Por Mauro Baptista Vedia – Ainda chocado com algumas críticas feitas a “Ainda estou aqui”, escrevo este texto para manifestar várias questões que tenho refletido sobre o longa-metragem de Walter Salles. Fiquei profundamente impactado pelo filme: ele é excelente, está entre os melhores filmes brasileiros dos últimos 30 anos e é um dos melhores desta safra do Oscar. A excelência estilística da obra é evidente: a mise en scène é superior, a produção é sofisticadíssima, o elenco inteiro e a seleção de atores apresentam um nível quase inédito em nosso cinema. E a direção de arte, o que dizer dela? Não estamos acostumados a ver filmes que retratam nosso passado com tal sofisticação e sutileza. “Ainda estou aqui” apresenta, portanto, um nível muito superior à produção cinematográfica brasileira em geral, em parte, exclusivamente devido ao seu orçamento de quase oito milhões de dólares; em parte a Walter Salles e sua equipe de colaboradores.
O principal erro dessas críticas, que refletem algumas preocupações e senso comum de parte da população que ainda não viu o filme, é atribuir à obra problemas que não são dela, mas do nosso contexto político. Não considero que o filme seja propaganda política, pois não é um filme de esquerda, mas apenas progressista, a favor dos direitos humanos. Universalizar personagens e histórias e diluir sua especificidade política é uma estratégia comum em filmes que pretendem atingir grandes públicos.
Assisti ao filme há meses, logo que estreou, no segundo dia em cartaz. Gostei muito e saí da exibição com muitas emoções e sentimentos a serem decifrados, nada óbvios. Isso ocorreu muito antes das críticas, do sucesso de público e da indicação ao Oscar. Fiquei até surpreso com o impacto que essa obra teve em meu coração. Em seguida, troquei mensagens com um amigo de longa data, e concordamos que era o melhor filme de Walter Salles, superando “Central do Brasil” e “Terra Estrangeira”, que considerávamos muito bons.
A primeira parte do filme, o primeiro ato, enquanto o ex-deputado e pai de família Rubens Paiva está vivo, é uma verdadeira obra-prima, o melhor que o cinema brasileiro produziu nas últimas décadas. A câmera em mão, herança da tradição inaugurada por John Cassavetes, a direção de arte excepcional, a seleção de elenco, a montagem, a fotografia e a textura das imagens captadas em película confluem para evocar tempos gloriosos do Brasil e do mundo, revelando a infância de Marcelo Rubens Paiva, autor do livro que deu origem ao filme e filho do deputado. A casa no Leblon, sempre cheia de gente, a proximidade com o mar, a relação amorosa entre Rubens Paiva e sua esposa Eunice, o afeto do casal com seus filhos, a alegria de viver de todos os que aparecem na tela e a atuação extraordinária de Fernanda e Selton Mello, “incorporado” no ex-deputado, tudo contribui para que o espectador mergulhe nesse universo e se deleite, além do roteiro. É puro cinema, que se alimenta da tradição do cinema de arte, fazendo com que os espectadores sejam tocados e relembrem sua infância. Nós, espectadores, sabemos que algo ruim vai acontecer, e isso não nos impede de vivenciar, com alegria, junto com as personagens, esse canto à vida e essa celebração da família e dos amigos.
Os tempos das cenas, a textura das imagens, a montagem, a mise en scène de Salles e a fotografia criam atmosferas e sentimentos com sensibilidade, refinamento e bom gosto. Este primeiro ato do filme é construído com base em detalhes, cheiros, cores, tons e músicas, apoiados em uma dramaturgia eficiente que ganhou o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza. É, sem dúvida, a melhor direção de W. Salles, com uma mise en scène que se afasta do clássico e se aproxima do cinema de arte da nouvelle vague e de John Cassavetes, entre outros. É cinema da melhor qualidade, em um país onde a sétima arte está, desde os anos 80, muito influenciada pela linguagem da televisão. A produção cuidadosa e demorada, de altíssimo nível, contou com um orçamento generoso, para padrões brasileiros, sob a liderança de Rodrigo Teixeira, o produtor brasileiro com maior penetração no mercado internacional, e de Carlota Mendes pela Videofilmes, empresa dos irmãos Salles.
