Chegou a hora de repensar, Ciro

Ciro Gomes
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Antes de avançar, é necessário fazer uma ampla reflexão. Falo da perspectiva de quem mora na periferia e sente na pele o país naufragar bem de pertinho, na maior periferia do Brasil. Mas falo com a serenidade crítica necessária para não cair em extremos, ou seja, nem no catastrofismo, nem na bajulação.

Se, por um lado não tenho a pretensão ingênua de mudar tudo com um texto, por outro, insisto no registro histórico como uma das formas de resistir, para que os historiadores do futuro compreendam bem a encruzilhada em que, hoje, nos metemos.

Chegou a hora de repensar Ciro.

Trabalho por essa candidatura desde 2017, mas a hipótese do desembarque não está totalmente descartada, haja vista o conjunto de erros cometidos pelos dirigentes. Ainda assim, frise-se mais uma vez, diante de tudo o que se vê, Ciro é de longe o melhor quadro político disponível. Por isso, esse é o primeiro texto de uma série de 3 (três), cujo objetivo central é discutir abertamente as insuficiências e limites de Ciro Gomes, do PDT e de seu Projeto Nacional de Desenvolvimento (PND) – e que tem nos feito (re)pensar, desde a periferia leste da capital paulista se de fato esse é um projeto que nos envolve ou apenas um projeto que se quer impor.

Esses três textos não são textos para serem lidos apressadamente. São um exercício sincero e transparente de pensamento. É preciso atenção nesse ponto para não confundir alhos com bugalhos:

Embora Ciro permaneça como melhor opção na atualidade, sua construção carrega problemas muito graves que já dão sinais de burocratização e que podem redundar num colapso futuro, ou pior ainda: podem redundar numa mera repetição dos anos petistas, talvez com algum logotipo desenvolvimentista para florear.

Mas essa crítica só será compreendida se vier acompanhada de um pouco de nossa própria história.

Mãos à obra:

Ingressei formalmente no PDT de São Paulo, capital, em 2017. Minha formação política, no entanto, remonta ao PT dos anos noventa e ao movimento estudantil secundarista do início dos anos 2000. Minha mãe trabalhou na CUT, e a família aos poucos tornou-se petista, mas foi entre estudantes e movimentos sociais de Itaquera, periferia leste da maior cidade do Brasil que aprendi a fazer política.

Militei ativamente no PT por 10 (dez) anos. Depois de conhecer pessoalmente o CEU Jambeiro[1] durante o mandato de Marta Suplicy, decidi ingressar formalmente no partido porque entendi que o projeto educacional proposto se alinhava com aquilo que sempre sonhamos para mudar o Brasil. Decidido, entrei no sindicato dos professores, na sede regional da APEOESP Itaquera e encontrei Alessandro Guedes, o presidente mais jovem da história do diretório zonal, hoje vereador da cidade de São Paulo. Entrei com dois amigos muito leais, os dois, inclusive permanecem petistas até hoje. Mais tarde, ganhei outro grande reforço, meu tio e companheiro de lutas Nedir Miranda, conselheiro participativo, presbítero metodista, liderança comunitária e um grande administrador. Antigo covista (isto é, eleitor e admirador de Mário Covas) e raro socialdemocrata, Nedir trabalhou incansavelmente para aproximar os evangélicos do PT, motivo pelo qual constituímos um coletivo político, ativo até hoje.

No final de 2016, entretanto, ficava cada vez mais evidente que o fôlego do PT já havia acabado, não como força eleitoral, mas como força política de transformação social. O lulismo enquanto platô de conciliação já apresentava fissuras insuperáveis. Àquela altura, fazer campanha para o PT entre os evangélicos era tarefa impossível. A derrota de 2016 para João Dória demonstrava não apenas os limites impostos pela onda reacionária, pelo influxo do impeachment de Dilma, mas sobretudo, pelo fechamento do ciclo histórico que criou as condições para os governos do PT. Já ao final de 2016 fui apresentado a membros da Juventude Socialista do PDT, o que me animou a ouvir pessoalmente Ciro Gomes em sua via crucis pelas universidades.

Ouvir Ciro é um oásis em meio ao deserto de ideias que virou a esquerda brasileira. Mesmo o pior de seus adversários reconhece sua capacidade intelectual, sua experiência administrativa e sua capacidade de falar… de falar especificamente para o público que gosta de política. Ouvi-lo nos faz refletir, mas ao mesmo tempo nos faz esperançar.

Não sou um trabalhista, nunca fui, mas considero-me um aliado dos trabalhistas. O PDT historicamente recebe bem seus aliados (vide Luís Carlos Prestes, o famoso comunista amigo de Brizola). Por minha própria trajetória, também inspirado pelo sonho de Darcy Ribeiro e da educação pública, gratuita, laica e de qualidade, pensei que o PDT seria uma alternativa muito coerente com nossa trajetória. Alguns debates foram travados em nosso coletivo e as opiniões se dividiram: Ciro era visto como “coroné”, conforme o jargão popular, inclusive entre nossos militantes, cuja maioria é nordestina ou descendente de nordestinos. Com tempo e paciência, conseguimos, aos poucos demonstrar que isso é uma falácia, inclusive extremamente preconceituosa.

Em meados de 2017, lá estávamos nós, no gabinete de Antônio Neto, o presidente do PDT-SP conversando sobre o possível ingresso no partido. Quem viabilizou a reunião foi o jovem Gabriel Cassiano.

Neto é muito gentil, um autêntico palmeirense que nos recebeu muito bem, e na reunião deixamos claro nosso trajeto e o nosso desejo de contribuir. Nossas diferenças também ficaram claras, mas nos principais tópicos estávamos totalmente de acordo, principalmente na defesa de pautas de interesse dos trabalhadores e trabalhadoras. É importante dizer que naquela época, estudantes, movimentos sociais e outros atores do campo progressista se movimentavam em direção ao PDT. O partido recebeu uma verdadeira onda de filiações empolgadas com as reflexões trazidas por Ciro. Muitos petistas, inclusive, consideravam a hipótese de migrar para o PDT, já que o “partido de Brizola” era um partido de esquerda e naquele instante representava uma lufada renovadora para o pensamento crítico brasileiro se recompor após a debacle dos últimos anos[2].

Às vésperas de uma dura eleição, conhecidos líderes de esquerda sinalizavam favoravelmente a Ciro, mas essa onda não se concretizou. Esse apoio maciço não se tornou uma realidade e a candidatura Ciro bateu no teto dos 12% mais uma vez. Mesmo assim, lá estávamos nós, lutando com bandeiras nas mãos, com a equipe pelas ruas de Itaquera, Guaianases, São Miguel Paulista, Sapopemba, São Mateus, e por toda a quebrada convencendo as pessoas, conversando com líderes locais, introduzindo Ciro junto aos evangélicos da periferia. Lá estávamos nós numa dura campanha, defendendo Ciro Gomes presidente e Gabriel Cassiano, em sua primeira campanha eleitoral, a qual tive a honra de coordenar.

Durante a campanha, conseguimos, inclusive, trazer Ciro Gomes para conversar com as pessoas na maior feira popular do Conjunto Habitacional José Bonifácio, em Itaquera.

