Não chore por mim, Venezuela

Nao chore por mim Venezuela
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Por Jiang Shixue – A eleição presidencial da Venezuela de 28 de julho mal terminou e já deu início a uma aguda crise política. Nicolás Maduro venceu outros nove candidatos, mas Edmundo González contestou os resultados, afirmando que obteve mais de 80% dos votos. Enquanto os Estados Unidos e alguns países latino-americanos se recusaram a reconhecer a derrota de González, Cuba e China, entre outros, já enviaram suas mensagens de felicitações a Maduro.

Protestos, com enfrentamentos e mortes, eclodiram em muitos lugares do país. Por enquanto, ninguém sabe o que vai acontecer, embora a CNN tenha previsto que desta vez “o final pode ser diferente”.

Sem dúvidas, o mais importante é que a vontade do povo venezuelano seja respeitada. Adicionalmente, as duas grandes questões que ainda precisam ser respondidas são: por que a Venezuela vem sofrendo com as crises quádruplas — ou seja, uma crise política, econômica, diplomática e social — há tantos anos, e o que podemos extrair das observações do drama venezuelano. As implicações a seguir podem ser úteis para outros países do mundo em desenvolvimento.

Primeiramente, há de se considerar que a governabilidade é extremamente vital. Governabilidade é a capacidade do governo de enfrentar todos os tipos de problemas que o país enfrenta. Ou, dito de outra forma, como estrutura fundamental de uma nação, o governo deve estar envolvido em vários aspectos da vida cotidiana, tanto interna quanto externamente, e deve ser competente o suficiente para lidar com eles de maneira adequada. Portanto, deve ter uma visão clara para o futuro, coordenar cuidadosamente a demanda dos diferentes grupos de interesse e tentar fazer com que a maioria das pessoas se sinta feliz, oferecendo-lhes mais benefícios econômicos. A Venezuela tem todas as vantagens para um rápido crescimento econômico, especialmente com sua excelente dotação de recursos naturais. No entanto, diante das fortes atividades da oposição, os governos Chávez e Maduro não foram capazes de estabilizar as ordens políticas e sociais, acarretando dificuldades para a execução de políticas que pudessem garantir que as forças econômicas desempenhassem um papel decisivo, evitando a evasão de força de trabalho especializada e direcionando o talento do povo para o trabalho duro em favor de sua pátria.

Em segundo lugar, a estabilidade política é a base para promover o desenvolvimento econômico e construir uma sociedade harmoniosa. É concebível que, na ausência de estabilidade política, as políticas do governo não possam ser implementadas, o sistema legal seja praticamente inexistente, a ordem social não possa ser garantida e o ambiente para os investimentos se deteriore. Como resultado, a ordem e a harmonia foram substituídas pela “democracia de rua”. Infelizmente, nas últimas uma ou duas décadas, a força de oposição da Venezuela tem sido muito bem-sucedida na organização de marchas, manifestações, protestos e greves, privando assim a estabilidade política do país e piorando o ambiente para investimentos.

Em terceiro lugar, a busca por um caminho de desenvolvimento deve ser baseada na realidade política do país. O governo de qualquer país deve explorar e ajustar constantemente seu caminho de desenvolvimento de acordo com as condições internas e externas em constante mudança, bem como as aspirações do povo. Nesse sentido, as ideias de Chávez, como o “socialismo no século 21” e a “revolução bolivariana”, devem ser consideradas como um empreendimento inovador. No entanto, ambos os ideais vinculados ao “socialismo” quanto à “revolução” atraíra consigo pesadas oposições. As principais razões para esse resultado adverso estão intimamente relacionadas às duas tristes realidades políticas que afetam a Venezuela: primeiro, os agrupamentos de oposição, apoiados pelos Estados Unidos, são muito poderosos, e o governo não consegue chegar a um consenso com esses grupos sobre quase nenhum tópico. Em segundo lugar, a sociedade da Venezuela está historicamente e profundamente dividida entre os que têm e os que não têm. Escusado será dizer que, sem coesão social, qualquer tentativa de seguir um caminho diferente de desenvolvimento está condenada ao fracasso.

Quarto, é importante perceber que aumentar o bolo é tão importante quanto distribuí-lo. A distribuição desigual de renda e a consequente injustiça social são parte das maiores dores de cabeça existentes para os países latino-americanos. Na Venezuela, Chávez e Maduro implementaram muitas políticas socioeconômicas para melhorar o bem-estar das classes populares. De fato, os padrões de vida das pessoas mais pobres foram elevados. No entanto, dada a prolongada recessão econômica, a carga fiscal se tornou pesada demais para o governo, especialmente diante de uma situação em que a produção e as receitas provenientes do petróleo encolheram. Isso não significa que a Venezuela deveria ter gasto dinheiro apenas em investimentos nos setores produtivos. De fato, para a Venezuela e outros países latino-americanos, políticas que priorizam as pessoas são urgentemente necessárias para melhorar a justiça social. Mas, para distribuir o bolo igualmente, também é necessário torná-lo maior, algo extremamente difícil de se concretizar em tais marcos conjunturais.

Por último, mas não menos importante, a interferência externa e as sanções não são capazes de colaborar para a resolução de nenhuma crise em nenhum país. Parte dos problemas econômicos da Venezuela estão, sim, vinculados a erros da política governamental, que levaram ao fracasso da tentativa de estimular os incentivos positivos do mercado e dos setores empresariais. Entretanto, há de se considerar que os Estados Unidos estão diretamente vinculados aos acontecimentos pertinentes à crise na Venezuela. Como todos sabem, os Estados Unidos sempre consideraram a América Latina como seu “quintal”, e jamais aceitaram ou aceitarão que nenhum país da região adote uma política externa anti-americana e anti-hegemônica. É por isso que os Estados Unidos impuseram pesadas sanções econômicas contra a Venezuela, ajudaram a manipular o golpe de Estado contra Chávez em 11 de abril de 2002, apoiam a “democracia de rua” em Caracas e em outros lugares, instalaram um governo interino liderado por Juan Guaidó e reconhecem o candidato da oposição González como o vencedor da recente eleição presidencial. Aparentemente, as políticas hegemônicas dos Estados Unidos em relação à Venezuela contribuíram para agravar todas as dimensões das crises quádruplas em curso.

Muitas pessoas adoram a música cativante: “Não chore por mim, Argentina”. No atual momento, diante dos acontecimentos venezuelanos, pertinente seria entoar: “Não chore por mim, Venezuela”.

Por Jiang Shixue

Professor, Universidade de Ciência e Tecnologia de Macau