Desde a eleição de Donald Trump, um coro de vozes indignadas ecoa em diversas partes do mundo, denunciando o resultado como um sinal do declínio da razão e da moralidade. Para muitos, a vitória de Trump não é apenas uma surpresa, mas um choque profundo, uma suposta anomalia que desafia os princípios mais caros à sociedade democrática. Essas reações, marcadas por um tom de escândalo e de incredulidade, levantam questionamentos sobre o verdadeiro valor da democracia para aqueles que se consideram seus maiores defensores. Será que essas expressões de revolta, que muitas vezes não disfarçam o elitismo, revelam temores e preconceitos da “sensibilidade liberal”, mostrando a incapacidade de certas elites em responder às demandas políticas da atualidade?
Por exemplo, a jornalista brasileira Sandra Coutinho, da GloboNews, afirmou que a eleição de Donald Trump é “a desmoralização da democracia”, reafirmando a ideia de que os Estados Unidos se propõem ao papel de “farol da democracia do mundo”. A fala lembrou a do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky em 2023, quando recebeu a visita de Joe Biden em Kiev: “Senti algo mais forte do que nunca (…) Os Estados Unidos são um farol para o mundo”.
Carregando “Como as Democracias Morrem” debaixo do braço, jornalistas, políticos e intelectuais profetizam apocalipses, apresentam-se como médicos de um regime doente e, os mais exaltados, revoltam-se contra o povo e pregam a necessidade de revisão do regime eleitoral democrático liberal. Após o resultado das eleições dos EUA, li frases sobre um tema cada vez mais frequente: “as eleições deixaram de ser um exercício racional”, “as pessoas estão dominadas pela desinformação”, “os algoritmos fomentam a polarização e destruíram a democracia”, “a democracia não é mais a mesma por causa da internet e dos celulares.”
Autoprofessados amantes da democracia e guardiões do regime liberal aparecem na televisão, entristecidos e pessimistas, na maioria dos casos culpando os novos meios de comunicação pela decadência do regime democrático; intelectuais são pagos por fundações para elaborar e filósofos são convidados para elucubrações sobre como as pessoas “escolhem acreditar no que preferem, independente dos fatos”, pois “as opiniões viraram identidades.”
Não pretendo negar tendências negativas próprias da rede. No entanto, o que impressiona é a crença cada vez mais difundida de que a vitória de Trump, e outras manifestações políticas “inconvenientes”, podem ser explicadas apenas como uma expressão de irracionalidade coletiva.
Podemos olhar para a irracionalidade, o ódio, a desinformação ou qualquer outra paixão envolvida na campanha de Trump, mas o que estamos declarando, a que valores estamos subscrevendo, quando lamentamos a vitória de Trump como uma tragédia para o “farol da democracia”? Quando a democracia dos EUA foi esse terreno idílico da razão pura? Quando as eleições de massa foram definitivamente um “exercício racional”?
Nos Estados Unidos, a ascensão da imprensa política foi acompanhada pelo surgimento da desinformação, do choque e do apelo. Aquele país talvez seja o berço das formas mais sensacionalistas do jornalismo de massa: o “Cidadão Kane”, o magnata William Randolph Hearst, “criou” a imprensa marrom no mesmo período em que surgia a chamada “Era Progressiva” da política norte-americana, assim como uma concepção de jornalismo responsável como guardião da coisa pública. Isso significa que, desde que existe o ideal do jornalismo profissional, também existia a desinformação apelativa, interesseira e ávida por lucro.
A história do regime político nos Estados Unidos passa por uma Gilded Age (1870-1900), onde a intensificação da participação política era acompanhada pela erupção, às vezes violenta, de paixões populares, fraudes eleitorais, influência direta dos super-ricos, greves suprimidas e corrupção rampante. Políticos gritando, pessoas apaixonadas, dinheiro rolando, vale-tudo político. A ascensão do chefe político urbano e das máquinas eleitorais movidas a muito dinheiro deve ter deixado muita gente preocupada com o “fim da deliberação racional por parte do eleitor”, suponho.
No século XX, mais de 50 anos de segregação, macartismo e, por fim, a ascensão da campanha política moderna. Foi primeiro nos Estados Unidos que as eleições presidenciais passaram a ser muito influenciadas pelo marketing, pela sobreposição da lógica da propaganda consumista sobre a lógica da “deliberação política racional”.
Onde está, então, o paraíso que supostamente foi perdido com a vitória de Donald Trump? Em um sonho ideológico do século XIX, distante da dura realidade da política, que idealiza uma arena pública onde dialogam cidadãos moderados, livres e proprietários, limitados pela pura deliberação racional.
A campanha de Kamala Harris gritava contra Donald Trump: That’s not who we are! Dizia que a “sua América” não era aquela de Donald Trump. Nesse sentido, Peter Baker parece uma das vozes mais acertadas entre as colunas do New York Times: talvez Trump seja precisamente aquilo que mais representa a identidade daqueles que votaram nele. E eu não seria o primeiro a sugerir que aqueles que se sentiram marginalizados pelo establishment cultural dominante dos Estados Unidos se identificaram com aquele que parecia mais indecente aos olhos desse establishment.