Tal excurso é importante, porque demonstra que as críticas que serão redigidas logo adiante não são críticas vindas do adversário, do polo oposto, muito pelo contrário, são críticas desde dentro, de quem levantou Ciro até o limite das forças, numa campanha violenta, difícil, sem grandes recursos, mas com muita disposição – e que, ainda em 2020, já com alguns desgastes, manteve-se fiel à estratégia partidária, levando adiante com o mesmo vigor a campanha de Márcio França à prefeitura de São Paulo. As críticas, portanto, cumprem o papel de desentocar o pensamento, tornando difíceis movimentos que parecem fáceis demais. É a crítica de quem quer ver Ciro presidente… e que continua dando “murros em ponta de faca” para que isso aconteça.

Não tenho vocação para correia de transmissão, muito menos para intelectual que abre mão do pensamento em nome da urgência eleitoral. Foi isso, inclusive, que levou o PT ao buraco e que condena a esquerda ao deserto de ideias. É justamente o contrário: é o movimento do pensamento que se faz urgente, especialmente em tempos tão sombrios como os atuais.

Não escolhemos Ciro por acaso, mas pelo potentíssimo entrecruzamento que o PND (Projeto Nacional de Desenvolvimento) pode gerar. Somos filhos da periferia, essa não-classe selvagem que se levantou no Brasil durante o lulismo e que se recusa a voltar para o armário, mas que também recusa filiações políticas imediatas e com todo o pragmatismo possível tende a se alinhar com quem lhe oferecer meios de romper o invólucro da vida rebaixada. Somos também PROUNIstas, moradores do Minha Casa, Minha Vida, inscritos no Bolsa Família. Gente que se formou, comeu bem e viajou de avião na Era Lula, mas somos a mesma gente que rompeu com Lula quando percebeu que o governo sob Dilma, tornou-se mero expediente burocrático, incapaz de dar respostas convincentes ao grande inferno urbano.

Somos essa gente que trabalha e estuda, que faz gambiarra, que dança alegremente e que sim, votou no PT. Mas somos a mesma gente que viu a abertura da Copa do Mundo 2014 aqui na periferia, mas viu pela TV, porque o governo petista não agiu para que os trabalhadores tivessem acesso aos estádios.

Escolhemos Ciro porque, talvez, o PND que propõe pode ser a segunda chance que precisamos, um tanto mais madura e que não sucumba como um castelinho de cartas feito de puro consumismo. A base de sustentação econômica que o PND procura somos nós, esses selvagens empreendedores que Roberto Mangabeira Unger insiste em colocar em cena.

Eis o ponto. Essa é a chance da virada histórica! A única via de transformação social brasileira por dentro da ordem é arrancar as elites entronizando em seu lugar essa não-classe selvagem, essa periferia que se levanta querendo sempre mais. Contudo, somos também os evangélicos, que rompidos com a moral católica, procuramos no interior desse PND, formas de fazer conviver o contraditório. Para surto coletivo dos sociólogos, somos contradições vivas, contradições que andam pelas quebradas. Somos negros, bichas, trabalhadoras, sambistas, crentes, favelados, sem-teto, tudo junto, tudo misturado e com iphone nas mãos. Escolher Ciro significa dizer que o Brasil pode celebrar um PND diferente daqueles do passado, aliás, muito diferente, porque a composição social do país mudou drasticamente – significa dizer que esperamos de Ciro um PND criativo onde caiba CLARAMENTE o preto, o pobre, a bicha, o evangélico e maconheiro, que muitas vezes confluem na mesma pessoa.

Entretanto, infelizmente, está cada vez mais evidente que Ciro e o PDT estão caminhando a passos largos para mais uma derrota. Muito por conta da surdez política que os cerca.

A meu ver, dois grandes erros têm sido cometidos por Ciro e pelo partido: um erro estratégico (que é também um grave erro de formulação teórica) com claros reflexos no que Ciro defende em seu novo livro “Projeto Nacional de Desenvolvimento: o dever da esperança” e 3 (três) erros táticos que despontencializam seu projeto e travam não apenas suas chances de vitória, mas sobretudo, suas chances de realizar a transformação social que almejamos.

Comecemos, então, pelo inverso, pelos erros táticos:

1 – UM PARTIDO INCAPAZ DE SE RENOVAR

A primeira onda foi perdida.

O PDT foi incapaz de recepcionar a primeira leva de militantes e líderes de centro-esquerda que se armou com o enfraquecimento do PT no período de 2016-2018. E foi incapaz, pela própria incapacidade de se renovar.
Na cidade de São Paulo, especificamente, a situação foi agravada pelo estado calamitoso em que Antônio Neto herdou o partido. O PDT de São Paulo simplesmente inexistiu nas últimas décadas. Desde que Paulinho da Força presidiu o partido, a sigla afundou em dívidas, perdeu qualquer possível identidade trabalhista, tornando-se sub-puxadinho do fisiologismo. Uma verdadeira onda de gafanhotos deixou um PDT arrasado, sem dinheiro, sem militância, sem ideias: um mero casarão branco na Avenida Brigadeiro, em área nobre da cidade, longe das periferias, longe dos trabalhadores e trabalhadoras. Isso para não mencionar a histórica aversão das classes médias paulistanas ao getulismo.

A onda trazida por Ciro em 2017-2018 foi uma lufada de vento fresco, mas não foi aproveitada, não apenas por sua falta de estrutura, mas principalmente por sua interna burocratização. Seu projeto de se reerguer no maior colégio eleitoral do país é natimorto. Muitos líderes, estudantes e intelectuais afastaram-se do partido por causa de dois movimentos síncronos: de um lado a resistência de uma velha guarda mofada, temendo perder controle e influência e de outro um grupelho composto por jovens empolgados, mas sediciosos e inábeis.

O partido tomou um choque com o interesse crescente, advindo, sobretudo, das palestras de Ciro pelo mundo acadêmico. Mas esse choque não produziu nada, pelo contrário, os poucos militantes do período anterior fizeram de tudo para que os novatos se afastassem. Os novos, por sua vez, não encontravam nem um cursinho de introdução política para se situar. O que encontrei, pessoalmente testemunhando, foi uma juventude socialista amorfa, com pouquíssimos membros, sem nenhuma influência nos campos de disputa real. Uma juventude que, fechando-se sobre si mesma, era autofágica, nutrindo brigas internas e um falatório sem fim. A política interna, burocrática, com disputas de cargos, discussões inférteis e terrivelmente brochantes não é uma exclusividade do PDT, parece ser uma praga que assola toda a esquerda, mas convenhamos, para um partido que recebe uma onda renovatória às vésperas de eleições gerais isso não é nada bom, aliás, é simplesmente terrível.

