Brasil no Oscar: Fogos, folia e ilusão

Brasil no Oscar Fogos folia e ilusao
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Ainda Estou Aqui venceu o Oscar, numa alegria extasiante que poucas vezes vimos. O Brasil vibrou: Olodum na Bahia, fogos de artifício, fluidos de carnaval e adjacências. O Brasil que deu – e dá – certo, a folia anárquica que nunca decepciona.

O filme é bonito. Película de ator. Feito sob medida para a interpretação primorosa de Fernanda Torres, a popstar do momento. O estilo é arrastado, enfadonho. O cinema de Salles tem essa cadência, desde o sofrível “Diários de Motocicleta” ao primoroso “Central do Brasil”.

O Oscar de filme internacional tem por mérito premiar a indústria do país. Os coreanos investiram e hoje são respeitados mundo afora por obras consistentes.

Não há esperança por essas bandas. Margareth Menezes e seu ministério até agora não mostraram a que vieram. Os editais públicos sofrem dos mesmos vícios, as produções são sofríveis e quase sempre pautadas em identitarismos, que são consumidos pelos mesmos que produzem, numa autofagia de identidades e fulanizações.

Cinema é uma arte cara. Não há exemplo algum no mundo de indústria cinematográfica que não tenha passado por investimento público direto. Nada de Rouanet ou Lei do Audiovisual. Além disso, distribuir dinheiro não é sinal de sucesso. Há de se ter parâmetros de qualidade e temas prioritários, uma indústria que vise nicho, que atinja o objetivo de dar esperança aos cineastas do Brasil – e não só aos que são herdeiros do Itaú.

Josias Teófilo e Newton Cannito lançaram um manifesto AntiWoke, com uma boa repercussão nas mídias e muita porradaria, como era de se esperar. Newton é um dos grandes roteiristas deste país, além de ter sido diretor de audiovisual do MinC. Josias, confessadamente conservador, fez o ótimo Nem Tudo Se Desfaz. Meio carola demais para um incurável bolchevique como este que vos fala, mas sofisticado. O problema é: a quem recorrer? Cultura não dá voto. Os que mais fazem pela música, por exemplo, são os deputados ex-oficiais, muitos advindos das orquestras de milico – aquelas que tocam versões de Imagine, do John Lennon, enquanto o saxofonista, meia hora antes, espancava algum desavisado por aí.

O louvável voluntarismo dos cineastas esbarra na incapacidade do campo nacionalista e da direita conservadora em falar de arte sem os chavões “tem que distribuir renda” ou o contrário “não tem que ter dinheiro público”.

Além disso, temos o problema estético. A arte como ente livre e desprendida só serve para hippies. Há método, há técnica e há objetivos. Qual é o modelo de cultura que queremos? Quem somos nós?

Por enquanto, só sabemos o de sempre: o dinheiro dos editais vai para as mesmas mãos, pelos mesmos motivos, e será consumido pelas mesmas dúzias de vencedores. Lava, passa e cozinha. Ou quase.

O mercado editorial brasileiro (sim, ainda existe) ganhou um reforço de peso. A Cosac (antiga Cosac Naify) voltou, com suas conhecidas edições incríveis. Seu proprietário, Charles Cosac, deu duas entrevistas antológicas, sem pagar pedágio pra ninguém. É um cara rico, sofisticado e que torra a própria grana fazendo coisas belas. Qualquer semelhança com Salles não é mera coincidência. Só que os juros do cineasta são mais caros. O cinema é uma arte cara, afinal.