Carnaval 2022: entre cultura, prudência e higienismo

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Há músicas que ouvimos a vida toda, mas que só somos capazes de escutar de verdade quando algo acontece e nos leva a isso. Hoje escutei “Vai Passar” como nunca antes. Nesse clássico de 1984, Chico Buarque expõe o pior e o melhor do Brasil e foi capaz de sintetizar, quatro décadas atrás, meus sentimentos em relação aos debates sobre a realização do Carnaval em 2022:

“A nossa pátria mãe tão
distraída
Sem perceber que era
subtraída
Em tenebrosas
transações

Seus filhos
Erravam cegos pelo
continente
Levavam pedras feito
penitentes
Erguendo estranhas
catedrais
E um dia, afinal
Tinham direito a uma
alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval”

O Carnaval é muitas coisas: um emaranhado de cultura popular, arte, epifania, suor, purpurina, desabafo e celebração. É também o ganha pão de muita gente. Mas entendo que essa festa, essencialmente, sempre foi o direito impossível de recusar aos brasileiros (ao contrário de tantos outros, sistematicamente retirados). Ela é algo capaz de promover um hiato, ainda que breve, na negação da humanidade. De forma orgânica, celebra o que há de melhor e denuncia o que há de pior. O Carnaval é a chance de vida do povo que tentaram tanto matar.

Penso que é só por isso que, neste momento, querem sustentar que pode tudo, mas não pode o Carnaval. E quem faz isso, majoritariamente, são os mesmos que vociferam contra as vacinas, as medidas de distanciamento e o uso de máscaras.

Obviamente, não defendo a realização da festa a qualquer custo e penso, inclusive, que tal decisão deve ser tomada com rigorosa observância das orientações de especialistas (em saúde, e não em moralismo). Sou a favor, portanto, de medidas que sejam sanitárias, não higienistas. E atacar seletivamente o Carnaval enquanto são mantidas, por exemplo, festas privadas e outros eventos com milhares de pessoas é higienismo puro.