Padecendo da síndrome de Erisícton[3], o PDT instalou uma luta interna sem qualquer sentido, sem qualquer discernimento do tempo, sem qualquer necessidade. Por ocasião da organização do “Movimento Todos com Ciro”, não faltavam cochichos nos corredores do partido, dizendo que o movimento, encabeçado por jovens que vinham de fora, era um movimento de infiltrados para realizar “espionagem”. Puro delírio. Os jovens embarcaram em teorias conspiratórias, donde se originaram duros ataques à “esquerda pós-moderna” e “identitária” que seria essa coisa abstrata e longe de definição, cujo objetivo seria atacar por dentro a “verdadeira esquerda” trabalhista para desestabilizar a candidatura Ciro. Alguns, ainda mais delirantes, chegaram a invocar o mito de que o PT foi criado pela própria ditadura militar para evitar o retorno triunfal de Leonel Brizola[4].

O próprio Gabriel Cassiano em cuja equipe trabalhei nas últimas duas eleições embarcou inúmeras vezes em discussões absolutamente desnecessárias e pobres de conteúdo, em busca de “likes”, caindo assim em chavões autoritários. Sua verdadeira tara por Vladimir Putin, assim como sua deplorável posição de tentar esmagar oposições fez com que nosso grupo político se desligasse completamente de sua carreira política ainda em 2020.

Gabriel é jovem e talentoso, mas também é expressão dessa turma inexperiente. Infelizmente não conseguiu lidar com problemas inerentes à própria política. Fez política com o fígado, perdendo-se nos próprios delírios.
Ora, a despeito de tudo isso, a resposta do PT durante os embates com a militância trabalhista foi demolidora: tem que ter votos!

Quatro palavras que desmontam o falatório e colocam a coisa toda no chão de barro, os pés na realidade. E essa é a hora exata de roçarmos os pés na terra. O PT tem erros terríveis contra os quais já me insurgi em diferentes textos, inclusive por ocasião de minha saída do partido, na tribuna de debates do Congresso petista[5], mas nesse ponto específico a resposta que os militantes replicam é bastante incômoda para o PDT: sim, tem que ter VOTOS e o PDT não tem, isto é fato. E como ter votos, afastando pessoas interessadas? Como ter votos sem renovar as práticas internas para que a militância se anime? Como ter votos com instâncias internas mofadas, travando o diálogo, criando obstáculos à participação de quem vem de fora, com outras imaginações políticas possíveis?

É preciso ter humildade para reconhecer que não existe uma coisa como uma “esquerda verdadeira” ou “esquerda raiz”. O que há é uma multiplicidade de esquerdas, ou simplesmente esquerdas… plurais e diferentes entre si. Essa é uma característica do nosso tempo e não é uma fraqueza, mas uma potência que foi posta de lado, marginalizada por esse processo de construção da candidatura Ciro Gomes.

Em 2018, Ciro obteve 12,47% dos votos a nível nacional, no Estado de São Paulo atingiu 14,83%, e nas principais zonas eleitorais onde nosso grupo político atuou Ciro obteve resultados ainda melhores: na zona 405ª (Conj. José Bonifácio) onde estamos sediados alcançou 16,70% e na zona 248ª (Itaquera) obteve 14,93%.

As eleições de 2020, onde o PT-real, isto é, o PT de base fez campanha aberta para Guilherme Boulos do PSOL, deixou isso muito evidente: Boulos alcançou 20,24% no primeiro turno, sendo que na zona 405ª (Conj. José Bonifácio) alcançou 22,45% e na zona 248ª (Itaquera) obteve 21,23%, com uma belíssima campanha nas ruas e nas redes.

Em outras palavras, a esquerda que tanto criticamos, e que alguns insistem em chamar de esquerda identitária ou falsa esquerda, tem voto. E mais do que isso: o fenômeno Boulos 2020 não apenas deixa claro que é possível realizar uma campanha múltipla, com várias e distintas frentes operando (com coletivos, sindicatos, grupos autônomos, ONG’s, movimentos sociais, anarquistas, e vejam só! até trabalhistas), bem como uma campanha colorida, bem-humorada, com comunicação irretocável e base social constantemente ativa. Na era das redes, descobrimos que as associações de bairro ainda fazem diferença, e no final das contas, também descobrimos que não dava para eleger às pressas um Márcio França reciclado.

Quando o PT vocifera “tem que ter voto”, a frase soa como uma provocação, mas tem que ser recebida como uma provocação do pensamento, isto é, por que não temos votos? O que está implícito na expressão é que o PT tem uma trajetória, de fato, junto às periferias, o que lhe garante de partida o apoio de uma miríade de pequenas associações, ONGs, líderes sociais, movimentos e organizações da sociedade civil. Tem também uma identidade bem marcada junto a Lula e as grandes greves. Tem uma história que comunica com a atualidade, o que, obviamente, se transmuta em votos nas urnas. A força política do PT se constitui de fora para dentro e não o contrário.

Em Itaquera, nosso bairro, o PT mantém um escritório político aberto ininterruptamente há mais de 15 (quinze) anos. Isso faz diferença. O contato é feito aqui e diretamente. Nem o PSOL que se reivindica socialista de corpo e alma possui uma estrutura tão próxima do povão periférico.

Em 2018, o PDT-SP só elegeu um deputado estadual e uma deputada federal. Em 2020, não elegeu nenhum vereador no maior colégio eleitoral do país. Ao término das campanhas propusemos a abertura de escritórios e/ou zonais nas regiões periféricas, mas a direção partidária preferiu continuar operando na mesma lógica das derrotas anteriores. Reclamamos que as reuniões presenciais do partido eram realizadas no bairro rico dos Jardins, longe das periferias, mas a direção partidária preferiu manter uma única sede, centralizada, estática, perto dos ricos e longe das “massas”.

Nem mesmo os resultados eleitorais fizeram o PDT acordar para refletir. Longe de todo movimento que crie tesão político, o partido resolveu simplesmente “proibir” novos movimentos que venham de fora para dentro ou que tentem se “acoplar”. O caso paradigmático foi o caso “Tábata Amaral”, que, juntamente com seu movimento “Acredito” se elegeu com forte votação em 2018.

A história de Tábata é curiosa e tem muito a dizer.

Estive pessoalmente com ela em duas ocasiões, uma das quais conseguimos conversar um pouco. Uma mulher com cara de garota, olhar meio disperso, meio apressada, mas que sentada à mesa na salinha da Juventude Socialista, de repente tirou os olhos do celular e fixou em meus olhos para ouvir o que eu dizia, quando comecei a mencionar que a periferia ensina uma outra pedagogia, muito distante da escola tradicional.

Entretanto, tudo o que envolvia sua candidatura era tratado por sua assessora imediata, colada ao seu lado: Laiz Soares. Mesmo coordenando a campanha de Gabriel Cassiano, meu acesso a Tábata foi completamente trancado. Era Laiz que cuidava de tudo e blindava Tábata de todos os lados, em que pese o fato de ter sido Gabriel Cassiano o principal articulador da chegada de Tábata ao partido, já que imiscuindo-se em negociação iniciada por Tábata diretamente com Marina Silva, Cassiano conseguiu “capturar” a garota prodígio e aproximá-la de Ciro.

Laiz, sua assessora, porém, não escondia o incômodo. Cutucava Tábata para seguir os horários e cumprir a agenda, ainda que para isso, precisasse sacrificar alguma conversa interessante, algum movimento de reflexão. Típico da política institucional, essa sanha por castrar o prazer do diálogo.

