Parte da mídia e certos setores que abandonaram a reflexão crítica para fazer propaganda ideológica e ganhar dinheiro com isso tentam vender a ideia de que o governo Milei está recuperando a Argentina se utilizando da queda da inflação (que ainda está alta) como justificativa para isso, mas será que é assim?
A Argentina chegou a ter uma inflação anual de quase 300% e agora está com uma inflação anual em torno de 80%, mas o que eles estão escondendo de você para vender a propaganda ideológica?
A Argentina, por anos, tentou segurar o valor do peso na marra por vários anos, já que é um país altamente dependente de importações e a disparada do dólar implicava em disparada inflacionária, já que o país não tem reservas para estabilizar sua moeda e é altamente dolarizado e é altamente endividado em dólar. Qual era o impacto disso? O valor real do dólar subia no mercado paralelo, mas o governo controlava o câmbio para que isso não afetasse as importações, mas, para fazer isso, o governo precisa gastar suas reservas. E como que faz isso sem reservas? Esse é o grande problema.
Assim que assumiu, Milei soltou os preços, tirou os subsídios e (aqui é muito importante!) desvalorizou o peso, saltando de um patamar de 400 pesos por dólar para 800 pesos por dólar. A partir dessa desvalorização, o Banco Central da Argentina passou a fazer uma desvalorização controlada de 2% ao mês. E qual era o intuito desse processo? Aos poucos, chegar o câmbio oficial na cotação paralela para unificar os dois e acabar com as duas cotações de câmbio, mas ele conseguiu? Não.
O câmbio paralelo chegou a um pico em junho de 2024, acima dos 1500 pesos por dólar, mas depois foi caindo paulatinamente até se aproximar da cotação oficial. Entretanto, a partir de dezembro, a cotação do dólar voltou a subir, oscilando na casa dos 1200 pesos e não sai de lá. Por conta dessa subida, o governo Argentino teve que queimar reservas em dólar, reservas que são negativas se descontarmos o que eles devem em dólar.
E o que acontece agora? Essa política de desvalorização controlada do câmbio oficial ajudou a inflação a cair (junto com a recessão) e agora o governo reduziu o ritmo de desvalorização para 1%, o que dificulta a unificação das duas taxas. Mas a intenção aqui agora é tentar segurar a inflação “na unha” até a eleição de meio de mandato, em que Milei tenta fazer maioria na Câmara.
E qual é a situação da Argentina agora? O câmbio real está se descolando do oficial, o governo está queimando dólar que não tem para não deixar essa distância aumentar e, com isso, está segurando um peso valorizado artificialmente por meros interesses eleitoreiros. Ao mesmo tempo, a conta corrente da Argentina (o que entra e sai de dólares) inverteu e está cada vez mais deficitária, o que é um grande problema nessa situação.

E a dinâmica não tem a menor chance de se inverter pelo simples fato de que as políticas do Milei derrubaram a economia da Argentina e derrubaram especialmente a indústria (capaz de atrair dólar de forma mais sustentável), que caiu 10% em 2024 por conta das medidas do governo.
Enquanto isso, o governo tenta negociar mais um empréstimo ao FMI (a Argentina é o país que mais deve ao FMI no mundo) para tentar empurrar o problema com a barriga e não se ver forçado a desvalorizar o peso e dar calote na dívida externa (mais uma vez).
Em suma, quando o governo soltar o valor do peso (o que vai ser inevitável, mesmo com o empréstimo do FMI), a inflação vai disparar de novo e vamos assistir a um filme mais repetido do que Lagoa Azul na Sessão da Tarde.
E onde ficam os entusiastas? Alguns ainda estão em negação, falando que o déficit em transações correntes é sintoma do sucesso do governo Milei, outros ainda nutrem a fé de que alguma forma a situação vai se inverter.
E como é previsível nesse caso, quando o barco afundar, certamente não vão assumir a responsabilidade pelo entusiasmo que defenderam Milei e sua agenda e vão selecionar alguns elementos da realidade de forma conveniente para justificar que “não deu tempo” ou que Milei “não foi liberal o suficiente”, mais um filme repetido que já vimos algumas vezes.






