A metralhadora tarifária de Trump e os estertores de uma hegemonia global

A metralhadora tarifaria de Trump e os estertores de uma hegemonia global
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Por Arthur Pentagna – Há cerca de duas semanas, Donald Trump apontou a sua metralhadora tarifária na direção do Brasil. A partir de 1º de agosto, os produtos brasileiros que forem exportados para os EUA serão taxados em 50% de seu valor. Nosso país não foi o primeiro atingido pelo súbito furor protecionista de Washington, e provavelmente não será o último. A brusca mudança de direção e de discurso com relação à política comercial estadunidense não passou despercebida. A própria embaixada da China nos EUA publicou um vídeo, ainda em abril, do ex-presidente Ronald Reagan criticando duramente políticas protecionistas nos anos 1980.

Contudo, talvez não esteja claro para todos o que causou tão drástica transformação. Para colocar da maneira mais sintética e simples possível: os EUA estão deixando de ser a potência hegemônica global, e sabem disso. Os atos tresloucados de Trump são uma tentativa desesperada de manter inalterada uma ordem mundial já em franca decadência. Não parece estar funcionando. A China, que é a nova potência emergente, cresceu robustos 5,2% no segundo trimestre de 2025 em relação ao mesmo período do ano anterior. Enquanto isso, a economia estadunidense decresceu 0,5% no primeiro trimestre de 2025 e é esperado que cresça apenas 1,5% no segundo. Em termos de paridade de poder de compra, a economia chinesa já é cerca de 30% maior que a dos EUA, de acordo com dados do Banco Mundial. E, ao que tudo indica, essa diferença só se alargará. Para citar alguns outros números do mesmo Banco Mundial, a receita com exportações da China é quase 20% maior que a dos EUA e a produção de sua indústria de transformação excede a estadunidense em 60%.

Com relação ao poderio militar chinês, os dados também indicam uma diferença cada vez menor entre o país oriental e a potência norte-americana. Isso fica evidente no relatório do próprio exército dos EUA, apresentado ao seu Congresso no ano passado. De acordo com o documento, a China conta com a maior marinha do mundo, classificada como “moderna”, com uma força aérea de “padrão estadunidense” e com um arsenal nuclear de mais de 600 ogivas. Já no campo tecnológico, o país asiático está na fronteira em várias áreas estratégicas. Mais de 70% dos veículos elétricos produzidos no mundo são feitos na China. A União Europeia, segunda maior produtora global, tem uma produção de menos de um quinto da chinesa. Recentemente, a empresa chinesa DeepSeek lançou um modelo de inteligência artificial muito similar ao de concorrentes, como a Meta e o Google. A diferença é que o DeepSeek custou muito menos para ser desenvolvido e precisa de uma capacidade de processamento muito menor para rodar. Para tornar o feito ainda mais impressionante, em outubro de 2022, ainda na administração Biden, foram criados controles de exportação para chips de última geração produzidos com tecnologia estadunidense. O objetivo era, justamente, impedir o desenvolvimento de inteligência artificial pela China. Não funcionou.

Diante de todos esses fatos, a gestão de Donald Trump resolveu usar a política comercial como uma espécie de porrete geopolítico. Aos países que não se alinham ou que ameaçam a hegemonia dos EUA de alguma forma, é restringido o acesso ao seu mercado consumidor. É dentro desse contexto que devemos ver o “tarifaço” aplicado Brasil. Apesar de Trump ter alegado, dentre outras coisas, que o motivo das medidas tomadas contra nosso país seria uma suposta perseguição política ao ex-presidente Jair Bolsonaro, tal justificativa é claramente insuficiente. Em um ato de sincericídio, alguns dias atrás, o mandatário estadunidense deixou clara a razão do ataque ao Brasil. Segundo Trump, os países que compõem os BRICS estariam querendo acabar com o “padrão-dólar”, ameaçando o status de reserva de valor da moeda. Ainda de acordo com o mesmo, perder esse status seria equivalente a perder uma “guerra mundial”. É uma referência à ideia de “desdolarizar” a economia global, citada por Lula na última reunião dos BRICS e defendida por outros membros do grupo.