Num café ao lado da sede do PDT-SP, enquanto mexia seu chocolate quente, a assessora, oriunda do mercado financeiro, disse com todas as letras: “eu preferia a Tábata na Rede”, sim, na Rede de Marina Silva. Laiz torcia abertamente para que Ciro fechasse acordo com o DEM e se distanciasse completamente do PC do B. Em sua visão, Ciro era inteligente, mas “pendia demais para a esquerda”. Chegou a afirmar com todas as letras que “a candidatura do Gabriel (Cassiano) era motivo de preocupação” simplesmente porque estava ligada demais ao “sindicato” referindo-se a central sindical CSB presidida por Antônio Neto[6], o que me causou profundo espanto.

Talvez esse tenha sido um dos motivos pelos quais Tábata Amaral e seu staff tenham simplesmente boicotado a campanha de Gabriel Cassiano em 2018, quando fechou os canais de financiamento do garoto e resolveu depositar suas fichas numa outra candidata a deputada estadual, traindo o acordo político e a gratidão que tinha por Gabriel, o principal elo entre ela e Ciro Gomes. Foi um golpe contra Gabriel, mas principalmente um golpe cujo alvo era o movimento sindical.

É claro que, talvez no escuro ou por cálculo eleitoral, Ciro embarcou em Tábata: pediu votos, citou o nome dela inúmeras vezes na imprensa, rasgou elogios, compareceu pessoalmente ao lançamento da campanha na Vila Missionária, zona sul de São Paulo e reduto da garota prodígio.

Chegou a almoçar na casa da mãe de Tábata. Se Ciro não sabia das inclinações dos assessores de Tábata e caiu ingenuamente na armadilha, não sei dizer. Todavia, frise-se: o partido sabia desde o começo em que banda Tábata tocava. Sua coordenadora de campanha e futura chefe de gabinete, a toda-poderosa Laiz era cria do mercado financeiro, fazendo o elo de Tábata com o empresariado da alta elite nacional.

Por trás do discurso da campanha “sustentável” de Tábata com seus milhares de “voluntários” existiu um pesado financiamento de pessoas físicas, de acordo com a legislação até onde se sabe, mas realizado por um grupo muito peculiar de contatos, envolvendo jantares com a turma indicada por Jorge Paulo Lemann, Luciano Huck, Eduardo Mofarej e mais uma dúzia de bilionários, com “b” de bosta.

A latrina não se esgota aí. Tem mais: Tábata foi assessorada por um jovem e belo garoto que respondia pelo nome de Martí. Desastrosos paralelos históricos à parte, o jovem encontrou-se comigo numa reunião pessoal realizada no Starbucks da Alameda Santos, para, segundo Laiz, “melhor assessorar quanto à organização dos apoiadores da dobradinha Tábata-Cassiano”. Questionado sobre sua formação e origem, o jovem, sem corar de vergonha disse ser venezuelano, formado em Harvard onde conheceu Tábata, e ter como pérola de seu currículo uma participação direta nas campanhas eleitorais de Henrique Capriles, sim, Capriles, um dos maiores golpistas da América Latina.

Interrompi a conversa, desliguei a campanha de Cassiano desse tipo de “assessoria”. Obtivemos um pouco mais de 10 mil votos. Não elegemos o jovem Gabriel Cassiano, mas a consciência política permaneceu intacta.

Não deu outra, a bola já estava cantada há muito tempo: Tábata, em seu primeiro ano de mandato, não apenas fechou as portas para o PDT e para Ciro num segundo movimento de traição política, mas também começou a votar a favor de seus financiadores de campanha, o que lhe rendeu o carinhoso apelido de “Batata Liberal” nas redes sociais.

Por óbvio.

Mas dizer que o PDT não sabia, isso não é verdade. Eu estava na sala, no segundo andar da sede do partido em São Paulo, junto a Gabriel, quando Tábata foi apresentada formalmente a Carlos Lupi. E o próprio Lupi recebeu em mãos a Carta-Compromisso onde a pré-candidata pedia licença para votar como quisesse caso fosse eleita, em outras palavras, era o acordo, inclusive formal, para que Tábata pudesse posar para a esquerda, mas governar com a direita.

Acordos são acordos.

O cálculo político não admite infantilismos de parte a parte. É assim que se toca a realpolitik, e até aí tudo bem, mas o que o PDT conseguiu realizar foi a proeza de desperdiçar as poucas coisas boas que Tábata oferecia. Ela tinha (e ainda tem) em mãos, o mapa das formas atuais de se fazer política, com enraizamento social, mobilizando o tesão das pessoas por fora do partido, essa instituição tão desgastada (e até odiada aqui pelas bandas da periferia).

O staff de Tábata dominava a comunicação, e de alguma maneira operava num nível suprapartidário que precisa ser compreendido justamente porque muito mais afeto ao que atualmente mobiliza as pessoas. Sua campanha mesmo foi organizada como uma verdadeira startup, regada pelo dinheiro dos bilionários, sim aqueles com “b” de bosta.

O PDT, ao contrário, perdeu as chances de entender esses mecanismos, fechou-se sobre uma identidade que não está clara nem para si mesmo, quem dirá para quem vê de fora. Pior ainda: o partido esperava de Tábata um mandato nos moldes antigos, o que é, para dizer o mínimo, um grosseiro erro de leitura[7].

A consequência lógica da tragédia Tábata Amaral é muito maior. A garota da periferia, que em última instância defende o programa econômico de Paulo Guedes, nos põe um problema mui grave, que é justamente a crença cada vez mais arraigada da própria periferia no projeto econômico que a sufoca (e que literalmente mata). Não dá para ignorar que em 2020, o excêntrico candidato neoliberal “Mamãe Falei” foi bem votado na periferia.

Até onde sei, não há qualquer discussão profícua na esquerda a esse respeito, isto é, para entender como a periferia tem mergulhado no ácido neoliberal sem perceber o próprio suicídio.

O PDT confundindo alhos com bugalhos, resolveu jogar fora o bebê junto com a água do banho. Ao invés de realizar uma ampla discussão sobre isso, perdeu Tábata (o que é um ganho) mas perdeu também sua expertise técnica dos novos moldes de fazer política. No fundo, perdeu com isso a possibilidade de colocar a disputa sobre o projeto socioeconômico num outro patamar.

Os velhos caciques do PDT caíram num silogismo, e começaram a vociferar contra os “movimentos” chamando-os de “para-partidários” ou partidos ilegais. Mesmo Ciro já repetiu essa besteira. Recusou-se até mesmo a mudança da identidade visual do partido, como se manter uma logomarca fosse sinal de fidelidade à obra de Brizola. Fidelidade ao brizolismo, a meu ver, é manter a radicalidade contestatória encontrando novos caminhos e inovadoras leituras do presente, sem cair no erro fácil de resgatar um passado que não voltará mais[8].

Esses movimentos contemporâneos possuem identidades visuais diferentes, substituem a velha verticalidade pela horizontalidade, comunicam-se com as pautas de luta daqueles que não se veem na arena política, eles “falam para fora”, chamando a atenção por meio de mecanismos criativos e intensa participação digital. É preciso assumir de uma vez por todas e sem medo da derrota que por baixo do discurso vazio e mole da “nova política” corre uma lava periférica, uma vontade de mudança, cujos velhos instrumentos partidários não são capazes nem mesmo de captar, quem dirá de entender.