Os jornalistas — estadunidenses e brasileiros — que ficam repetindo a mesma ladainha sem reflexão de “dia triste para a democracia” devem se perguntar até que ponto a profusão desse discurso, a exuberância performática da preocupação da alta mídia e dos grandes artistas com Donald Trump, pode ter contribuído para a popularidade e o crescimento da onda vermelha trumpista que varreu os Estados Unidos.
Em uma sociedade de massas com instituições em crise, onde o descontentamento generalizado é alimentado por desigualdades profundas e pela sensação de que o sistema funciona apenas para a elite, a demonização midiática de um candidato como Trump pode facilmente se tornar um tiro que sai pela culatra. Quando o establishment cultural — dos jornalistas aos artistas e intelectuais — assume o papel de “educador” moral, oferecendo uma crítica quase uníssona a Trump, crê estar cumprindo uma função cívica e pedagógica. Mas, ironicamente, essa estratégia pode gerar o efeito oposto, especialmente entre os setores da população que já se sentem excluídos ou manipulados.
Diante dessa retórica incessante e visivelmente parcial, as pessoas podem reagir mal, rompendo a chamada “espiral do silêncio” ao perceberem a narrativa como tendenciosa e opressora. Esse fenômeno de “reatância à persuasão” surge justamente quando os eleitores detectam uma tentativa de controle sobre suas opiniões, incentivando-os, por pura rebeldia, a desafiar essa pressão e votar em quem é demonizado. Em vez de afastá-los de Trump, a insistência quase caricatural em retratá-lo como uma ameaça à civilização pode, paradoxalmente, torná-lo mais atrativo como símbolo de ruptura e de oposição ao status quo, motivando um voto de protesto que revela mais sobre a falência das instituições e das elites.
O problema não é só a resistência à persuasão, mas o que essa elite tem a oferecer e o quanto está alinhada com os valores do restante da sociedade, ou até que ponto ela tem sucesso em alterar os valores daquela sociedade. Nesse caso, o voto relaciona-se com interesses racionais e com a afirmação de identidades.
Podemos dizer que, em alguma medida, a elite do establishment cultural teve sucesso na projeção de seus valores e que uma parte das massas norte-americanas rejeita Donald Trump, sem dúvida. Minha divergência, porém, é com aqueles que se contentam em explicar Trump como a mais pura anomalia.
Se a elite cultural teve sucesso em pautar parte da opinião pública, sua atuação também suscitou oposição. Sendo assim, não podemos aceitar o discurso de jornalistas dos grandes meios que falam da polarização como um fenômeno que não inclui a própria mídia corporativa: boa parte do discurso polarizado, no Brasil e nos Estados Unidos, surge como reação às pretensões pedagógicas da grande mídia.
Christopher Lasch é conhecido por sua obra que explora o crescente abismo entre o povo e a elite cultural nos Estados Unidos. Essa elite, promovendo um individualismo liberal, relativista e cosmopolita, passou a enxergar as pessoas comuns com desprezo cada vez maior, ao mesmo tempo em que criou as bases para uma crise cultural e psicológica na sociedade. Em uma leitura “laschiana” da “onda populista”, a elite primeiro se revoltou contra o povo, para depois o povo reagir com a revolta populista.
No caso de Donald Trump, proponho um pequeno desvio dessa leitura laschiana do populismo, pois, por mais que Trump possa conter algumas tendências comunitaristas, não é ele próprio um reflexo indesejado da cultura individualista (desde sua performance espetacular e belicosa até as vulgaridades sexuais)?
Em “Capitalismo sem Rivais”, Branko Milanović descreve um cenário em que aumentam tanto a desigualdade econômica quanto a desigualdade educacional, com as classes altas cada vez mais instruídas e também cada vez mais endogâmicas. No contexto da chamada “onda populista”, parece que uma massa que sofre com a despossessão material relativa se sente vítima de uma despossessão cultural e simbólica. Não vivem como seus antepassados, mas também não desfrutam do glamour do presente. Não é surpreendente, então, que adotem uma postura agressiva e elejam o seu próprio transgressor para se reapropriar do horizonte cultural.
A reação de indignação desmedida frente à eleição de Trump expõe uma visão autocentrada, em que a aversão se confunde com um ideal de sociedade que reflete mais os valores da sensibilidade liberal do que a diversidade da realidade social.
É possível se preocupar com as implicações de um governo de Donald Trump ou até discutir revisões nas democracias eleitorais, mas, se existe uma crise, Trump não é a causa e sim um sintoma. Sua ascensão está relacionada aos problemas políticos e culturais dos EUA nos últimos 40 anos, e é ridículo o espetáculo daqueles que, até semana passada, exaltavam a democracia dos Estados Unidos, mas não aceitam que Trump é fruto daquele sistema. Não serão eles que vão produzir uma solução, nem aqueles que pensam que, de repente, o povo foi tomado pela irracionalidade e que cabe à grande mídia fazer algum tipo de restauração iluminista.
Se Trump representa uma falência cultural, que seja, mas há um pouco de falência também nos seus antípodas: nos Estados Unidos, a tragédia de uma elite que luta para defender sua proeminência; no Brasil, a farsa de seus imitadores e epígonos.






