Ciro Gomes e as rachaduras da barragem

Ciro Gomes e as rachaduras da barragem
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Ciro Gomes inaugurou nova fase de sua pré-campanha nesta quarta-feira, em Fortaleza, com um discurso profundo de crítica ao pacto entre a política corrupta do ex-presidente Lula e do atual presidente Bolsonaro com o sistema financeiro, que domina a economia brasileira desde o governo de Fernando Henrique Cardoso.

O discurso de Ciro acontece na capital do Ceará, onde ele foi o prefeito e depois o governador mais bem avaliado do país, em um seminário de seu partido com o tema: “O PDT Sabe Fazer”. Ao longo do dia, diversos gestores públicos apresentaram suas experiências bem sucedidas, demonstrando um acúmulo de expertise e espírito público concentrados no partido herdeiro de Getúlio Vargas e fundado por Leonel Brizola.

O evento gera um contraste gritante entre a soma de competência e honestidade do projeto político liderado pelos correligionários de Ciro contra a degeneração acelerada do sistema político brasileiro, submetido à hegemonia do capital financeiro e da corrupção.

A crítica de Ciro Gomes a Lula e Bolsonaro se desdobra em diversas denúncias concretas e detalhadas, mas não se trata de mera acusação e, sim, de uma crítica radical das duas estruturas fundamentais da vida humana: a economia e o poder. Essas estruturas hoje estão capturadas pela falsa polarização entre Lula e Bolsonaro, os presidentes que se arrogaram transformadores “de tudo que aí está”, e mantiveram absolutamente todos os pilares estruturantes que organizam a vida do povo brasileiro na miséria.

Na metáfora perspicaz de João Santana, Lula e Bolsonaro sustentam uma barragem toda rachada por mentiras, que mantém preso o eleitorado que ainda não enxerga alternativa ao marasmo da água parada da repetição de um passado pouco diferente que gerou as ruínas do presente. A voz de Ciro bate forte em cada rachadura e aposta que, quando o povo tiver a oportunidade de olhar para a barragem durante o processo eleitoral, vai começar a bater junto até ela romper.

Essa tem sido a toada dos belos discursos de Ciro Gomes e sua campanha. Sempre buscando gerar um sentimento de esperança no povo de que apesar das mentiras daqueles que fingem que vão mudar “tudo que aí está”, existe sim alternativa. Uma das primeiras belas peças da campanha dizia “Prefiro Ciro”, justamente para mostrar que apesar das opções restritas impostas pelos poderosos do Brasil, é possível desejar algo melhor. Depois veio a síntese poética da Rebeldia da Esperança que condensa o sentimento de indignação com o presente e a projeção de um futuro melhor. E, agora, a metáfora sobre o obstáculo a ser enfrentado, a barragem da falsa polarização que busca represar os impulsos do povo brasileiro de se movimentar em alta velocidade, como um rio descendo morro abaixo em direção ao oceano de possibilidades de uma nação gigante como o Brasil.

Na economia, tanto Lula como Bolsonaro governaram sob hegemonia do capital financeiro e submeteram o Estado aos juros mais altos do mundo com políticas sociais compensatórias para os miseráveis. Bolsonaro, inclusive, até aumentou os valores dessas políticas assistenciais do Consenso de Washington, mas a crise econômica estrutural causada pela desindustrialização aprofundada por Lula e Dilma simplesmente destrói qualquer sopro de bem-estar social.

No poder, tanto Lula como Bolsonaro governaram comprando votos no Congresso Nacional seja com dinheiro roubado, seja com a distribuição do orçamento federal sem qualquer critério que não a chantagem pura e simples. Nem Lula e nem Bolsonaro nunca negociaram projetos de interesse nacional ou popular com o Congresso Nacional, somente negociaram dinheiro, cargos e privilégios.

O projeto de Ciro Gomes e do PDT de Leonel Brizola é apresentado em diversas propostas concretas e detalhadas, mas não se trata de mera carta de intenções ou um manual de gestão pública, e sim de uma síntese radical e ambiciosa do que o Brasil pode ser.

O Projeto Nacional de Desenvolvimento de Ciro Gomes enfrenta justamente os problemas estruturais da economia e do poder no Brasil.

Na economia, o projeto de Ciro é um enfrentamento aberto com os interesses do capital financeiro que parasita o Estado brasileiro sem produzir nenhuma mercadoria, nenhum emprego e nenhuma renda. Ciro defende a implementação de reformas institucionais que estimulem a produção de mercadoriais de alto valor agregado, a geração de empregos qualificados com alta remuneração e a consequente multiplicação da renda nacional. Entre as muitas e detalhadas reformas propostas por Ciro, está a reorganização das finanças públicas com uma política de juros compatível com o investimento produtivo, um câmbio competitivo para exportações equilibrado com a necessidade importações para viabilizar uma política econômica intensamente industrializante com direitos sociais, incluindo uma previdência justa e sustentável sem privilégios para corporações poderosas, mas, principalmente, muito investimento em saúde e educação pública.

