Por Newton Cannito – 2022 não aconteceu. As comemorações dos 200 anos da Independência foram dominadas pela historiografia woke que, como sabemos, é contra a nação e se dedicou a esculhambar com nossa história. Um grande exemplo disso é o filme “A viagem de Pedro”, da cineasta woke Laís Bodansky. Apenas agora, 4 anos depois, o Brasil começa a criticar a ditadura woke e começam a surgir respostas à ditadura cultural que domina nossa cultura há décadas. O livro D. Pedro I: Caudilho do Brasil, é o maior exemplo disso. Comparar as duas obras ajuda a entender como o woke é uma ideologia usada para destruir a nação.
Antes vale lembrar. Em 1922, nos 100 anos da Independência, tivemos a semana de arte moderna, uma comemoração a altura e que discutia nossa nacionalidade. Mas a comemoração dos 200 anos foi apenas de revisionismos dedicados a destruir a memória de nossos heróis, julgando nossos antepassados a partir dos dias de hoje e se concentrando em detalhes da pauta atual, mostrando o “racismo estrutural” de D. Pedro I ou discutindo se Mário de Andrade pode ser perdoado por ser gay e mulato. Mas Mário – além de “possível gay” e levemente mulato – foi um grande escritor e um grande pesquisador de nossa cultura. Podia ser branco e rico – como Oswald – que sua obra ainda seria maior que sua pessoa. Mas a seita woke é isso: só julga as pessoas pelo corpo, não pelas obras.
O livro de Aldo vai no caminho contrário e não tem medo de construir um herói e recuperar o mito de Dom Pedro:
“Conduzia na alma as utopias impossíveis dos santos, a fé inabalável dos profetas e a confiança temerária dos guerreiros… Ele foi D. Pedro I, o criador do Brasil”.
Logo na introdução do livro, Aldo fez seu manifesto historiográfico e ataca os wokes sem meias palavras:
“A história é, em nossos dias, uma disciplina maltratada, distorcida e falsificada no Brasil – com honrosas exceções – pelo identitarismo, essa seita moderna de misantropos, autoritária e arrogante”
O filme “A Viagem de Pedro” é exatamente um exemplo disso. D. Pedro é um general sem derrotas, um herói indiscutível que foi imperador do Brasil e rei de Portugal e deixou as duas nações para um filho e uma filha que foram ótimos governantes. Dona Maria I ficou conhecida pela história como “A educadora” e a “Boa mãe”. Dom Pedro II foi um dos grandes líderes da humanidade. Esses foram os resultados da curta vida de Dom Pedro, o que ele lutou para conquistar.
Mas Laís – a cineasta woke – foca na viagem dele de volta a Portugal, no momento que abdicou do Império Brasileiro e ainda não sabia como seria sua aventura para recuperar seu trono em Portugal. Ou seja, no momento mais próximo de um fracasso. No entanto, o curioso é que ele – contra todas as previsões e com exército muito menor – acabou vencendo a Guerra contra seu irmão em Portugal!!!
Mas o filme não fala de vitórias e opta por construir uma lista de fraquezas de D. Pedro I. A cineasta constrói um personagem mau humorado, agressivo com a esposa, tendo ataques de epilepsia e sífilis (que, aliás, é questionada por estudos mais recentes*), broxa e incapaz de causar um orgasmo nas mulheres. Aliás, botar ele com sífilis indo transar com a esposa é, nitidamente, para chocar as mulheres.
Ou seja, o filme da cineasta woke é uma Revista Caras da história.
Eu também gosto de história do cotidiano, mas a boa história do cotidiano se relaciona com a história geral e é mais antropológica: não julga o passado por valores presentes. A Revista Caras dos wokes é outra coisa. Ela não retrata a época, ela usa a época para fazer lacrações a partir das recentes teorias woke.
O recorte, como toda estética woke, foca no corpo: no fato de ser homem e branco. E inventa situações para encaixar seus temas. Uma escrava fala que homens têm que aprender a fazer as mulheres gozar. E – na versão woke da vida de Dom Pedro – ele fracassa até nisso. Bem, não sou contra discutir intimidades de imperadores. “Os Borgia” fez uma boa série misturando sexo e politica. É uma possibilidade. Mas historicamente, é muito difícil insinuar ele ser impotente, diante da quantidade de amores que teve. E falando de conquista, o fato é que todas as mulheres de Dom Pedro eram muito apaixonadas por ele. As cartas dele com a Marquesa de Santos são notórias de erotismo. Já as cartas da recatada Leopoldina para a irmã relatam como ela, mesmo ficando surpresa por ele não ser o intelectual que tinham dito que era, conseguia diverti-la muito. Eles, por um tempo, foram um casal muito apaixonado.
