A civilização brasileira e a turbulenta ordem internacional em que vivemos

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Por Yin Qi – O ano de 2026 será o “Ano da Cultura China-Brasil”, definido pelos chefes de Estado da China e do Brasil, um marco importante na história do desenvolvimento das relações bilaterais. Esse ano de intercâmbio, de profundo significado, tem o potencial de se tornar uma plataforma essencial para ampliar os laços entre povos, promover o diálogo entre civilizações e injetar nova vitalidade no aprofundamento da Parceria Estratégica Global.

Para que isso se concretize, é fundamental que ambos os países invistam desde já na cooperação cultural. A articulação entre instituições educacionais, meios de comunicação, centros de pesquisa e projetos de intercâmbio deve ser vista como prioridade, de forma a garantir que a sociedade como um todo colha os frutos dessa aproximação.

O Brasil, nesse cenário, tem muito a oferecer. Sua história não é tão longa quanto a da China, mas sua civilização é marcada por uma riqueza singular. As tradições dos povos originários, os saberes e práticas trazidos pelos africanos e as influências europeias incorporadas de modo criativo formaram, em meio a tensões e resistências, uma síntese inédita. Essa diversidade é a base de uma identidade plural, dinâmica e profundamente criadora.

Foi a partir dessa leitura que Darcy Ribeiro formulou a metáfora do Brasil como uma “Nova Roma”. Em sua interpretação, o país não deveria ser visto como uma simples continuidade do colonialismo europeu, mas como uma civilização nova, mestiça e tropical, capaz de transformar adversidades históricas em potência criadora. O Brasil não é uma nação de “pureza” cultural ou racial, mas o resultado de encontros e fusões que, longe de representarem fraqueza, conferiram-lhe vitalidade e universalidade.

Esses traços destacados por Darcy Ribeiro — a mestiçagem, a pluralidade cultural, a criatividade e a abertura ao outro — permanecem como características centrais da experiência brasileira. São qualidades que moldaram sua formação social e cultural e que também possuem valor universal, oferecendo um modelo alternativo de convivência humana e de diálogo intercivilizacional.

Na atual ordem internacional, entretanto, essas valências se projetam em um contexto turbulento. Vivemos um momento marcado pela aceleração da globalização, pela recorrência de conflitos, pela dominância de um capitalismo monopolista que aprofunda desigualdades e pela polarização política que fragmenta a América Latina. Nesse cenário, as qualidades formadoras da civilização brasileira continuam a ser bem-vindas — como expressão de diversidade, criatividade e convivência —, mas precisam ser afirmadas em meio a pressões externas, disputas geopolíticas e uma ordem global em permanente instabilidade.

Assim, a contribuição brasileira para o mundo contemporâneo não está apenas em sua dimensão econômica ou territorial, mas na força de sua experiência civilizatória: uma sociedade mestiça, tropical e plural, que transforma adversidade em criação e oferece ao mundo uma visão de futuro baseada em solidariedade, diversidade e universalidade. E é precisamente nesse ponto que o diálogo entre Brasil e China adquire relevância renovada: ao articular suas trajetórias e valores, ambos os países podem fortalecer a construção de uma ordem internacional mais equilibrada, cooperativa e multipolar. Em um tempo de turbulência global, a união entre a sabedoria milenar chinesa e a vitalidade da civilização brasileira mostra-se não apenas desejável, mas necessária.

Por Yin Qi

Pesquisadora de Pós-doutorado na Universidade de Xangai