Saindo do cinema, lembrei de momentos de felicidade da minha infância, tanto em Montevidéu quanto posteriormente em Castelldefels, Barcelona, onde emigramos fugindo da ditadura no Uruguai. E nem sei se realmente lembrei, mas fui envolvido por uma aura nostálgica e maravilhosa construída pelo filme, resgatando um mundo passado que não voltará, aqueles anos 70 cheios de boemia e alegria de viver, sem a presença dominante da televisão, da tecnologia e, muito menos, dos celulares. Assisti a uma entrevista com Selton Mello, onde comentou que pretendeu evocar o Paiva “espiritualmente,” e assim foi. E é exatamente isso que o filme provoca: uma evocação espiritual e histórica do Paiva e sua família, para além da história em si; uma evocação o Rio de Janeiro daquela época, aquela cidade maravilhosa onde meus pais passaram a lua de mel, em total paz e harmonia, sem preocupações com roubos e violência. Aquele era um Rio onde as pessoas dormiam na praia, uma cidade muito menos violenta. No início dos anos 70, não havia quase narcotráfico, milícias, crime organizado, carros blindados e; havia problemas, claro, havia crime e violência, mas nada remotamente parecido com os dias de hoje.
Outro tipo de críticas me incomoda ao filme é um certo rancor em relação à posição social da família Paiva e do próprio Salles. Pois não há nada nesse segmento da infância dos Paiva que mostre opulência ou riqueza desmedida. O que vemos é apenas uma família de classe média alta que mora perto da praia, no Leblon (que não era um bairro tão elitizado como é hoje, como menciona Marcelo no seu livro). Quem leu o livro de Marcelo e conhece a história do Brasil sabe que o pai do ex-deputado do PTB era fazendeiro e que Paiva era um profissional de sucesso. Mas é importante esclarecer que não se tratava de uma família milionária, com várias poses, fazendas, indústrias ou bancos. Não. Tanto que, após o desaparecimento do pai do escritor, houve outras mortes na família Paiva que culminaram em uma grande decadência econômica, forçando-a a se desfazer da fazenda e de outras propriedades. Basta ler o livro de M. R. Paiva. Acontece que esta primeira parte do filme de Walter Salles possui ressonâncias universais e atemporais, independentemente de nossa posição social. A arte é isso; ela nos leva a nos colocarmos no lugar do outro, a sentir na pele vidas e lugares que não são nossos, seja da família Paiva, de uma prostituta de origem russa (Anora), de um menino de rua (Pixote) ou dos integrantes da classe trabalhadora do Reino Unido, como nos filmes de Ken Loach. No meu caso, éramos de uma classe média bastante modesta em Montevidéu, Uruguai, com bom nível cultural. Minha mãe era secretária de um alto executivo em uma fábrica, e meu pai alternava trabalhos administrativos em multinacionais. Não tínhamos empregada, e eu e minha irmã frequentamos a escola pública. Isso não impedia que, nos fins de semana, em um condomínio chamado La Raconada, passássemos horas à beira de uma bela piscina, acompanhados de famílias amigas, enquanto meu pai, Ariel, fumava seus cigarros e tomava sua taça de vinho; nós quatro desfrutávamos do sol da Espanha, com vista para uma montanha e uma torre medieval. Assim como Paiva, meu pai era um “bon vivant”: muito mais maluco que o Paiva, era um jogador compulsivo, um “Vadinho” uruguaio muito cinéfilo, um leitor ávido e uma pessoa extremamente divertida (em 2006, fiz um filme sobre meu pai, chamado “Ariel”, um pequeno documentário de 13 minutos que percorreu festivais no Brasil e no mundo).
Voltemos ao filme. A partir da detenção de Rubens Paiva pelas forças da repressão e da posterior prisão e detenção de Eunice, a obra adquire ares sombrios e segue para uma nova parte, igualmente excelente. É nesse momento que o filme entra no seu segundo ato, o do Conflito, onde o Estado brasileiro se torna o vilão e Eunice, a heroína da história; a Ditadura é representada pelas forças da repressão, encarregadas de praticar o terrorismo de Estado. E novamente, o filme nos surpreende em uma sucessão de cenas que evitam cair em diversos clichês de filmes de esquerda sobre a ditadura (outra crítica errônea feita sobre o filme). Os clichês mais notórios incluem mostrar o terrorismo de Estado como uma prática de pessoas bárbaras e ignorantes; além de explorar a tortura de forma sensacionalista, apelando a gritos, efeitos de montagem e efeitos sonoros, provocando reações emocionais no espectador ao chocar com cenas de violência explícita (lembremos do célebre texto “O travelling de Kapó”). Ou seja, uma abordagem pornográfica das cenas de tortura, uma fetichização da violência, algo infelizmente comum no cinema.
