Tarifaço de Trump é oportunidade para o governo

Tarifaco de Trump e oportunidade para o governo
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Por Arthur Pentagna – Toda crise é uma oportunidade, ensina o clichê. Apesar de ser uma frase tão batida, no entanto, não deixa de ser verdade. E, talvez, nenhum exemplo se aplique melhor à sabedoria embutida no chavão do que a atual crise gerada pelo “tarifaço” que Trump aplicou ao Brasil. Não é o primeiro cavalo selado que passa na frente do governo Lula III, mas pode ser que seja o último.

Para ficar em apenas um exemplo, ainda em 2024, ganhou força, nas ruas e nas redes, o movimento pedindo o fim da escala 6×1. Era uma oportunidade, extremamente rara na atualidade, de trazer o debate para o campo da esquerda. Receoso de atritos com o Congresso, o governo preferiu observar os desdobramentos à distância. Como consequência, o movimento esfriou e o timing foi perdido. O trabalhador pobre e precarizado, que em tese deveria ser defendido por um governo de esquerda, ficou mais uma vez a ver navios.

Agora, faltando pouco mais de um ano para a próxima eleição presidencial, surge o “tarifaço” de 50% sobre produtos exportados pelo Brasil anunciado por Trump. Como pretexto, o mandatário estadunidense alegou uma suposta perseguição ao ex-presidente Jair Bolsonaro. Sem perder tempo, um dos filhos de Jair, o deputado licenciado Eduardo Bolsonaro correu às redes sociais para comemorar a notícia. “Povo Brasileiro, vamos fazer o mundo ouvir a nossa voz. Coloque o seu agradecimento ao Presidente Donald Trump abaixo e vamos rumo à lei Magnistky!”, exultou-se Eduardo em sua conta no X, ex-Twitter.

Aqui cabe um parêntese para se entender o que está em jogo. Os Estados Unidos são, atualmente, o segundo maior importador de produtos brasileiros, ficando atrás somente da China. Em 2023, o valor dos produtos exportados por nosso país para lá superou os 35 bilhões de dólares. Praticamente todos os setores de nossa economia sofrerão se essa taxação se confirmar. Na indústria extrativa, petróleo e derivados, ferro e aço estão entre os principais artigos importados pelos estadunidenses. Na indústria de transformação, aviões e veículos pesados. Já no agronegócio, em geral associado ao bolsonarismo, serão prejudicados principalmente os produtores de café, cana-de-açúcar, carne bovina e madeira.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que não há muito tempo posou, em atitude de patética subserviência, com o boné vermelho que virou a marca de Trump, verá 20% das exportações de seu estado sob risco. Santa Catarina e Minas Gerais, unidades da federação que também são governadas por políticos que se alinham ao bolsonarismo, obtêm respectivamente cerca de 15% e 12% das suas receitas de exportação dos Estados Unidos. Que fique claro, o que está sendo comemorado por Eduardo Bolsonaro e pelos aliados mais caninos de seu pai é o desemprego e o empobrecimento do povo brasileiro.

Não é uma novidade no multiverso do bolsonarismo topar qualquer parada em troca da sobrevivência. Recentemente, em depoimento prestado no Supremo Tribunal Federal, o próprio Jair Bolsonaro classificou como “malucos” aqueles que pediam intervenção militar após as eleições de 2022 e que, até pouco tempo atrás, eram tratados como mártires pela liberdade. Mas a hipocrisia do bolsonarismo nunca atingiu níveis tão elevados e sua máscara nunca esteve tão próxima de cair. Agora, no altar da adoração à figura do ex-presidente, eles pedem o sacrifício de toda uma nação. Logo eles, que se autoentitulam patriotas.

Cabe ao governo diante dessa situação nada menos do que uma atitude de intransigente defesa dos interesses nacionais. Se necessário, inclusive, retaliando os desmandos de Trump aonde dói mais: no bolso. Os bolsonaristas mais radicais, obviamente, vão continuar vomitando narrativas nas redes sociais. O problema é que dessa vez os endinheirados também sentirão as consequências da irresponsabilidade e do viralatismo da família Bolsonaro e sua trupe. Faltando pouco mais de um ano para a próxima eleição presidencial e com a popularidade em baixa, o governo não pode deixar mais essa oportunidade voar pela janela.

Por Arthur Pentagna