O abecedário de política, psicanálise e experiência estética de Safatle

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Ao menos na última década não houve no Brasil intelectual que fosse mais atuante no campo da teoria política que Vladimir Pinheiro Safatle. Graduado, mestre, doutor e livre docente em filosofia, Safatle é professor titular do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP há duas décadas, onde ocupa a cadeira de Teoria das Ciências Humanas.

Interseccionando bem os conceitos da psicanálise com a filosofia e a teoria musical, Safatle dialoga em especial com o pensamento de Lacan, Hegel e Zizek para tecer suas análises acerca da experiência política brasileira. Essas análises foram divulgadas ao longo dos anos nos mais diversos veículos de mídia, tais quais a Folha de São Paulo, o jornal El Pais Brasil e a revista Cult. No novo projeto editorial da Ubu, algumas das melhores colunas foram reunidas no livro “Alfabeto das Colisões”.

O intuito do livro é fornecer algumas considerações de Safatle sobre vinte e quatro verbetes selecionados, cada um se iniciando com uma letra do alfabeto, como “quebrar”, “dançar”, “identidade” e vários outros. Como dito, alguns dos verbetes se utilizam de colunas antigas de Safatle sobre os mesmos temas para se desenvolverem, mas existem também verbetes com brilhantes textos inéditos, escritos somente para a composição do livro.

Ainda que os textos que compõe o livro sejam carregados de referências a conceitos lacanianos, filmes cults antigos, livros pouco conhecidos do grande público brasileiro e movimentos artísticos de fora da cena mainstream, o “Alfabeto das Colisões” é por muito o livro “mais acessível” do filósofo, famoso por sua fala rígida e escrita conceitual, sendo uma excelente introdução não a filosofia propriamente dita, mas à conceitos filosóficos e questionamentos acerca da contemporaneidade, conduzidos por alguém ricamente dotado de bases conceituais e empíricas sobre a política e a sociedade, capazes de serem ótimos insights para o leitor.

Em um momento editorial onde as grandes prensas brasileiras vivem apenas de darem palco à livros genéricos sobre política, que tecem as loas para um liberalismo democrata vago, e são escritos por pessoas dotadas de projeção midiática mas desprovidas de qualquer qualificação acadêmica, o “Alfabeto das Colisões” é uma joia rara para todos se adornarem.