Walter Salles evita esses clichês de forma consciente. Os integrantes das forças de repressão são retratados como profissionais que sabem o que fazem; eles levam o Paiva para o centro de detenção enquanto outros ocupam a casa, respeitando os membros da família dentro do possível, e em nenhum momento extrapolam suas funções ou exercem o poder de forma descontrolada. Eles reconhecem a importância social e política da figura de Paiva, o que resulta em um cuidadoso tratamento do tema. A maneira como Eunice Paiva passa dias no centro de detenção, detida, sem ser torturada fisicamente, mas sim emocional e psicologicamente, é outro grande mérito do filme, que evita simplificações televisivas e se concentra em uma realidade histórica. É por meio de procedimentos cinematográficos, como a omissão e o uso do fora de campo visual e do som, que o espectador vai, aos poucos, imaginando o que acontece com Rubens Paiva. Toda essa parte, que se passa enquanto a família ainda mora no Rio de Janeiro, é angustiante, opressora e profundamente tocante. As plateias no cinema ficam em um silêncio sepulcral, absorvidas pelo drama, acompanhando a história da família do ponto de vista de Eunice Paiva, uma dona de casa tradicional que, de repente, se vê sozinha, tendo que cuidar de cinco filhos, sem saber o que aconteceu com seu marido. Outro aspecto a ser destacado é o impacto que o filme produz nas plateias e o envolvimento do público com a história.
De forma corajosa, e considerando as tendências dominantes na cultura atual, “Ainda estou aqui” retrata positivamente uma família clássica, onde o pai trabalha e a esposa cuida dos cinco filhos, em um casamento igualitário com papéis distintos. O herói que se torna vítima da ditadura é um homem heterossexual, pai de família e de situação abastada, que desfruta da boa vida, da boa comida e fuma charutos sem parar, evitando um clichê cinematográfico que associa charutos a vilões; naquela época, a primeira imagem que vinha à mente ao pensar em charutos era a de Fidel Castro. Esse lado clássico e conservador, de maneira positiva, conecta a obra a um público vasto, independentemente de ser de esquerda, centro ou direita, pois a família pode ser, sim, e muitas vezes é, afeto, carinho, senso de pertencimento, acolhimento e amor.
Por que o filme tem limitações em relação ao seu discurso político e histórico? A principal decisão de Salles e seus roteiristas foi omitir a trajetória política de Rubens Paiva, sua história como deputado do PTB, partido político fundado por Getúlio Vargas, que representava a esquerda nacionalista de Jango e Brizola. Paiva era uma figura de destaque no campo político, com uma perspectiva de uma carreira importante a serviço da nação brasileira; ele também mantinha contato com vários grupos políticos que lutavam na clandestinidade contra a ditadura, assim como muitos outros políticos ligados ao campo democrático e à esquerda. Na estratégia do filme de Salles, Paiva é descrito apenas como um advogado bem-intencionado, uma boa pessoa que apenas ajudava na troca de correspondência entre familiares e presos políticos. Não se menciona o nome do presidente derrubado pela ditadura em 1964, Jango Goulart, muito menos o de Leonel Brizola (um nome maldito na Rede Globo), ou os líderes da agrupação política a qual pertencia Paiva. Essa decisão garante um tom universal e apolítico, que funciona muito bem nos dois primeiros terços do filme, situados em 1971, em pleno Ato Institucional nº 5, porém, mostra problemas na parte final da obra, resultando na impressão de que sobram uns 15 minutos.
A questão é a seguinte: em 1971, há um vilão claro, que são as Forças Armadas e o Estado Brasileiro, forças contrárias à família Paiva. Após esse período, já na democracia da Nova República, a luta de Eunice perde força, uma vez que se opta por não nomear quem é a força opositora ao direito de saber o que aconteceu com o ex-deputado. O filme não explica por que o Estado brasileiro não assume que houve tortura e assassinatos durante a ditadura militar. Não há menção à Comissão da Verdade, à lei de anistia promulgada por João Figueiredo em 1979, ou qualquer questionamento ao sistema político da democracia brasileira e sua falta de empenho em revogar a lei de anistia e levar a julgamento os membros das Forças Armadas responsáveis por assassinatos e torturas. Portanto, todo o último terço do filme, a parte “contemporânea”, que se passa durante os anos 80, 90 e até os dias de hoje, apresenta um ritmo arrastado e didático. Sintomaticamente, não vemos muita esperança nesse retrato do Brasil democrático. Esse terceiro ato tem um tom morno e sem força, onde acompanhamos Eunice em uma luta na qual não há uma força de oposição definida. Se ela é indubitavelmente uma heroína, quem é o vilão? O sistema político não é nomeado, muito menos o PT, partido dominante da esquerda brasileira, que ganhou quatro eleições presidenciais. Trata-se de uma esquerda menos nacionalista do que a de Rubens Paiva, mais ligada à New Left, sempre à procura de conciliação, características de seu líder, Luís Inácio Lula da Silva.
