino de malandragem, por exemplo, no campo do digital, a nova corrida do outro, cheio de opções de pornografia, jogatina, vícios, ilusões e golpes. Uma adaptação de “Vale tudo” para os dias de hoje terá que apostar muito nesse novo ambiente, pois é o novo campo da malandragem dissimulada.
Mas, apesar de ainda ter muito, o fato é que o povo tem cada vez mais consciência e mais raiva do sistema corrupto que nos oprime. De uma forma ou de outra, estão todos conscientes da opressão.
Macunaíma, arquétipo da identidade brasileira é, na definição de Mário de Andrade, o herói sem caráter. O malandro que sobrevive por se adaptar. Essa pergunta de Vale tudo (Vale a pena ser honesto?) evidenciava esse personagem: o herói sem caráter que era como se identificava a maior parte do povo pobre brasileiro da época.
Hoje, mudamos para o melhor e para o pior. A modernidade chegou, estamos mais racionais, mais “americanizados” e não admiramos tanto a malandragem. Se antes era ambíguo, hoje ser malandro não é uma característica louvada em ambientes conservadores.
Boa parte do público de telenovelas é influenciado pelas ideologias da prosperidade, que existem nas igrejas neopentecostais e nos coaches e mentores digitais (Pablo Marçal, fenômeno eleitoral, é o mais famoso mas é um vasto mercado de influência). Essa ideologia é protestante na essência: eles não pregam a malandragem e a vagabundagem e acreditam na disciplina , no trabalho e no foco para conquistar riqueza. E, ao contrário da ideologia anterior que ainda era hegemônica na época da novela, esse público não criminaliza a riqueza.
Essas são algumas pistas iniciais para fazer uma adaptação de “Vale tudo” que dialogue com os valores do povo brasileiro de hoje. Só assim a novela poderá fazer sucesso: captando o espírito do tempo e fazendo uma obra que catalise novos debates.
Vamos continuar essa conversa e dar essa ajudinha criativa para a turma da Globo!!
Participem do primeiro Concurso Vale Tudo de Histórias da Utopia Brasil!!!
Contribua para salvar as novelas brasileiras!! Nós precisamos de boas novelas, afinal!
Por Newton Cannito






