Chapa Lula-Alckmin é o sonho de Bolsonaro

Chapa Lula Alckmin é o sonho de Bolsonaro
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Pensando puramente em interesses partidários, não é preciso ser muito sagaz para concluir que uma chapa Lula-Alckmin serviria muito mais ao PSDB do que ao PT. O primeiro partido foi o que mais sofreu com a perda de base eleitoral para o lava-jatismo e o bolsonarismo (orientações ele havia estimulado enquanto oposição ao petismo) e hoje virou uma espécie de partido regional, o antigo Partido Republicano Paulista da República Velha (inclusive o ideário e o programa são parecidos, eu provocaria). Fora de São Paulo, o PSDB é uma espécie de PP ou PSD, um partido qualquer que sempre vota com o governo. Voltar à presidência, embalado na popularidade de seu ex-arqui-inimigo, após experiência de quase morte seria um feito e tanto.

Em termos de votos, bem… não é à toa que Alckmin era chamado de “picolé de chuchu”, né? Carisma e sintonia com o povo não são exatamente suas qualidades. Fora de São Paulo — e mesmo isto é duvidoso, já que boa parte de seus votos decorria ou do anti-petismo, hoje absorvidos por Bolsonaro ou Moro, ou do uso inteligente e ultra-pragmático da máquina pública, aliada a uma imprensa simpática — é provável que Alckmin cause mais rejeição do que atração. Após sustentar o maior fiasco popular da história brasileira — o governo Temer –, sofreu com as consequências, sendo protagonista de um grande fracasso eleitoral em 2018, além de ter abençoado a nação com o batismo político de tipos como João Dória e Ricardo Salles.

Pensando politicamente de forma menos estreita e eleitoral, o significado político da aliança seria consolidar em uma única candidatura um emblema do Estado surgido do pós-ditadura. A candidatura do sistema político e econômico da Sexta República, simbolizando, de um lado, “sensibilidade social” de Lula com “responsabilidade fiscal e reformas privatizantes e pró-mercado”, do lado do tucanismo. A mistura que Marina Silva tentava incorporar, basicamente.

Três problemas.

Primeiro: a erosão do Estado saído da Constituição de 1988 não surgiu milagrosamente com Bolsonaro, mas da combinação entre crise econômica e não aceitação do resultado eleitoral de 2014 (não esqueçamos que movimentos golpistas comandados pelos tucanos foram empreendidos desde a primeira hora em que perderam a eleição de 2014). O ódio à política e o reacionarismo nostálgico à ditadura militar ganharam contorno de expressão de massas nas manifestações de 2015 e 2016 ou na perseguição e prisão do Lula — a coisa era tão naturalizada que Alckmin declarou, após um ônibus da caravana de Lula receber tiros de armas de fogo, que o líder petista estava apenas colhendo o que plantou.

Pode-se argumentar que o PSDB fez uma reavaliação de seu passado recente. Ocorre que, fora o relativamente autônomo Tasso Jereissati, alguma auto-crítica só foi esboçada por alguns de seus intelectuais, jornalistas e quadros do Estado permanente (como Reinaldo Azevedo e Gilmar Mendes, que sempre deve ser lido como agente político). Seus quadros atuais — principalmente se considerarmos o grosso dos governadores, deputados, prefeitos importantes, etc. — não parecem ter reavaliado esta política.

Mas há outro motivo mais crucial: uma chapa simbolizando o Estado brasileiro oficial pré-Bolsonaro é o prato cheio para qualquer demagogo tentando se passar por anti-sistema, contra os marajás, etc. Excelente para Moro e para Bolsonaro, já que, por mais bizarro que pareça, este último ainda continua usando esta cartada como forma de posar de radical para sua claque.

Finalmente, o argumento central: “responsabilidade fiscal” — no modo austericida como este sintagma é geralmente compreendido– e “reformas pró-mercado” significam compromisso com dogmas políticos que estão entre os prinicipais responsáveis pelo mal-estar popular alimentado desde 2015, com o segundo governo Dilma, mas também com Temer e Bolsonaro. A falta de popularidade destes governos, a desmoralização política frente ao povo por parte das elites políticas, não pode ser separada do compromisso com “teto de gastos”, desestímulo ao mercado interno e ao mercado de trabalho, políticas de corte de gasto público e desmantelamento de empresas e serviços públicos.

Apenas dois exemplos: o encarecimento do custo do combustível e do gás de cozinha por trás da rejeição de Bolsonaro é incompreensível se não analisarmos o que vem sendo praticado com a Petrobrás desde a gestão do tucano Pedro Parente, com privatização ou mal uso de suas empresas e preços alinhados rigorosamente com o mercado internacional. O fim do auxílio emergencial, o que impediu uma política de isolamento social eficaz e também gerou grande perda de popularidade para Bolsonaro, foi pressão de todos os economistas queridinhos do PSDB, em defesa das contas públicas.

Um governo resultado das eleições de 2022 simbolizando oficialmente a política brasileira de 1994-2016, fortemente vulnerável ao descontentamento popular — ainda mais após o entusiasmo gerado pelas promessas de acabar com o legado de Bolsonaro –, por conta de estar amarrado aos compromissos da agenda pró-mercado (melhor dizendo, pró-burguesia financeira), seria o presente que Bolsonaro ou qualquer outro candidato a representar o fascismo brasileiro pedira à Deus, pavimentando o caminho para uma desmoralização ainda mais grave da democracia, capaz de dar vida longa e potência política à extrema-direita brasileira.