Por Carlos Eduardo Martins
1) Estamos vivendo uma mudança de época e se torna evidente que a globalização neoliberal que comandou a política e a ordem internacional de 1980 ate 2015 acabou. A globalização neoliberal teve o seu epicentro em Washington, baseado em um consenso bipartidario sobre tres eixos. Eles são a construção de um mercado mundial autoregulado dirigido pelo capital financeiro norte-americano, a universalização de uma democracia liberal que descartou os direitos dos trabalhadores e a soberania nacional, e intervenções militares localizadas para produzir mudanças de regime na periferia e a semiperiferia;
2) A vitoria de Trump é o reconhecimento por uma nova elite politica do declinio dos Estados Unidos no mundo globalizado que eles proprios criaram e uma reestruturação profunda de sua politica externa. A potência anglo-saxã abandona a pretensão de universalizar a democracia liberal, reconhece a incapacidade de estabelecer várias frentes de conflito e busca submeter as pressões competitivas do mercado mundial ao poder do seu Estado, delimitando os seus inimigos estratégicos e impulsionando uma economia politica mundial de sanções e embargos. O neoliberalismo e a democracia liberal são abandonados como valores da politca de Estado norte-americana produzindo efeitos externos e internos;
3) Da mesma forma que Moscou descartou a URSS provocando o colapso de uma ordem regional, Washington abandona a ordem internacional que construiu, o que tende a gerar efeitos caóticos em cascata que deverão se desenvolver nos proximos anos. Os Estados Unidos revertem o engajamento com a China transformando-a em sua principal ameaça, e provavelmente buscarão gerenciar o conflito na Ucrânia, legitimando a ocupação russa, em troca do afastamento do país eslavo da órbita chinesa para pôr freio ao BRiCS e à rota da seda. Trata-se da aposta numa inversão do projeto de Nixon e Kissinger, engajar a China para isolar a URSS. Entretanto cabe perguntar até que ponto poderá ser bem sucedida com o grau de conexão já traçado entre as potências asiáticas.
Diante da falta de apoio do imperialismo atlantista a quem se submeteram, os europeus estarão diante de uma guerra no Leste Europeu travada contra os seus reais interesses regionais. Cabe à esquerda europeia decidir uma questão existencial: permanecer um apêndice de um imperalismo liberal decadente e deixar a questão nacional e regional nas mãos de um fascismo nacionalista ou tomar para si a temática geopolítica e soberania europeias. Há que se observar a politica de Trump para o Oriente Medio. É bastante possivel que ele busque restringir o apoio ao subimperialismo israelense para construir uma alternativa à Nova Rota da Seda articulando Israel e Arabia Saudita, mas o grau de hostilidade de sua politica ao Irã e a força do complexo industrial-militar sobre seu governo serão chaves a decidir a politica estadunidense no Oriente Medio;
4) A eleição de Trump reforçará a onda fascista na America Latina e a reação contra projetos nacionais-populares e a esquerda que transita para a centro-direita. Há que se ver como esses grupos politicos latino-americanos reagirão a este cenario. O que fará Lula? Manterá a estrategia de subordinação do Brasil à politica externa dos Estados Unidos, que vinha desenvolvendo em troca do apoio do Partido Democrata à sua governabilidade, atuando como um freio interno à vinculação da América Latina ao eixo geopolitico emergente multipolar articulado por China e Russia? Se alinhará ainda mais à direita para buscar algum respaldo das novas forças politicas hegemônicas nos Estados Unidos? Ou fará uma mudança de rota rearticulando o país ao multilateralismo diante da falta de apoio do fascismo estadunidense?
Torna-se claramente evidente que o liberalismo que se vinculou à globalização neoliberal está em crise terminal. No Brasil os dois grandes partidos que a geriram, PSDB e P,T, perdem força politica e abrem espaços a alternativas por enquanto ocupadas quase solitariamente pela combinação entre fascismo e patrimonialismo que colapsou a Nova República. Este fascismo se apresenta como antisistemico por se colocar contra a democracia política mas reforça ao extremo a violação da soberania nacional e a subordinação de nossos Estados a um neoliberalismo decadente.
Por Carlos Eduardo Martins (UFRJ)