Não é mera negação. Há algo afirmativo, ainda inassimilável, imperceptível para as velhas instituições políticas. O século XXI já começou. Não o percebe quem continua apertando os pés em sapatos que não nos servem mais.
O PDT não se renovou, nem há sinais de que se renovará. Contra os novos movimentos grita a favor da partidarização. Contra as novas formas digitais, continua exibindo uma identidade visual que já não comunica nada com as novas gerações, contra o colorido das redes, continua postando a foto preta e branca de Getúlio Vargas.

Vargas foi um estadista, sem dúvidas. Assim como Goulart e Brizola. Mas foram estadistas para seu tempo. Foram homens que desafiaram o status quo construindo vias revolucionárias para o contexto brasileiro com as próprias mãos. Para o jovem da periferia, egresso desse sistema educacional falido, Vargas é uma figura histórica distante que ele ouviu falar na escola, mas que ele nem lembra quem é.

Duro fato.

Ser fiel a essa tradição contestatória não é replicar seus usos ou mesmo resgatar sua estética, longe disso, é devir-Brizola, ou seja, tomar sua prática de encontrar HOJE onde estão essas vias revolucionárias e abrí-las com as próprias mãos – ainda que para isso seja necessário mudar velhas estruturas do trabalhismo histórico. Atualizar, ou seja, tomar em ato, fazer em ato, atuar concretamente, no cotidiano político do presente.

Aliás, no caso do PDT do Estado de São Paulo não se sabe até hoje porque Carlos Lupi continua presidindo o partido como um interventor diretamente do Rio de Janeiro. Isso é inconcebível. Até hoje não se explica como Antônio Neto, mesmo sendo habilidoso e gentil, divide-se entre a presidência sindical e a presidência partidária durante a maior crise sindical da história do Brasil.

Como se construirá um partido fazendo sombra de mangueira a novas lideranças?

Talvez seja o caso de recuperar um texto de 1981 escrito pelo filósofo e psicanalista Félix Guattari, um dos escritores malditos cuja produção me chama a atenção. Como os “militantes e dirigentes” não tem tempo para ler e estudar, compete dizer que o texto adianta em grande medida os movimentos da atualidade, isto é, há quarenta anos atrás, Guattari enxergou algumas coisas que a política institucional insiste em ignorar. Em “Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo[9], o autor introduz uma série de problemas incômodos para a esquerda dita tradicional, demonstrando que não apenas a classe operária está envolvida material e inconscientemente com os sistemas dominantes do capitalismo, bem como a família conjugal, a repressão intrafamiliar, e outros elementos do cotidiano tornaram-se objetos institucionais alienantes.

As mudanças do capitalismo no final do século XX apontam precisamente para um indivíduo dependente do capitalismo até sua medula, de modo que a própria luta de classes se deslocou para uma posição de completa assimetria. “A verdade dos trabalhadores” diz Guattari, “é uma dependência de fato e quase absoluta em relação à máquina de produção; é o esmagamento do desejo, com exceção de suas formas residuais e ‘normalizadas’, o desejo bem pensante ou bem militante; ou então, o refúgio numa droga ou em outra, se for a piração ou o suicídio! (…) O capitalismo pode sempre dar um jeito nas coisas, retocá-las aqui e ali, mas no conjunto e no essencial tudo vai cada vez pior” (p. 14)

Daí que a luta de classes já não passa mais por um front bem delimitado entre os trabalhadores e os burgueses, ela está também inscrita através de “números estigmas na pele e na vida dos explorados, pelas marcas de autoridade, de posição, de nível de vida” (p. 15). Ela se dá num nível micropolítico, nas relações mesmas entre professor e alunos, pais e crianças, médicos e doentes, introjetando a violência da reprodução da ordem social com tais níveis condicionando-se mutuamente.

Pergunta Guattari:

De que serviria, por exemplo, propor às massas um programa de revolucionarização anti-autoritária contra os chefinhos e companhia limitada, se os próprios militantes continuam sendo portadores de vírus burocráticos superativos, se eles se comportam com os militantes dos outros grupos, no interior de seu próprio grupo, com seus próximos ou cada um consigo mesmo, como perfeitos canalhas, perfeitos carolas? De que serve afirmar a legitimidade das aspirações das massas se o desejo é negado em todo lugar onde tenta vir à tona na realidade cotidiana?

O próprio autor diz que na ausência de desejo a energia se consome sob a forma de sintoma, de inibição e de angústia. É disso que se trata: a falta de desejo de militar, o cansaço das falas que não dizem mais nada, a falta de tesão, e tudo se autoconsumindo como sintoma, inibição e angústia. É claro que a introdução de uma energia suscetível de modificar as relações de força, como diz o próprio Guattari, “não cai do céu, ela não nasce espontaneamente do programa justo, ou da pura cientificidade da teoria – ela é determinada pela transformação de uma energia biológica – a libido- em objetivos de luta social” (p. 15)

Com uma bela dose de humor e de forma bastante aguda, o autor provoca:

É fácil reduzir tudo às famosas contradições principais. É demasiadamente abstrato. É até mesmo um meio de defesa, um troço que ajuda a desenvolver fantasias de grupo, estruturas de desconhecimento, um troço de burocratas; se entrincheirar sempre atrás de alguma coisa que está sempre atrás, sempre em outro lugar, sempre mais importante e nunca ao alcance da intervenção imediata dos interessados; é o princípio da ‘causa justa’, que serve para te obrigar a engolir todas as mesquinharias, as míseras perversões burocráticas, o prazerzinho que se tem em te impor – “pela boa causa” – caras que te enchem o saco, em forçar tua barra para ações puramente sacrificiais e simbólicas, para as quais ninguém está nem aí, a começar pelas próprias massas. Trata-se de uma forma de satisfação sexual desviada de seus objetivos habituais. Este gênero de perversão não teria a menor importância se incidisse em outros objetos que não revolução – e olha que não faltam objetos! O que é chato é que estes monomaníacos da direção revolucionária conseguem, com a cumplicidade inconsciente da “base” enterrar o investimento militante em impasses particularistas. É meu grupo, é minha tendência, é meu jornal, a gente é que tem razão, a gente tem a linha da gente, a gente se faz existir se contrapondo às outras linhas, a gente constitui para si uma pequena identidade coletiva encarnada em seu líder local…” (p. 15-16)

Qual é o tesão, o desejo que se tem de frequentar um lugar avesso a mudanças e que contraditoriamente receita mudanças para todo o corpo social? Qual é o tesão que se tem ao perceber que as pessoas estão numa luta frenética para exercer um pouquinho de podre poder sobre um mísero conjunto de algumas dezenas de militantes? Qual é o desejo, o tesão, que se tem quando tudo não passa de eleger inimigos do campo da esquerda para afirmar a própria virilidade? Não há alegria, potência e vontade quando não se tem a predisposição mínima de se entender que muita coisa mudou e que muita coisa continua em mudança.

