Um maço de Dunhill aberto, uma meia encardida, outro maço de Marlboro Light, uma coca cola zero quente. Bolo de coco (ou seria uma torta salgada?), cervejas Spatten começadas, um vinho. Poderia ser uma república estudantil, daquelas que encontramos em qualquer cidade com universidades e jovens de classe média alta sem muito juízo, não fossem os personagens, o Deputado federal mais votado do Brasil e o apresentador líder de audiência há décadas, com seus devidos aspones. O cenário caótico ainda foi valorizado pelo outfit de José Luiz Datena, um dos personagens dessa epopeia: boina de colono, gravata desajustada e a voz rouca de quem não começou a noite na hora que estava sendo filmado. Guilherme Boulos, o outro participante, bebericava uma coca-cola meio sem vontade, enquanto ouvia o apresentador, recém filiado ao PDT, com a complacência dos que concordam sem querer concordar.
Boulos conhece do jogo. Por detrás do “homem do celtinha” existe um político habilidoso, responsável por quase vencer a última eleição municipal de São Paulo, mesmo tendo contra si um moribundo Bruno Covas que, à luz de todos, batalhava pela vida, numa campanha marcada pelo sucesso do “Foco força e fé” – que acabou deixando de legado o pior prefeito da história da capital, Ricardo Nunes. O vídeo que assistimos deixa claro que Guilherme concorda em absoluto com a vocação parasitária do Partido dos Trabalhadores e sabe, que por eles, só será prefeito de São Paulo se tudo der errado. Lula não permite outras lideranças, é de seu feitio.
O acordo que estava sendo discutido é de conhecimento público, em 2024, Boulos deverá ser o candidato unificado do campo progressista, com a chancela do presidente da república e de seu partido. Setores do PT paulistano, responsáveis por uma boa votação de Lula em 2022, se esbofeteiam em busca de minar esse acordo, ou pelo menos, “cristianizá-lo” em troca de apoios aos vereadores petistas na Zona Sul e adjacências. Para além disso, há o medo de Haddad e Padilha em ver Boulos tomando o lugar que ambos buscam incessantemente: a herança de Lula. Mas ao mesmo tempo que tentam cercear o crescimento de Boulos, procuram colocar um pezinho na canoa psolista, caso tudo der errado (e Boulos vencer), ali estarão na foto, para abraçar-lhes à lá Brutus (até eles?). Ana Estella Haddad, acadêmica e esposa do ministro da Fazenda, foi a pré-escalada para a missão. Boulos não gostou, tanto que não se importou de ver um assecla qualquer o filmando em sua casa, justamente enquanto defendia a tese datenesca de que o PT queria-lhe pelas costas.
Jilmar Tattoo, cuja retórica só não é pior que o carisma, deu a solução: Boulos no PT, oras. Quem sabe assim, quando quisesse dar uma opinião, o líder do MTST pensaria em não magoar a família Tattoo e seus interesses no extremo sul da cidade.
Datena, citou Ulysses (política é igual ver nuvem), além de falar em Fidel – fato que já o colocou à esquerda de 99% do progressismo brasileiro, mais preocupado com bobagens identitárias. O vinho à mesa lhe fez bem. Para Boulos, Datena faria o mesmo. Resta saber se o deputado tem a coragem necessária de peitar Lula. Como sabemos a resposta, nos resta apenas apreciar a beleza anarquica da política brasileira, onde a vilania e o heroísmo misturam-se numa orgia macunaímica. Do Brasil Urgente ao MTST, separados por uma penca de cigarros e meias encardidas, sabemos que o que nos une é apenas a vocação alegórica de um ex-país em atividade.






