Resistência e representatividade: um binômio conservador

Resistencia e representatividade um binomio conservador
Botão Siga o Disparada no Google News

Tenho insistido que o identitarismo é antes de tudo uma corrente de opinião. Ele não tem um centro de propagação e controle, nem intelectuais orgânicos ou uma escola de pensamento única, mas está disseminado como linguagem privilegiada de temas sensíveis nos domínios social, político e moral em nosso país, e é reproduzido pela elite cultural da academia e das comunicações – que costuma achar que elite é apenas um nome feio para xingar os outros. Em essência, o identitarismo é uma miscelânea de termos sonoros e cacoetes comportamentais quase unicamente evocados para produzir palavreado moralizante e influir na conduta alheia, ou denunciar práticas sociais arraigadas, inclusive das instituições. Tais termos nós os ouvimos a todo tempo, como novas etiquetas para aspectos das relações interpessoais: “sororidade”, “empoderamento”, “estrutural”, “desconstrução”, “opressor/oprimido”, “decolonial”, “subalternidade”, “branquitude/negritude”, “eurocentrismo/afrocentrismo”, “epistemicídio”, “lugar de fala” etc. Em jornais, novelas, canais de influencers e romances best sellers encontramos esse vocabulário e dele parece que não podemos mais escapar.

Acontece que, no bojo dessa terminologia, dois termos têm função especial por serem a substância da normatividade identitária: resistência e representatividade. Na atuação intelectual e no ativismo político dos identitários – aquelas pessoas que, conscientemente ou não, reproduzem a língua franca e partilham das premissas difundidas nessa corrente de opinião – tudo o que se quer é almejar ou celebrar resistência e representatividade. Os ideais caros ao debate ideológico do século passado, liberdade e igualdade, foram diluídos nas aspirações por aqueles dois valores, os quais são heranças desgastadas da aspiração pela igualdade então terceirizada como justiça. O ideal da grandeza humana, que deveria substituir a polaridade ideológica de antes, está longe de ser reconhecido por essa elite, para a qual tudo o que apele ao engrandecimento é flerte com discursos de opressão.

Mas qual o horizonte de possibilidades de uma militância e de um pensamento balizados pelo binômio de resistência e representatividade? Aonde ele pode nos levar?

Os identitários pensam que resistir é a forma exitosa da autoafirmação na sociedade contemporânea. Resistir seria, portanto, autorreconhecimento seguido de autoexpressão. Quiçá, um gesto de autenticidade. Mas, quando se pergunta quem está a afirmar-se, um identitário responde ser alguém que não havia se autoafirmado antes. E por que não? Ora, dirá ele: porque outro alguém (pessoa, instituição, ideologia, estrutura, sistema, não importa) impedia essa afirmação. Resistir, portanto, é afirmar-se contra uma presença inibidora.

Se essa afirmação é para impedir a pressão de outro sobre quem resiste, esse ente resistente já existia em sua totalidade antes de se afirmar, só que dependia da oportunidade da afirmação. Os identitários dirão: sim, isso é o que constitui a identidade, que havia sido sufocada, mas que, ao se afirmar, se revela. Ora, como essa identidade é comum a todo um grupo de indivíduos igualmente pressionados e ameaçados pela mesma força opositora e opressora, a resistência é trazida como a afirmação de uma identidade coletiva que precisa se manter em pé, firme, diante das injustiças a que é sujeita. Resistir é, portanto, conservar uma identidade, e qualquer ameaça à integridade da identidade é uma ameaça à existência das pessoas. Por aí se explica os trocadilhos res(x)istir” ou “(r)existir” ou “re(ex)sistência” etc. mais frequentados do que os do tio que pergunta nas festas de fim de ano “é pa-vê ou pa-comê?”

A resistência como valor é um ideal antimudancista. O que se quer é trocar as referências a serem conservadas, inverter chaves, não sujeitar a sociedade à transformação real, pois transformação na vida social não é uma pauta de quem busca uma afirmação enquanto autenticidade. É a substituição dos contextos formativos e organizativos da sociedade por outros, tarefa que só as instituições possibilitam.

É aí que entra o segundo valor, o da representatividade. O que se consegue com isso? A representatividade é tratada pura e exclusivamente como ocupação dos espaços de poder. Obter representatividade é se fazer visto onde antes só se via os grupos de opressão. As identidades, outrora oprimidas, se desoprimiriam diante do acesso de pares ao Parlamento, ao STF, às empresas, às telenovelas, às propagandas, aos palcos etc. Essa libertação homeopática é efeito da comoção temporária pelos assemelhados vitoriosos, que, após o exibicionismo performático da chegada ao ambiente consagrado, que desperta afetos de orgulho, logo é mitigada na aridez da vida prática em que tudo permanece como antes.

O que está explícito no raciocínio de apreço pela representatividade é a consciência de que a vida material das pessoas pode ter seus constrangimentos atenuados ou anestesiados por uma espécie de mágica: as frustrações e inibições da vida concreta são esquecidas face a prosperidade de um semelhante. É isso o que parece se manifestar em gente graúda, da elite intelectual identitária, que ocupa o quadro ministerial do governo e, em combate ao racismo estrutural, palpita sobre a escolha de uma mulher negra para o STF, mas silencia sobre a reforma tributária, domínio em que as estruturas revelam suas entranhas, que a própria equipe que integra está preparando – e que, até aqui, nem chega a ser um remendo, apenas uma simplificação.

Resistência é o compromisso de que as pessoas falem e se orgulhem de sua condição. Representatividade é o compromisso de que as pessoas ocupem posições de destaque na arquitetura do poder e da fama existente. Ambas são garantias de que nada deve mudar, são confirmações do status quo vigente, com o desconto da ampliação de seus partícipes. O truque identitário ao ostentar esses dois valores é esse: conceder às pessoas motivos para se orgulhar de ser quem são, quando deveria equipá-las e ajudar a modificar suas circunstâncias.