Para piorar o quadro, alguns poucos loucos começaram a invocar Lênin da tumba. Outros ainda mais delirantes, num início de esquizofrenia militante começaram a saudar Stálin. Daí que se multipliquem nas redes sociais de apoio a Ciro os milhares de apoiadores fake defendendo expurgos para todos os lados e a eleição do PT como um inimigo a ser extirpado. Não faltam aqueles que gozam com fotos de armas, metralhadoras, tanques e o discurso de guerra para impor o “cirismo” contra o “lulismo” e combater o “imperialismo” por meio da sacrossanta disciplina partidária, essa múmia tirada do sarcófago.

Não há cirismo fora do Ceará. Nunca existiu. E todos nós sabemos disso.

Mas na guerra delirante, vale mais a ladainha do discurso do que colocar os pés de novo no chão e repensar todos os nossos problemas. É o erro do menino Cassiano: acreditar que uma retórica forçada, num tom um pouco acima, ensaiada direto das Perdizes convenceria a periferia já arredia. Não convence.

É a crença de que alguns robôs nas redes sociais criarão esse “movimento massivo” sem que antes se compreenda a questão do desejo político. É a massa simulada.

De tudo isso persiste de fundo um ranço autoritário consubstanciado na ideia de vanguarda intelectual, que procura falar em nome dos que não tem fala e conduzir a massa disforme para o paraíso da classe trabalhadora[10], o que, por certo, exige um controle maior e uma centralização homogeneizadora da vida.

Aliás, é o caso de questionar fortemente, se a massa ainda deseja partido nesses moldes em que se apresenta? E se não é o caso de acabar com os partidos (como eu particularmente creio que não seja) é pelo menos o caso de perceber por onde o desejo político passa, por onde ele atualmente atravessa e com isso reorganizar totalmente a forma de fazer política.

Guattari é cirúrgico quanto a isso. Neste livro em que prevê de forma magistral essa fragmentação do mundo e essa falta de desejo pelos partidos, inclusive (e principalmente) pelos partidos de esquerda, o autor ainda diz numa espécie de testemunho autobiográfico:

A gente não se enchia tanto em Maio de 68! Enfim, tudo ocorreu mais ou menos bem até o momento em que os ‘porta-vozes’ disto ou daquilo conseguiram voltar à tona. Como se a voz precisasse de portador. Ela se porta bem sozinha e numa velocidade louca no seio das massas, quando ela é verdadeira. O trabalho dos revolucionários não é ser portador de voz, mandar dizer as coisas, transportar, transferir modelos e imagens; seu trabalho é dizer a verdade lá onde eles estão, nem mais nem menos, sem tirar nem pôr, sem trapacear. Como reconhecer este trabalho da verdade? É simples, tem um traço infalível: está havendo verdade revolucionária, quando as coisas não te enchem o saco, quando você fica a fim de participar, quando você não tem medo, quando você recupera sua força, quando você se sente disposto a ir fundo, aconteça o que acontecer, correndo até o risco de morte. A verdade, a vimos atuando em Maio de 68; todo mundo a entendia de cara. A verdade não é a teoria nem a organização. É depois dela ter surgido que a teoria e a organização têm de se virar com ela. Elas sempre acabam se situando e recuperando as coisas, mesmo que para isso tenham de deformá-la e mentir. A autocrítica cabe à teoria e à organização e nunca ao desejo.

O que está em questão agora, é o trabalho da verdade e do desejo por toda parte onde pinte encanação, inibição e sufoco. Os grupelhos de fato e de direito, as comunas, os bandos, tudo que pinta no esquerdismo tem de levar um trabalho analítico sobre si mesmo tanto quanto um trabalho político fora. Senão eles correm sempre o risco de sucumbir naquela espécie de mania de hegemonia, mania de grandeza que faz com que alguns sonhem alto e bom som em reconstituir o “partido de Maurice Thorez” ou o de Denin, de Stálin ou de Trotsky, tão chatos e por fora quanto seus Cristos ou de Gaulles, ou qualquer um desses caras que nunca acabam de morrer.

Cada qual com seu congressinho anual, seu mini-Comitê Central, seu super-birô político, seu secretariado e seu secretário-ge(ne)ral e seus militantes de carreira com seu abono por tempo de serviço, e, na versão trotskista, tudo isso duplicado na escala internacional (congressos mundiais, comitê executivo internacional, seção internacional, etc.).” (p.16-17)

Curiosamente, uma das primeiras atividades que participei no PDT foi um Congresso da juventude onde um antigo e experiente quadro do partido apresentava a solução para os dilemas dos partidos contemporâneos: a retomada dos núcleos de base. Coube até mesmo uma comparação meio esdrúxula com as “células” e “pequenos grupos” do movimento evangélico. Não compreendem os dirigentes, que até o movimento evangélico tem enfrentado problemas para estabelecer seus pequenos grupos nas casas, e que a despeito disso tudo, existe todo um cerimonial simbólico: músicas e cânticos de louvor, a ideia mobilizadora de Deus, a promessa das bênçãos e dos milagres… A política, ao contrário, já perdeu tudo isso: não há alegria nem arte, tampouco uma causa justa que nos mobilize, e mesmo o maior dos cristãos é incapaz de acreditar que a política faz milagres, ainda mais na periferia onde o inferno é cotidiano.

Poderíamos, a essa altura do campeonato, faltando pouco mais de 1 ano e 6 meses para as próximas eleições contra o neofascista Bolsonaro, estar discutindo formas criativas e inéditas: coletivos, movimentos, sindicatos, etc. conectando-se numa rede, como um enxame em novas formas de atuação política capazes de nos aproximar da periferia, que atualmente fervilha em busca da própria sobrevivência. A discussão poderia ser outra, de uma outra ordem, capaz de construir o tesão coletivo pela militância. No entanto, tendo em mente que o texto é de 1981, mais uma vez Félix Guattari é demolidor:

Por que os grupelhos, ao invés de se comerem entre si, não se multiplicam ao infinito? Cada um com seu grupelho! Em cada fábrica, cada rua, cada escola. Enfim, o reino das comissões de base! Mas grupelhos que aceitassem ser o que são, lá onde são. E, se possível, uma multiplicidade de grupelhos que substituiriam as instituições da burguesia; a família, a escola, o sindicato, o clube esportivo, etc. Grupelhos que não temesse, além de seus objetivos de luta revolucionária, se organizarem para a sobrevivência material e moral de cada um de seus membros e de todos os fodidos que os rodeiam” (p.17)

Bem em meio à pandemia, onde as comunidades aqui do fundão da Leste penam para comer, os partidos de esquerda continuam propondo uma infinidade de recursos aos tribunais, sim aos mesmos tribunais que apoiaram o Golpe de Estado de 1964 e que agiram na linha de frente do Golpe de 2016. Eles tentam de toda maneira reconduzir as bases da luta para a estrutura estatal porque encontram-se demasiadamente distante da realidade do povão. Temem o povão, essa horda de bárbaros ensandecidos. É o mesmíssimo erro dos anos de lulopetismo: governar o pobre, governar para o pobre, mas nunca com os pobres.