Porém, trocando em miúdos, o que tudo isso significa? Aqui é preciso explicar um pouco de macroeconomia para entender, simplificando para ficar o mais didático possível. Um dos fatores que limita o crescimento econômico dos países é a chamada “restrição externa”. Quando a economia de um país está muito aquecida, a população passa a demandar uma quantidade maior de bens e serviços importados. Para pagar por essas importações, via de regra o país deve realizar a transação em uma moeda diferente da sua. Dessa forma, vende-se moeda local e compra-se moeda estrangeira. Exemplificando: quando o Brasil adquire veículos do México, o pagamento muito provavelmente não será feito em reais, mas sim em dólares. Logo, o Brasil deve adquirir dólares, vendendo reais. Se essa demanda por dólares é muito alta e não há uma maneira de financiá-la (um fluxo de dinheiro estrangeiro entrando no país por algum motivo), isso implica em desvalorização da moeda local (no caso, o real) e, consequentemente, inflação (porque os bens importados ficarão mais caros em moeda local). Parece complicado, mas não é. É simplesmente lei da oferta e demanda. Se um bem qualquer é muito demandado, o seu preço subirá. A diferença é que, nesse caso, o bem é uma moeda. No caso, o dólar.

Todos os países lidam, em maior ou menor medida, com a restrição externa. Os EUA, contudo, são de longe o país no qual essa restrição é mais “frouxa”. Isso ocorre justamente porque o dólar é, ainda em larga medida, a moeda mais utilizada no comércio exterior. Logo, existe uma demanda muito alta por dólares, uma vez que com essa moeda você pode comprar basicamente qualquer coisa à venda no mundo. O dólar funciona, portanto, como uma segurança. Uma “moeda de reserva”, como disse Trump. Ao entesourar dólares, os países se protegem de possíveis desvalorizações de suas próprias moedas. O Brasil mesmo é um exemplo. Das reservas internacionais que o nosso Banco Central possuía ao final de 2024, quase 80% estavam aplicadas em dólares. Assim sendo, como sempre há alguém disposto a adquirir dólares, a restrição externa não funciona da mesma forma para os EUA. É muito mais difícil que a moeda estadunidense desvalorize. Essa excepcionalidade dá aos EUA muito mais liberdade para a sua política econômica do que os países em geral têm. As políticas fiscal e monetária estadunidenses podem ser muito mais frouxas, permitindo um crescimento econômico maior. Portanto, Trump tem razão nesse ponto. O dólar deixar de ser a moeda mais utilizada no comércio exterior e como reserva dos países seria o equivalente aos EUA perderem uma guerra mundial.

Todavia, o “padrão-dólar”, que o presidente estadunidense citou e deseja manter de maneira tão ferrenha, não é uma imposição divina. É uma convenção que era natural em um mundo no qual os Estados Unidos era a potência hegemônica e responsável por grande parte do comércio global. Se voltarmos ao passado, para o tempo que o Reino Unido ainda era a principal economia, veremos que era a libra esterlina que cumpria o papel que hoje cabe ao dólar. Com os EUA perdendo importância econômica, no entanto, é também natural que outras moedas ganhem uma relativa relevância. Trump pode trabalhar para postergar o inevitável, mas, mais cedo ou mais tarde, o dólar deixará de ter um status tão privilegiado na hierarquia das moedas. Para além da tornozeleira eletrônica de Jair, das decisões do ministro Alexandre ou da verborragia do deputado licenciado Eduardo, é isso que está verdadeiramente em jogo nessa querela. Um império econômico vivendo os estertores de sua hegemonia global, e tentando de todas as maneiras manter as armas que tem. Vamos aguardar os próximos capítulos.

Por Arthur Pentagna