Por que o Brasil demorou tanto para fazer filmes sobre o terrorismo de Estado? Essa foi uma pergunta que Walter Salles teve que responder durante a campanha do Oscar. Existem alguns fatores: a ditadura brasileira teve um enorme sucesso econômico, algo que as ditaduras uruguaia e argentina não alcançaram; é importante lembrar a época do milagre brasileiro, com um crescimento expressivo do PIB. Claro que houve um aumento brutal da concentração de renda, deterioração das cidades e o surgimento de níveis de violência e criminalidade que não existiam no Brasil anterior a 1964, entre outros problemas. Mas o crescimento econômico e a explosão do consumo trouxeram apoio de grande parte da população ao regime militar. A ditadura brasileira também foi pragmática em suas políticas de Estado: foi durante esse período que o cinema brasileiro viveu seu auge cultural e econômico com a Embrafilme. E, de forma irônica, se não trágica, no Brasil, alguns setores chamavam o golpe de Estado de “a revolução”. Somado a isso, há o fato de que o Brasil, culturalmente, olha para o futuro e não tem grande apreço pela memória e pelo passado. Esses são apenas alguns dos fatores que explicam por que o Brasil demorou a produzir filmes sobre a época da ditadura e sobre o terrorismo de Estado praticado. Além disso, contextualiza e explica a aceitação do discurso e das barbaridades que Jair Bolsonaro proferiu durante o impeachment de Dilma Rousseff em 2014 e durante a campanha presidencial de 2018.
Em conclusão, “Ainda estou aqui” de Walter Salles se destaca como uma das obras mais significativas que lembre do cinema brasileiro contemporâneo, por sua excelência estilística e narrativa. A habilidade de Salles em evocar emoções se reflete na qualidade da mise en scène, nas atuações memoráveis e na direção de arte sofisticada. O filme resgata a memória de um período obscuro da história brasileira, evitando clichês comuns em representações de ditadura. Além disso, o longa promove uma reflexão profunda sobre o terrorismo de Estado e os direitos humanos. A conexão emocional que estabelece com o público, evocando memórias pessoais e coletivas, é prova da força da obra.
É importante relembrar que “Ainda estou aqui” foi produzido sem apoio de verbas públicas. Pelas regras atuais, esse filme não teria recebido financiamento público. Nos últimos dez anos, o identitarismo dominou as políticas públicas. Veja, por exemplo, o que ocorreu com a SP Cine: sob o bem-intencionado pretexto de incluir as minorias, as maiorias foram excluídas. Assim, o setor cinematográfico encontra-se dividido entre as grandes produtoras e as pequenas, à mercê do grande capital. Essa realidade ilustra os desafios que a indústria cinematográfica brasileira enfrenta, especialmente em relação ao financiamento de produções. Iniciativas como o Fundo Setorial e a Lei da TV Paga representaram grandes avanços no passado: é necessário revitalizar esses esforços. Precisamos de um consenso nacional que una as forças em prol do fortalecimento do cinema no Brasil. A ausência de ações e políticas sólidas, especialmente diante das novas regulamentações das plataformas de VOD (video on demand), representa um entrave ao progresso da indústria. Para garantir que filmes como “Ainda estou aqui” continuem surgindo e impactando o público, é crucial fomentar a união do setor, possibilitando uma produção cinematográfica que reflita a complexidade da sociedade brasileira.
O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de “Ainda estou aqui” é algo tremendamente positivo, pois entre outras coisas, abre portas para que outros filmes brasileiros possam brilhar no cenário internacional, ampliando a visibilidade de nossas histórias. Contudo, para consolidar esse sucesso, é vital estabelecer um pacto nacional em torno de políticas públicas abrangentes que fomentem a produção cinematográfica. O futuro do cinema brasileiro depende da nossa capacidade de unir esforços em prol dessas políticas e fortalecer a infraestrutura necessária para que cineastas e criadores tenham os recursos adequados para contar suas histórias. O cinema brasileiro, como uma poderosa ferramenta de expressão artística e cultural, precisa continuar a inspirar futuras gerações. Todavia precisamos luchar mucho.
Por Mauro Baptista Vedia