Enquanto isso, as igrejas neopentecostais e o tráfico estão mais presentes do que nunca. No Rio de Janeiro, inclusive, essas duas linhas já se entrecruzaram no chamado “Complexo de Israel”, a maior ameaça fascista da história do Brasil[11].

O PND poderia refazer essa conexão com as periferias, essa proximidade, mas passados mais de 2 anos do pleito anterior, sequer foram organizadas plenárias e formas de participação digital onde os militantes pudessem quem sabe, contribuir ativamente com ideias e discussões em torno do PND. A ideia que se passa é de que o Projeto é um “Modelão” já pronto e que desce das elites partidárias bem em cima das nossas cabeças, de uma meia dúzia de iluminados que conduzem nossos destinos. A partir daí me parece muito pesado exigir que as periferias se dobrem mais uma vez para o que os espertos dizem e impõem; exigir que a periferia suporte o peso do escravo: carregar seus senhores em seus ombros.

Não carregará.

Aos que discordam e se apegam à velha tara do centralismo burocrático e essas loucuras todas, se nada aproveitar do presente texto, que quatro perguntas ressoem em meio à hecatombe:

– Há projeto nacional de desenvolvimento sem partido de âmbito nacional, sem base política sólida para sua sustentação? Sem base social para defesa de suas pautas?

– Se não há, como construir partido no momento exato em que as periferias, que o partido diz representar, o recusam completamente?

– É possível vencer negligenciando o maior colégio eleitoral do país?

– E na hora que o bicho pegar e a máquina golpista for posta em marcha? Quem defenderá o programa econômico de ruptura? Nossos professores universitários?

Enquanto a banda toca desafinada, somos governados por fascistas.

Este é o ponto.

É disso que se trata.

***

Este texto não reflete nenhum tipo de posição do Disparada, que não se responsabiliza por nenhuma opinião emitida pelo autor.

Referências

[1] Centro Educacional Unificado, modelo de escola inspirado nos CIEPs dos governos Brizola, instituído pelo governo do PT em São Paulo entre 2001-2004 sob assessoria de educadores freireanos. Os CEU’s foram implantados prioritariamente em áreas de grande vulnerabilidade socioeconômica, relacionando ensino, cultura e esportes.

[2] À época, mesmo o DIEESE junto à Fundação Perseu Abramo do PT promovia debates e seminários em torno da ideia de um novo projeto nacional de desenvolvimento, pauta silenciada nos governos Lula e Dilma e que os intelectuais petistas reconheciam como uma grave falha.

[3] Personagem da mitologia grega que ao derrubar árvores sagradas, é punido pela instalação da deusa Fome em seu próprio estômago, o que o angustia de tal forma que passa a comer seus próprios membros.

[4] Essa turma esquece que Brizola apoiou Lula em 89, foi candidato a vice em sua chapa em 1998 e que Dilma Rousseff é obra e graça do brizolismo do Rio Grande do Sul. Se a tese do “PT criado pela ditadura for verdadeira”, consequência lógica é dizer que Brizola traiu seus ideais e conspirou contra a pátria.

[5] Texto “Tempestade à vista” publicado em: https://pt.org.br/paulo-ricardo-barbosa-de-lima-tempestade-a-vista/

[6] Antes de sua primeira campanha, Gabriel chegou a se envolver na militância do SINDPD e da CSB. Pessoalmente aconselhei Gabriel a abrir diálogo sempre que possível com os sindicatos, mesmo com as críticas da equipe de Tábata porque, afinal, o PDT é um partido trabalhista, não é verdade?

[7] Um dos primeiros atos da deputada Tábata foi abrir uma espécie de “processo seletivo” para compor seu gabinete, deixando o partido de fora de qualquer composição política no parlamento. Na prática, o PDT de São Paulo ficou sem qualquer influência na Câmara dos Deputados.

[8] Os caciques do PDT poderiam, inclusive, invocar a fidelidade ao brizolismo enquanto Paulinho da Força Sindical dilapidava o partido, mas eles permaneceram calados.

[9] GUATTARI, Felix. Revolução Molecular: pulsações políticas do desejo, 3ª edição, Ed. Brasiliense, São Paulo, 1985.

[10] Refiro-me indiretamente ao filme “A classe operária vai ao paraíso” (Elio Petri, Itália, 1971).

[11] https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/07/24/traficantes-usam-pandemia-para-criar-novo-complexo-de-favelas-no-rio-deixam-rastro-de-desaparecidos-e-tentam-impor-religiao.ghtml

  1. Li o texto todo, cada linha e é algo que aposto que poucos farão — e cabe uma crítica ao autor nesse aspecto, já que suas críticas são instigantes, mas o formato está mais à busca da legitimidade conferida pelo modelo acadêmico do que em fazer-se comunicar, o que é curioso, já que a ideia da forma se sobressaindo em relação ao conteúdo é uma das críticas centrais formuladas — e corretamente pontuada — pelo autor.

    Sobre o texto, acho muito válido para a leitura e toca em muitos problemas concretos do PDT. Também me chamou a atenção a indignação, que acredito ser um dos sentimentos mais nobres e honestos para a necessária mudança na política. Mas minha simpatia pára por aí, pois o autor se insere no que a meu ver é um dos problemas centrais do PDT: o esquerdismo. É visivelmente alguém buscando uma revolução socialista pra chamar de sua. Bem, o PDT é isso aí e justamente por isso naufragou. Mas o CIro é? O autor pela formação que tem devia saber que o Lemann, bilionário com b de bosta, tem uma parceria de longa data com Sobral, que é comandada há décadas pela família Ferreira Gomes. A Tabata,acusada de votar em nome dos seus financiadores, ajudou a aprovar uma reforma da Previdência IDÊNTICA no seu cerne à que foi aprovada no Ceará pelo apadrinhado político do Ciro, o Camilo Santana. Aliás, Mauro Benevides, economista assessor do Ciro Gomes, se afugentou no Ceará quando da votação para a reforma da Previdência por discordar dos termos da oposição que o PDT pactuou, que eram claramente visando cálculos eleitorais, uma vez que essas reformas costumam ser impopulares — ainda que imperativa no caso da Previdência.

    Há outro erro aí importante: o autor se refere à campanha do Boulos como um sucesso, quando, na verdade, ela não foi sucesso algum se pensarmos em competitividade. O Boulos teve exatamente a mesma votação que a esquerda costuma ter em São Paulo desde sempre, o 1/3 dos votos. Claro que para o Boulos foi uma vitória, ele saiu de 1% em 2018 nacionalmente para um segundo turno na principal capital do País. Mas isso é parâmetro pra quem? Nunca teve qualquer chance de vitória contra um candidato sem qualquer expressão como o Bruno Covas. E esse fervor militante exaltado no texto é muito de quem ainda está empolgado com a política por um viés juvenil: desde sempre eleição é decidida por voto silencioso, não por militância empolgada.