Falando de vida privada, Dom Pedro pode ser acusado de tudo: menos de não ser divertido e saber entreter os amigos e as mulheres. Outro fato importante: ele teve muitas mulheres, mas diferente de outros monarcas da época, Dom Pedro I não escondia totalmente suas relações extraconjugais e fazia questão de que seus filhos “naturais” tivessem uma criação digna de sua linhagem. Ele inclusive reconheceu em vida inúmeros bastardos, algo inédito.
Desatenta aos fatos históricos, a cineasta constrói um homem mau humorado, rancoroso, assediador e ruim de cama. Tudo para encaixar no filme a tese de machismo estrutural.
No livro de Aldo Rebelo, o autor não oculta a maldade que Dom Pedro fez com a Imperatriz Leopoldina, ao se apaixonar pela Marquesa de Santos e trazê-la para morar na corte. Aldo admite que esse ato levou Leopoldina à depressão e morte prematura, para tristeza de Dom Pedro e de toda a nação.
Mas Aldo também revela como Dom Pedro respeitava a voz e a opinião de Leopoldina. Ela foi fundamental em toda articulação da independência e Aldo destaca em seu livro a famosa carta dela em 2 de setembro, incitando Dom Pedro a proclamar a independência. A Marquesa de Santos também teve muita influência no governo. Em oposição a todas essas evidências do quanto o Imperador ouvia mulheres, a cineasta woke cria uma cena onde a nova esposa de Dom Pedro – Amélia – tenta dar um conselho político para Dom Pedro e ele a corta com violência. No manual woke que costuma acompanhar a dramaturgia palestrinha desse tipo de filme pregador, isso se chama Manterruping. Tudo para provar o “machismo estrutural” do imperador. Novamente, sem evidências histórica alguma. Isso não é releitura histórica, é fake news e difamação.
Outro exemplo, agora para falar de racismo: o filme mostra uma cena onde Dom Pedro observa pela primeira vez um ritual africano. Mas ela constrói a cena mostrando uma suposta distância de Dom Pedro com aquele universo. Na verdade, desde que chegou ao Brasil, Pedro se notabilizou por andar pelas ruas e se misturar nas festas populares, inclusive com os “lundus” africanos. Ele chegou, inclusive, a compor lundus e modinhas, pois era um ótimo compositor. Em oposição à versão woke, Aldo retrata isso no capítulo Dom Pedro, um brasileiro:
“Em terras brasileiras, o jovem príncipe assimilou rapidamente a mobilidade indígena e a sensualidade africana. Era presença quase obrigatória nas rodas de lundus no Rio de Janeiro, na companhia de seu amigo Chalaça, e, mesmo depois de casado, chegou a apresentar a lasciva dança de origem africana a sua esposa, Dona Leopoldina, o que deixou horrorizada a pudica e carola princesinha austríaca”.
Se a cineasta woke quisesse fazer uma cena mais fidedigna a historiografia da vida privada de Dom Pedro poderia ter imaginado ele cantando músicas populares com os escravos no porão do navio. Mas aí, o filme não serviria para a tese do “racismo estrutural”, tão comum aos wokes. E dessa forma que toda história é transformada para se encaixar nas ideologias wokes atuais.
E para concluir essa análise é preciso dizer: o filme é chato pacas. “Carlota Joaquina” também difamava heróis nacionais mas, ao menos, era uma comédia divertida. Já “A Viagem de Pedro” é uma sucessão de cenas com um homem chato e doente preso em um navio e maltratando a esposa. Não tem nem suspense, nem aventura, nem comédia, nem nada. É só uma crônica chata da depressão woke e até por isso foi, obviamente, outro fracasso woke de público. Em outro ensaio chamei a ideologia woke de “Chatismo Estrutural” e afirmei: “o woke é uma seita chatânica!”. Esse filme prova isso.
O livro de Aldo é o oposto completo dessa chatice e falta de grandeza da história woke. Logo no início ele cita uma frase do grande historiador Duby:
“Herói é uma projeção idealizada daquilo que uma sociedade considera ser a virtude”, George Duby.
Aldo opta por uma biografia que mostra como Dom Pedro foi o criador do Brasil. Para isso ele começa na grandeza mitológica portuguesa. Um dos primeiros capítulos é “D. Pedro, o Quinto Império e o Sebastianismo”, fundamental para entender a mentalidade de um monarca português da época! Sim. Pois todas as pessoas, sejam líderes ou pessoas comuns, têm além de uma vida sexual e conjugal, uma vida espiritual, algo renegado pela seita materialista woke. As pessoas têm sonhos e projetos que vêm de sua cultura. Para entender a grandiosidade da obra de Dom Pedro é importante entender a mentalidade portuguesa. Padre Vieira, o grande profeta do V Império afirmou em História do Futuro:
“Ouvirá o mundo o que nunca viu, lerá o que nunca ouviu, admirará o que nunca leu e pasmará assombrado o que nunca imaginou”.