Como exemplos concretos, Ciro aponta a centralidade dos investimentos nos complexos industriais de saúde; petróleo e gás; agricultura e pecuária; e Defesa; como pontos de partida para retomada do crescimento econômico e da industrialização com compras públicas e financiamentos de longo prazo. Esses quatro complexos industriais não são arbitrários, mas cientificamente escolhidos de acordo com critérios imanentes de soberania nacional como energia e Defesa, ou critérios históricos como a produção de alimentos tendo em vista que o Brasil é uma potência agropecuária, ou critérios sociais como saúde, devido a sensibilidade da questão sanitária e o próprio pioneirismo constitucional do Brasil na institucionalização do SUS, que é um legado para toda a humanidade como exemplo de imposição da saúde como direito universal.

Além disso, esse projeto não está no campo das ideiais utópicas. Ciro apresenta inovações e propostas inéditas baseadas em uma análise crítica do mundo contemporâneo pós-Quarta ou Quinta Revolução industrial com a chegada da internet de altíssima velocidade, nanotecnologias, inteligências artificiais etc. A criação de um ecossistema de inovações tecnológicas e integração digital da sociedade brasileira, a exemplo do que fazem os Estados-nacionais de EUA, Alemanha e China, é uma prioridade estratégica nas propostas de Ciro. Ele apresenta a potencialidade viável de um projeto ambicioso como esse com base no exemplo da experiência histórica de uma nação que se industrializou em alta velocidade e produziu sólidos direitos sociais no século XX, somado ao exemplo da experiência pessoal do ex-governador que acabou com as dívidas do seu estado, produziu saúde e educação pública inéditas para seu povo; como Ministro da Fazenda ajudou a encerrar a hiperinflação no Brasil; e como Ministro da Integração Nacional viabilizou a transposição do Rio São Francisco para levar água para os nordestinos que sofriam com a seca.

No poder, Ciro foi um dos homens públicos de maior sucesso da história do Brasil sem nunca ter sido acusado de nada, combateu a corrupção incansavelmente seja como governo ou como oposição, mas mais importante que isso, ele tem propostas concretas de como é possível governar sem se corromper. Ciro propõe negociar com o Congresso Nacional, com os governadores de estado, com os prefeitos, mas com base em projetos. O orçamento federal não pode ser objeto de chantagem e, sim, de distribuição equilibrada em um novo pacto federativo para realização de obras públicas organizadas em um projeto com sentido, meio e fim. Os governadores e prefeitos devem cumprir metas de investimentos com os recursos federais em troca de rengociação de suas dívidas, e as bancadas partidárias devem cumprir acordos políticos claros e transparentes para realizar as reformas legislativas necessárias ao país e lideradas pela Presidência da República. Ao contrário da compra de votos fisiológica praticada por Lula, Bolsonaro e FHC em troca de reeleições, Ciro abre mão de se reeleger se o Congresso Nacional e os partidos políticos do Brasil aceitarem transformar o Estado para criar instituições fortes, equilibradas e efetivamente democráticas, no sentido de organizar uma economia de desenvolvimento e direitos sociais.

Recentemente algum crítico lulista mas simpático a Ciro o elogiou pela trajetória firme e ideias profundas em defesa do Brasil, porém lamentou que o cearense “luta contra a história”. Segundo esse ‘lamento’, o “tempo histórico é de Lula”, e por isso, Ciro deveria capitular à hegemonia do petista. O que escapa a esse lulista simpático é que a história não anda pra trás, e a única certeza do espírito da história é o rompimento cíclico com os ‘tempos históricos’. O ciclo ou o espírito do tempo de Lula não está no seu começo, e muito menos em seu auge, pelo contrário, só resta o abismo para o lulismo. Os tempos históricos quando chegam ao fim são rompidos justamente por aqueles espíritos rebeldes que não se encaixam no estado das coisas naquele momento.

Foram os espíritos rebeldes de José Bonifácio e Dom Pedro I que tornaram o Brasil um Império soberano, a rebeldia dos escravos e dos abolicionistas que encerraram a escravidão e pariram a República, e foi o espírito rebelde de Getúlio Vargas que construiu uma nação industrial com ascensão social, todos contra o ‘tempo histórico’ da colônia, da escravidão, da aristocracia e da dependência econômica às potências estrangeiras.

Realmente este não é o tempo histórico de Ciro Gomes. Ele passou as últimas três décadas se debatendo por dentro da hegemonia do neoliberalismo de FHC, Lula e Bolsonaro em busca de demostrar com sua contribuição regional no Ceará que existe alternativa a esse tempo histórico que esmaga o espírito de esperança do povo. É contra este tempo histórico subalterno e corruptor de espíritos que Ciro Gomes se insurge.

Ao contrário dos presidentes que se corromperam e fogem dos debates, Ciro Gomes tem ideias, exemplo e militância histórica para levar a cabo o que promete. Por isso, o brutal esforço para retirá-lo da disputa e calar sua boca.

A força da verdade das palavras de Ciro realmente é disruptiva contra este tempo histórico e ameaça romper a barragem de mentiras que mantém o eleitorado afogado na água parada e suja da corrupção política e da pobreza econômica. A mera presença de Ciro Gomes nessa campanha eleitoral pode expor as rachaduras dessa barragem e fazer a água de esperança correr rio abaixo, purificando os espíritos corrompidos por este mesmo tempo histórico.