    Por fim, esse texto mostra justamente porque tenho cada vez mais ponderado em expor algum tipo de apoio público ao Ciro Gomes: sua militância tá repleta de pessoas que defendem claramente um projeto revolucionário e sedicioso para o Brasil. Mesmo contexto da militância petista nos anos 2000 que o Lula ACERTADAMENTE escanteou. Sempre faço questão de frisar e relembrar qual era o modelo reivindicado por aqueles que criticavam o tal pacto de conciliação do PT (e há outra opção por vias democráticas?) na década passada: a chavismo, que é uma verdadeira expressão de autoritarismo, com milícias armadas que o Bolsonaro aos poucos começa reproduzir aqui, e do fracasso. Quando o bebê é feio ninguém quer assumir a criança, mas hoje a Venezuela sequer é um país soberano, tornando-se um protetorado sino-russo face ao descalabro econômico, social e político liderado por revolucionários dos trópicos. Perto da calamidade venezuelana defendida como modelo por revolucionários cabeças-ocas, o Brasil é quase um paraíso — apesar do Bolsonaro, pior presidente da história, e dos governos terríveis da Dilma, que nos castigaram por uma década.

    No texto pelo menos há uma boa mensagem: cada vez mais a periferia se afasta do blá, blá, blá anticapitalista. O século XX foi taxativo pra qualquer um que queira olhar a História buscando nela encontrar a verdade: o capitalismo venceu e tornou o mundo mais próspero. Cabe a nós, quem busca encontrar na política soluções e não paixões e razões existenciais para preencher os vazios da vida, tentar soluções para suas contradições, que no nosso país continuam existindo aos montes — e que não tão restritas aos bilionários com b de bosta, mas também ao lobby do funcionalismo público a quem o discurso da esquerda tão convenientemente vem calhar e que junto com a direita, que faz a defesa corporativa do empresariado, responde pelo sequestro do orçamento estatal que acaba escapando das suas finalidades prioritárias, que é promover o bem estar do povo — e não de uma minoria mobilizada.

    Enfim, é isso. Saudações.

  2. Impressionante o fôlego do autor deste artigo para fazer a análise e diagnóstico da sua experiência de militânciaspartidárias. Além do grande fôlego, eu achei a análise muito bem feita. Quanto a me identificar com as conclusões que ele faz, isto é outra coisa, até por se tratar de análise muito associada a sua experiência particular.

    Me chamou a atenção o grau de solidão que ele experimenta quanto ao tema , que é também a minha solidão e a de tantos que não se disponibilizam a servir de cadeia de transmissão para interesses políticos. O curioso é que a deputada federal Tábata, muito jovem, cientista política e cidadão moderna; mais militante social e militante política do que militante partidária lhe serve de referência inteira na sua análise reflexiva, mas ele mesmo imediatamente a nega, talvez devido a desejar uma modernização das formas de organização, expressão e realização dos desejos políticos, mas tendo ainda muito arraigados os ranços adquiridos no PT e que ele quer que sejam superados, porém ele mesmo parece não conseguir desses ranços se desvencilhar. O principal desses ranços que ele carrega, para mim, é ainda estar preso a um clivo direita/esquerda, um traço dicotômico maniqueísta que carrega e que pode lhe ser bem cimentado, por ter sido adquirido na formação evangélica que possui e reforçado durante a militância petista que teve.

    Falando com disposição bem favorável, até por experimentar a mesma solidão política a partir de minha experiência partidária diferente da experiência de Paulo Ricardo – fui do PCB eurocomunista; hoje, tenho grande respeito e admiração pelo Partido Cidadania, herdeiro da vertente eurocomunista do PCB, uma vertente social-democrata que radicaliza na democracia, mas não me filio ao Cidadania porque esse partido, não conseguindo lastro eleitoral suficiente para se consolidar, acaba em certo grau absorvendo filiados menos interessados em seu programa e ideologia e mais interessados nos próprios projetos eleitorais. Mas é um partido político bem interessante e moderno. O Cidadania é a cara da deputada Tábata. Eu, mais recentemente, e absolutamente desejoso de ver superada a polarização dos dois populismos autoritários Lula/bolsonaro, venho acompanhando Ciro Gomes, mas desejando também que a candidatura Ciro reúna os vários partidos de centro-esquerda, o PSB, o Cidadania, o PDT, o Rede, o PV e, possivelmente, o PCdoB, que na minha percepção vem repensando sua filosofia interna e pode se associar a um projeto de fusão dessas diversas forças políticas, que eu considero como fragmentos de uma mesma força partidária social-democrata. – retomando, falando com disposição bem favorável, uma boa iniciativa do autor deste artigo para vencer o que na minha percepção se trata de uma grande solidão política a partir de desidentificações diversas com os projetos partidários, seria exatamente se reaproximar da deputada Tábata Amaral, cuja modernidade política melhor expressa os desejos do autor, sendo que para essa aproximação o autor terá que modernizar sua visão nos temas economia e trabalho e previdência, modernização a que ele aparentemente mais resiste, mas sem o quê não conseguirá realizar seus desejos modernizante. Paulo Ricardo me pareceu moderno e vigoroso como a Tábata, mas com ranços, limites ideológicos, que o mantém amarado ao passado.

    Edson Luiz Pianca
    [email protected]

  3. Sinceramente, percebo um ranço de petista ainda latente no discurso. A transformação requer empenho, persistência, resistência e TENACIDADE.
    Perfeição não existe, muito menos na política. A Revolução/evolução é um processo e leva tempo.
    A crítica política construtiva e pertinente, é crucial e bem vinda. Mas se vc não acredita ou é fiel à luta, que irá motivar e mobilizar a transformação, vc não será parte dos vitoriosos.
    Precisamos, neste momento crítico, único e gravíssimo da nossa história, de pessoas, jovens que atuem positivamente e sejam colaboradores dedicados. E vc não me parece ser um deles.

  4. O Sr. Wanderson Marçal em seu comentário fez uma afirmação intrigante e ao mesmo tempo confusa: de que o século XX demonstrou que o “capitalismo venceu e tornou o mundo mais próspero.” Mas, e a Grande Depressão de 1929, que engolfou o mundo na pior crise econômica de toda a sua história? Não significou o fracasso do capitalismo? (ou do liberalismo econômico, como também é chamado?). Como todos nós sabemos, se não fosse a renovação (provavelmente uma revolução) teórica produzida pelo sr. John Maynard Keynes, e a implementação de políticas de intervenção estatal na economia, inclusive no Estados Unidos (o centro do liberalismo no supracitado século!) pela mãos de Franklin Roosevelt, o efeitos da Grande Depressão teriam sido muito mais perversos e duradouros. Quanto ao texto do sr. Paulo Ricardo, percebo que muitas de suas elucubrações se ajustariam mais ao Lula e o PT do que ao Ciro e o PDT. Qual deles, Lula ou Ciro, se considera o líder inconteste da esquerda, que não pode jamais ser ofuscado por qualquer outro que deseje defender as causas populares? Qual deles, Lula ou Ciro, se considera uma “ideia transcendental” na política brasileira, a grande panaceia do povo? Quem procura exercer um controle hegemônico, quase tirânico, sobre o campo da esquerda e em todas as suas manifestações? O PT ou o PDT? Falar em centralismo democrático (ou partidário) e em suas aberrantes contradições significa, no caso brasileiro, inevitavelmente apontar para a tentativa de Lula e do PT de arrogarem para si o controle sobre as esperanças e anseios da população pobre, trabalhadora e periférica.

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