Era esse o horizonte mítico da mentalidade portuguesa, a mesma que permitiu que um pequeno país fizesse as grandes navegações, o primeiro império global e tudo a partir de uma vocação espiritual. E essa é a base da criação do Brasil!
Aldo também acerta em positivar o termo Caudilho e cita a definição de Gilberto Freyre para Dom Pedro: “O Caudilho dos Caudilhos”.
Foi a coragem de ser um líder que organizou outros caudilhos regionais que possibilitou que o Brasil se transformasse nessa grande nação que, além do imenso território, consegue ter unidade linguística. Em contraposição à América Espanhola que se fragmentou em várias pequenas repúblicas muito mais fáceis de serem dominadas pelas potências e, consequentemente, mais empobrecidas.
Nos dias de hoje é comum intelectuais de esquerda a serviço de Ongs estrangeiras defenderem publicamente a divisão do Brasil em várias nações, lutando explicitamente contra a unidade nacional. Muitos jovens nas universidades consideram a grandeza do Brasil apenas uma forma de opressão. E, nesse sentido, Dom Pedro – o herói da unidade – seria realmente um vilão. Bem, nesse caso é difícil até conversar. Se você acha ruim ser uma grande nação, boa sorte: continue atuando como agente imperialista e se achando decolonial.
Aldo também não cai em purismos. Se fosse escolher um único momento para narrar a vida de Dom Pedro, Aldo escolheria entre fevereiro e abril de 1821. Foi o momento que o jovem príncipe, que até então era um músico e bon-vivant, assumiu com coragem o papel de líder de uma nação. Em 21 de abril, uma assembleia para escolha de representantes virou afronta direta ao Rei. Dom Pedro, nesse momento, tomou a decisão de reprimir com violência, sem sequer consultar o pai.
“A violência cobrou um desgaste do príncipe. O lugar onde ocorreu a repressão, a Praça do Comércio, ficou conhecida como Açougue dos Braganças, mas a liderança do príncipe tornou-se incontestável. ‘Com Dom Pedro, não se brinca’, era o que se dizia na época”.
E claro que, idealmente, existiria zero violência. Mas qualquer pessoa adulta sabe que a paz é uma conquista e homens de guerra. Saber usar a força na hora exata é um mérito de grandes líderes que, com isso, conseguem inclusive reduzir a violência do processo. O fato é que o processo de independência brasileiro conduzido por Dom Pedro I, Bonifácio e Leopoldina teve suas guerras e heroísmos, é claro. Mas foi um dos mais pacíficos da humanidade.
Como estrategista político e estadista que é, Aldo recupera o melhor do período do I Reinado. As grandes batalhas e as estratégias diplomáticas. O livro relata, no fundo, o nascimento da Nação Brasileira!
Reconhecer o heroísmo de Dom Pedro, no entanto, não significa retirar a importância da participação do povo. Aldo se contrapôs a historiografia woke que em 2022 espalhou a mentira de que a Independência foi um processo apenas das elites. Afinal, as elites defendiam Portugal. E, ao contrário da visão esquerdista que tudo separa, a independência mostra como a burguesia e o povo brasileiro se uniram para libertar o Brasil. O livro de Aldo dedica vários capítulos a mostrar como a liderança da tríade D. Pedro I, Bonifácio e Leopoldina catalisou um movimento de base popular e muitos líderes populares, como Maria Quitéria e Joana Angélica.
Outra coisa interessante do livro de Aldo é que, em momentos decisivos ele cita trechos com ótima construção literária de outros historiadores clássicos como Pedro Calmon, Isabel Lustosa, Eugénio Santos, entre outros. E o livro é também uma aula de como a arte pode ajudar a construir uma nação. Aldo cita inúmeros poetas e escritores – como Chico Buarque, e João Cabral – e o livro é lindamente ilustrado, sendo uma leitura completa, com imagens e textos que nos despertam a imaginação da época.
Ler o novo livro de Aldo é uma forma de sentir o renascimento da nação brasileira, que vem sendo sistematicamente destruída há décadas. Ler Aldo Rebelo é um hino à nossa linda nação é um antídoto à pandemia de wokismo que dominou a historiografia brasileira.
Por Newton Cannito
*Dom Pedro I morreu de tuberculose, e não de sífilis, indicam pesquisas






