Por Eric Porto Moreno – Não é segredo de Estado e nem de difícil percepção a dificuldade de Lula e Celso Amorim, principais nomes da política externa brasileira no atual governo, de se situar diante do atual cenário global. Se durante os governos I e II do presidente petista o mundo experimentava o auge da unipolaridade estadunidense, uma forte ênfase do multilateralismo e uma ampliação das agendas de comércio e globalização, hoje ambos se deparam com uma realidade completamente diferente da anterior. No entanto, diferente do sistema internacional, Lula e Celso Amorim não mudaram.
Nos últimos anos, o multilateralismo tal qual conhecemos se enfraqueceu e encontrou dificuldades de resolver os problemas políticos e econômicos que travam a agenda global.
O ressurgimento da Rússia como potência em termos de hard power, a consolidação da China como grande player internacional no comércio e na economia global, o fortalecimento econômicos de países do Oriente Médio e Ásia e o BRICS desafiando o status quo da ordem liberal ainda vigente alteraram significativamente a dinâmica de poder no mundo. Apesar de ainda presente, o multilateralismo se consolidou como aquilo que sempre se propôs a ser: um meio para um fim, e não uma finalidade. O que alimenta as relações internacionais, mais do que nunca, é a busca incessante dos Estados por mais poder, seja ele militar ou econômico. Potências buscando impôr ou recuperar sua influência global e emergentes buscando mais espaço de atuação e relevância. Diante desse cenário de enfraquecimento do multilateralismo, a diplomacia é – ou deveria ser – usada como um meio para alcançar acordos vantajosos para o interesse nacional de cada país. No entanto, ao olharmos para o caso do Brasil, observamos dois grandes dilemas. Primeiro, uma grande dependência do multilateralismo para se projetar internacionalmente diante de um cenário no qual o mesmo se faz pouco efetivo. Assim, não nos resta muitas opções senão pautar na arena internacional uma reforma desse atual sistema multilateral tão desigual e ineficiente para aqueles que não fazem parte do seleto grupo de grandes potências. Portanto, fica o grande questionamento: como se projetar para além do multilateralismo? Por outro lado, vemos o Brasil como o “bom moço”, o país que segue as regras do jogo, muitas vezes adotando uma política externa que visa ser representativa de nossa tradição diplomática pacífica e pró-diálogo porém sem olhar para as necessidades de utilizar a diplomacia visando ganho concretos para o nosso desenvolvimento. Ou seja, se trata de política externa muito representativa, porém pouco objetiva.
O que se observa no atual governo, a partir de sua atuação em fóruns multilaterais que presidiu, como G20 e BRICS, é a continuidade da tradicional diplomacia brasileira de buscar meios pacíficos para resolução de conflitos, pautar questões de interesse para países do Sul Global e lutar por um sistema multilateral mais equilibrado. Nada de errado até aqui. A questão se torna complexa a partir do momento que a preocupação é única e exclusivamente voltada para tentativa de recuperar e reformar o sistema multilateral, sem se atentar para as necessidades básicas de um Estado – ainda mais se falando de um Estado do tamanho e potencialidade do Brasil : a busca por poder, cada vez mais associado no atual cenário à relevância econômica e militar.
Para responder à pergunta de como sair dessa dependência que o Brasil possui de se projetar por meio do multilateralismo, é impossível não inserir na equação a construção de um projeto político estratégico nacional que dê vida, significado e objetividade à política externa. Sem isso, a diplomacia se torna um mero instrumento de representatividade pouco objetivo em contribuir para os anseios da população brasileira. E é exatamente isso que toma conta da política externa hoje: muitos acenos, aproximação pela aproximação e reafirmação da tradição diplomática. Nada além disso. Quais os benefícios foram trazidos pro desenvolvimento nacional com a participação de Lula nas cúpulas do G7? O que se ganha com a “fanfic” criada que insinua que Lula e Macron vivem um “bromance”? O que se ganha com o aprofundamento de uma lógica neocolonial de comércio com a China, na qual nos especializamos em importar produtos tecnológicos enquanto exportamos produtos primários? Ademais, essa última não te lembra as mesmas práticas que temos com países do centro do capitalismo global?
A ausência de lideranças políticas nacionais preocupados com a grandeza do Brasil no plano internacional impactam negativamente no desenvolvimento nacional e na política externa, que são – ou deveriam ser- retroalimentadas de maneira eficiente e coesa.
Por Eric Porto Moreno






